NEY FRANCO, GLÓRIAS E RUÍNAS

abril 19, 2014

Calma, minha comadre, largue estas pedras. Sim, é fato que hoje é Sábado de Aleluia, dia de malhar o Judas, mas é também o momento para uma reflexão ponderada, para olharmos as coisas em perspectiva a partir de uma visão retrospectiva – seja lá que porra isto signifique.

Então, antes de tudo e de mais nada, faz-se mister analisar todo o período de Ney Franco no comando técnico da Esporte Clube Vitória, para podermos fazer um efetivo balanço de perdas e danos, ok?

Como diria Goulart de Andrade, apresentador do Comando da Madrugada: vem comigo.

Seguinte.

Quando o referido tocador de violão em barzinho e dublê de treineiro assumiu o Vitória, no início de setembro do ano passado, o Leão vinha de três derrotas seguidas e ocupava a 10ª posição. Naquela noite de quarta-feira, mesmo sem tempo para realizar treinamentos, ele decidiu ir para a casamata testemunhar a quarta derrota seguida do Rubro-Negro, diante de um Flamengo todo malamanhado.

Logo na sequência, o Vitória enfrentou o Atlético Mineiro, então campeão da Libertadores, num Barradão totalmente encharcado. Apesar de o futebol ainda não ter dado as caras, o time jogou com raça – e  Ney Franco voltou a apostar na dupla Marquinhos & Dinei, que havia feito misérias juntos no Brasileirão de 2008. A partir de então, foi aquela fase histórica que todos já conhecem, com o time realizando a melhor campanha do 2º turno do Brasileirão e lutando por uma vaga na Libertadores até a última rodada.

Porém, apesar de todas estas glórias, Ney Franco sofreu um forte revés em outubro, ao ser derrotado pelo cambaleante time tricolor na Fonte Nova por 2 x 0. O Vitória era muito superior à equipe de Itinga, mas este jogou com muito mais aplicação e garra. Naquele momento, já ficava claro que Ney Franco não tinha incorporado o espírito do Ba x VI, não sabia qual a real dimensão do clássico.

E é exatamente aí que começa a pesar sobre seus ombros este fardo pesado, que tornou-se praticamente insustentável na final deste JABAZÂO/2014. Porém, este não foi seu único pecado.

Este começo de 2014 mostrou também que Ney Franco não sabe jogar contra time de menor expressão. Parece que seu sistema tático só funciona contra times grandes, pois estes se expõem e podem ser surpreendidos. Contra equipes fracas do campeonato baiano e do Nordeste, a campanha e as atuações do time foram um fiasco. (Alguns vão argumentar, não sem razão, que perdemos peças importantes que não foram repostas e etc e coisa e tals. Sim, mas Ney Franco tem, ou deveria ter, o dever, a autoridade e senso para saber o que deve prestar ou não, invés de aceitar e escalar certas injúrias que nem citarei mais o nome)

Porém, o fato é que não é mais o momento de ficar remoendo nada disso. Agora é bola pra frente. O Brasileirão começa hoje, com um Vitória enfrentando o Internacional, um dos principais favoritos ao título. Talvez, então, o time de Ney Franco volte a surpreender, pegando as pedras das ruínas deste início de 2014 para construir castelos (mesmo que ilusórios e temporários) de glórias.

Oremos

NÃO É MOMENTO DE BALANÇO. A HORA É DE CHACOALHAR

abril 14, 2014

Antes de tudo e de mais nada, faz-se mister informar que todo este alvoroço sardinhesco é mais do que compreensível e justificado. Afinal, nos últimos 20 campeonatos, o tricolor ganhou 4, média de 20%. Ah, sim. Se quiserem botar na conta aquela vergonha do tapetão itapagipano, a média sobe para 25%, mas mesmo assim num dá nem pra passar no Enem.

Outro dado de destaque na glória das sardinhas é que, neste final de semana, além delas, diversas outras equipes pequenas também levantaram a taça, a exemplo do Londrina, Ituano e Atlético (GO). Portanto, nada mais justo que botem trio elétrico na rua, se joguem no dique, a porra toda.

O fato é que, este JABAZÃO/2014, conforme eu já havia ressaltado na homilia dominical, “manteve e aprofundou a sina de descalabro dos últimos campeonatos baianos, consolidando-se como um amplo insucesso de público e crítica. Jogos de baixíssimo nível técnico, arbitragens desastrosas e muitos estádios com gramados dignos de vaquejadas. Antes que algum apressado conclua que esta desqualificação acima comprova que a competição não vale nada, informo logo: sim, a competição realmente não vale nada”.

Portanto, não farei nenhum balanço – até porque, conforme tá registrado no título acima, o momento é de chacoalhar.

É fato que a diretoria já começa aquelas atitudes engana – besta, lançando nas rádios amigas da vida insinuações sobre dispensas, reformas e contratações.  É bem provável que amanhã ou depois se reúna novamente com alguns representantes de facções de torcidas organizadas para que estes manifestem apoio na importante luta pela Copa do Brasil.

Porém, creio que o momento reivindica atitudes muito mais sérias da massa Rubro-Negra, especialmente de seus mais de 9 mil associados. É hora de reunirmos forças para propor uma Assembleia Geral e, assim, estabelecer um diálogo verdadeiro com a diretoria de pontos relevantes para o Clube, enquanto Instituição – e não apenas nas quatro linhas.

Afinal, se não tivermos um Clube democrático, transparente, profissional, organizado e que respeite efetivamente o torcedor, viveremos apenas dos rasantes voos de galinhas, sem um crescimento realmente sustentável. O Vitória, mais do que nunca, precisa mudar, deixando de ser um time que tem uma torcida para se transformar num Clube em que a torcida participa efetivamente da construção de seu destino no cotidiano – e não por conta de acordos fechados pela alto.

É fundamental que o presidente Carlos Falcão comece a pensar seriamente em mudanças e seja partícipe efetivo de um novo tempo no Clube, escrevendo seu nome em uma história visceralmente democrática. Caso mantenha a atual postura, depois não venha ficar dizendo que Santo Antônio lhe enganou.

 

P.S.1 Aos incautos, que por ventura apareçam aqui dizendo que lutar por mudanças é oportunismo, lembro-lhes que esta é uma luta digna e antiga no Vitória.

P.S.2 Na quarta-feira estarei no Estádio novamente incentivando o Vitória na Copa do Brasil.

P.S 3 Amanhã falarei especificamente sobre atuação de Ney Franco no comando (?) da equipe

O QUE (EFETIVAMENTE) TÁ EM JOGO HOJE?

abril 13, 2014

Este JABAZÃO/2014, que se encerrará no início da noite deste já histórico dia 13, manteve e aprofundou a sina de descalabro dos últimos campeonatos baianos, consolidando-se como um amplo insucesso de público e crítica. Jogos de baixíssimo nível técnico, arbitragens desastrosas e muitos estádios com gramados dignos de vaquejadas. E, como se já não bastassem todas as chibanças, o domingo ainda amanheceu inconsequentemente chuvoso.

Antes  que algum apressado conclua que esta desqualificação acima comprova que a competição não vale nada, informo logo: sim, a competição realmente não vale nada.

Porém, nada disso importará quando o sacrista do Péricles Bassol soprar seu apito pela primeira vez no Estádio Negopolitano. Todas estas disgraças e muitas outras serão suspensas e teremos noventa minutos e mais uns quebrados da mais completa e absoluta, como o perdão da má palavra, transcendência.

Neste período, acreditaremos piamente que estamos diante uma disputa épica, com guerreiros lutando para honrar as cores da nação. Sim, o Ba x Vi, a mãe de todas as batalhas,  tem também este poder de (nos) iludir.  Uma ilusão deliciosa e intensa, ressalte-se. Tão intensa que ela efetivamente é real. No clássico, tudo se torna grandioso. Até um tiro de meta transforma-se num momento de emoção. Um simples chute para lateral, quando feito com a devida energia, eleva o reles zagueiro a um gladiador.  Enfim: é uma chibança dos 600 DEMÔNHOS. É como se nossas vidas estivessem em jogo – e elas efetivamente estão.

Aliás, como já ensinou o menino Bill Shankley, futebol não é uma questão de vida ou morte: é muito mais importante do que isso. E o Ba x Vi, como todos sabem, é mais importante do que o próprio futebol. O clássico tem 80 e poucos anos, mas temos a convicção de que ele começou antes do próprio verbo. No princípio era o BA x Vi e depois Deus fez todas as outras coisas.

Então, amigos, é a preservação e perpetuação de tudo isso que efetivamente está em jogo hoje. Cada um de nós, seja Rubro-Negro ou tricolor, tem a obrigação de defender este nosso patrimônio imaterial contra alguns infames que tentam enojá-lo e maculá-lo com a nódoa da banal violência.

A única guerra aceitável é dentro das quatro linhas. E que vença realmente o melhor, o Leão devorador de sardinhas.

 

FLERTANDO COM A INFÂMIA

abril 9, 2014

Os torcedores do Bahia deflagraram, nas redes sociais, uma estúpida campanha denominada #invasaopituaco45, com o objetivo de ocupar na partida final do campeonato, no próximo domingo, dia 13, mais lugares do que o determinado pelo Estatuto do Torcedor.

Não bastasse a campanha em si já ser, no mínimo, uma temeridade, as mensagens postadas pelos adeptos da aventura ultrapassam a linha da simples gozação e entram no terreno pantanoso da provocação violenta.

(Não colocarei nomes aqui, até porque acredito que, depois que passar este estado de ebriedade, alguns possam refletir melhor e voltar atrás. Mas reproduzirei uns  conteúdos para que se tenha uma idéia do nível da insanidade). Eis.

A maior operação de todos os tempos. #InvasãoPituaço45

#InvasaoPituaco45 ESTOU CHEGANDO DE CONFORÇA

#InvasãoPituaço45 to colado !!! isso é só pra quem tem torcida, quem nao tem se lasque !!!!

Vai ser lindo a PM-BA fazer cordão de isolamento em 30% de PITUAÇO, domingo, pra torcida do vice de tudo. #InvasaoPituaco45

Torcida rival vai ficar ilhada em Pituaço. Esse é o quadro que se desenha.

Acabei de conversar com o Presidente da Terror Tricolor. Ele apoia o movimento #InvasãoPituaço45

Capaz mesmo da TUI partir pra cima dos torcedores do Bahia à paisana e ainda apanhar, por estar em menor número. #InvasãoPituaço45

Existem outras, muitas outras, mensagens convocatórias que não foram transcritas aqui por serem ainda mais apelativas. Outro dado grave é que os dementes partem de uma premissa absolutamente falsa. Qual seja. A de que a torcida tricolor tem lotado os estádios. No último BA x Vi, para ficarmos em um exemplo, eles tinham direito a 90% do total de lugares. No entanto, compraram menos de 30 mil, deixando sobrar mais de 10 mil ingressos. Isto em uma final de campeonato. Se formos analisar os números friamente, o Vitória teve mais público pagante na Copa do Nordeste e praticamente igual no baianão, excetuando-se os BA x Vi, que não podem ser computados igualitariamente, já que existiram dois com mando do Bahia.

Ressalte-se ainda que não há nos últimos anos nenhuma supremacia digna de nota no que se refere a público pagante que justifique tão cabotina inciativa. Ao contrário. É só conferir os dados nos borderôs das federações.

Porém, a questão é muito mais grave e não pode ser resumida apenas aos números. O problema deve ser debatido é no campo ético. O debate agora não é nem se 90% para uma torcida e 10% para outra é o justo. Mas, sim, que é o combinado. E o combinado num é caro nem barato.

Pessoalmente, sou totalmente contra esta divisão. Inclusive, não sei onde estavam estes que agora pregam a inescrupulosa invasão quando se cogitou fortemente na imprensa e em outros setores a imbecil idéia da torcida única, mas sei que eu estava do outro lado da trincheira, participando de uma campanha conjunta com o pessoal do BBMP para reverter a estupidez.

Aliás, cabe registrar e louvar a atitude de, entre outros, dois tricolores que participam do mesmo BBMP, Cássio Melo e Fábio Domingues. Sem temer a patrulha, fizeram questão de, lutando contra a corrente, se posicionar condenando a horrenda ação.

Fabio Domingues ‏@fpadomingues  8 h

Parem com essa ideia estúpida de #InvasaoPituaco45. É futebol, não guerra. Respeito acima de tudo.

 

Cássio Melo ‏@CassioCMMelo  9 h

Institucionalizar ou incentivar uma “invasão” da torcida do Bahia a Pituaçu é errado. E pode dar problema, eu evitaria isso.

 

Institucionalização do incentivo. Creio que aí é que reside uma questão bem mais grave. Que torcedores apaixonados cometam deslizes, ainda pode-se tentar compreender, mesmo que não seja justificável ou aceitável. Porém, o que é completamente inadmissível é a “institucionalização” do incentivo a um processo macabro destes.

E é, infelizmente, o que está ocorrendo na direção do Bahia. Fiz questão de conferir o noticiário relativo ao primeiro Ba x VI do ano, em fevereiro. Na ocasião, a direção do Bahia, de modo correto, informou apenas os pontos de vendas para a torcida tricolor. Agora, porém, de modo sorrateiro, diz que os tricolores terão direito a apenas 10% por cento, mas fazem questão de divulgar no site oficial todos os pontos de venda para a torcida do Vitória.

Neste grave momento, o mínimo que se esperaria da direção de um clube em que a torcida está prestes a cometer uma insanidade era a reprovação formal do ato. Porém, além do silêncio, a direção do Bahia ainda faz este incentivo sorrateiro.

Não estou aqui para ensinar nada à direção tricolor, eles sabem o que deve ser melhor para os seus. Só opino mostrando esta terrível incongruência porque tal ato é extremamente grave e envolve a torcida Rubro-Negra. E também porque acredito que ainda dá tempo de evitar o pior, suspendendo definitivamente este flerte com a infâmia.

 

P.S Sou um crítico implacável da direção do Vitória, especialmente pela falta de democracia, transparência e profissionalismo, entre outras questões relevantes. Contudo, não seria ético de minha parte deixar de registrar que a atitude do presidente Carlos Falcão neste episódio foi a correta.

 

ATUALIZAÇAO: Finalmente e felizmente, a direção do Bahia lançou nota pública se posicionando de modo  contrário à campanha insana de invasão do espaço destinado á torcida do Vitória. 

Porém, a direção tricolor tervigersa. Deveria ter feito um mea culpa por ter incentivado de forma sorrateira a estupidez ao publicar os endereços dos pontos de venda destinados à torcida do Vitória.

Além disso, dizem lamentar que não tenha existido a divisão 60% a 40%. Ora, isto teria que ser combinado no início do campeonato, não no afogadilho, com o Vitória já com a vantagem e numa proposta indecorosa, não do Bahia, mas sim dos que administram (?) a Arena Fonte Nova. 

Cortina de Fumaça. Defendi é apenas o mordomo

abril 8, 2014

 

O fatídico day after do clássico cartão de crédito, o VISA (Vitória x Sardinha), não parecia uma segunda-feira, mas sim um inconsequente sábado de aleluia. A torcida do Vitória, não sem razão, queria jogar pedra na Geni, digo, no Rodrigo Defendi.

É óbvio que, diante de tantas e tamanhas lambanças na peleja, o referido sujeito é mais do que merecedor de todas as críticas. Porém, entendo que se faz necessário não exagerar na dose, concentrando-se no específico e esquecendo-se do geral.

E, antes que algum apressado revoltadinho ache que estou querendo derivar, botar panos quentes e defender o sujeito indefensável, saco do coldre umas prosopopéias que rabisquei há mais de um mês, exatamente no dia 22 de fevereiro. Naquela ocasião, muitos, que hoje estão gritando raivosamente, mostravam-se tolerantes ou calavam-se diante das atuações do sujeito. Minha trincheira era outra, de denúncia, conforme os parágrafos abaixo demonstram e comprovam cabalmente. Nunca tive vocação para profeta do acontecido. Às aspas, maestro.

Por falar em embriaguez e carnaval, só decidi ir ao estádio porque sabia que Victor Ramos, titular da minha zaga no ano passado, tá no México e não entraria em campo ressaqueado, como era seu costume. Porém, Rodrigo Defendi, seu substituto, é mais distraído do que Victor Ramos bêbado e pensando nos peitos siliconados de Nicole Bahls ou no shortinho da Moça Gerasamba.

O problema de Rodrigo Defendi (sobrenome num é destino) num é nem ele ser ruim, até porque isso seria uma virtude para um zagueiro. A tragédia é que ele é muito mole, muito educado para uma pessoa que deve cuidar da zona do agrião como um matador de filme B. O desinfeliz é o contrário disso. Ele parece esses carinhas mudernos que usam óculos da moda, brinco colorido e trabalha em ONGs. Não ofende ninguém. Deuzulivre.

Aliás, parênteses. (Apesar de o sujeito não merecer, cabe mais umas duas linhas sobre o referido. Nem tudo nele é ruindade. Seu exemplo serve como prova cabal de que o futebol europeu e estas champions leagues da vida são torneios muito superestimados. Como assim? Assim, ó. Este rapaz esteve no Tottenham, Udinese & Roma, entre outros menos cotados como Vitória de Guimarães e Avelino. É fato que quando voltou da Europa foi direto para um time do mesmo nível de lá: o Palmeiras B)”.

Pois muito bem, digo, pois muito mal. Quando afirmo que alguns estão exagerando na dose contra o indigitado é porque, de certa forma, estão entrando no jogo dos que querem tergiversar, criar cortina de fumaça e fugir de suas responsabilidades. A verdade é que, no Esporte Clube Vitória, existiram e existem vilões muito mais danosos do que Rodrigo Defendi.

Não foi à toa que ontem logo cedo surgiram notícias (na verdade, boatos) de que a direção havia barrado o zagueiro. Era a velha tática de jogar pra torcida, pra mostrar que a diretoria estava numa luta justa contra o cara que enojou o baba. O problema é que tal notícia, que correu as redes sociais, não se sustentava. Até porque se a direção usasse da prerrogativa de barrar um jogador contra a vontade do técnico (Ney Franco deu declaração de que não ia queimar o referido, como se o sujeito já não fosse queimado) seria o caso deste colocar sua viola no saco e se picar.

É preciso, necessário, fundamental que estejamos atentos a todas estas manobras da diretoria e de setores da imprensa que, com estas cortinas de fumaça, tentam obnubilar nossa visão.

É óbvio que devemos e podemos ficar injuriados com as pífias atuações de Rodrigo Defendi, mas temos que saber que ele é apenas mais um mordomo. Os responsáveis pelos sérios problemas porque passam equipe e a Instituição são aqueles que não fizeram um planejamento adequado, que desrespeitaram o torcedor e que se guiaram, uma vez mais, por um atávico amadorismo.

É deles que temos que cobrar mudanças urgentes e necessárias para que a casa não fique ainda mais fedendo a homem do que já está.

P.S Amanhã falarei especificamente sobre as quatro linhas. Aguardem e confiem. 

QUEM É DESCARADO?

abril 7, 2014

No árido e sábio sertão, aprende-se logo cedo que de cavalo dado não se deve olhar os dentes . Mutatis mutandis (recebam um latinismo na torácica), o mesmo vale para caronas, especialmente nesta província lambuzada de dendê e de exclusão, onde, além de pagarmos a tarifa de taxi mais cara das grandes capitais, ainda sofremos com o pior sistema de transporte coletivo dos 29 continentes.

Diante desta brutal e inexoravelmente opressora situação, não me restou alternativa senão aquiescer quando entrei no carro e percebi que  todos estavam ouvindo os impropérios e as impropriedades comuns nas resenhas esportivas da vida.

Nem pensei em relutar até porque, para quem havia acabado de testemunhar Rodrigo Defendi (sobrenome não é destino) em campo por 90 minutos, um tantinho assim mais de sofrimento poderia ser perfeitamente suportável.

Ledo e Ivo engano.

Com a voz típica dos infames, acostumados a amplificar de modo escrotamente sensacionalista as tragédias cotidianas, o comentarista largou algo mais ou menos assim. “O Bahia já é campeão. O torcedor do Vitória não deve ir a Pituaçu. Quem for é descarado”.

Tais aleotrias, em tom de patacoada, são perfeitamente plausíveis nos comentários radiofônicos desta besta e (ainda) bela Bahia.  O baixo nível aqui já nos proporcionou coisas muito mais vexatórias.

Porém, aquelas vis palavras ditas pelo indigitado assumem uma gravidade assombrosa  se analisada num contexto mais amplo.

Assim que assumiu o comando (?) do Esporte Clube Vitória, Carlos Falcão entregou à empresa do referido sujeito a responsabilidade por promover uma campanha de associação em massa ao Clube. O site que leva o nome do referido, inclusive, até recentemente ostentava um banner enorme, fruto desta parceiragem  (copiraite tiririca pai)  denominada “Corrente Rubro-Negra”.

Pois bem, digo, pois mal. Se já não é de  bom tom este tipo de negociação com radialistas, agora imaginem quando o cara que é contratado para incentivar associações ocupa o microfone para conclamar a torcida a abandonar o time.

Isto é algo devastador. Seria o caso de rompimento de contrato (se é que ele existe), denúncia por prejuízos entre outras atitudes. Na pior das hipóteses, exigir uma retratação pública e/ou não realizar mais nenhum tipo de  negócio com o tal rapaz.

Foi exatamente por estas e outras (muitas outras) que, em uma reunião em que diversos torcedores foram reivindicar democracia, transparência e profissionalismo no Vitória,  eu disse pessoalmente ao atual presidente Carlos Falcão (na ocasião ele era vice de Alexi Portela) a seguinte sentença que transcrevo em caixa alta.

UMA INSTITUIÇÃO DO PORTE DO ESPORTE CLUBE VITÓRIA NÃO PODE SER REFÉM DE  UM RADIALISTA, SEJA ELE BOM OU ORDINÁRIO””.

Mais do que nunca, presidente, esta frase acima continua atual. Aliás, agora, diante de tanta e tamanha desfaçatez, cabe um complemento, em tom de indagação e de indignação. “Quem é descarado?”

Os torcedores Rubro-Negros, em sua ampla maioria, eu tenho certeza que não são.

 

P.S Sobre aquela lambança de ontem na Fonte Nova, falarei depois. Assim como também, após a decisão do próximo domingo, citarei os nomes dos bondosos amigos que me concederam carona. Não faço agora porque tem uma aposta em jogo.

O ANO COMEÇOU

março 31, 2014

Ao contrário do que pensam os incautos, o ano na Bahia não se inicia depois do Carnaval, mas sim quando o Vitória começa a jogar bola. E como neste domingo, diante do Conquista, o Leão praticou o fino do Ludopédio, já se pode afirmar sem medo de errar: o ano, finalmente, começou. Atenção, hereges, acertem os ponteiros dos relógios, pois estamos em 2014.

Por falar em acertar ponteiros, foi exatamente isso que os jogadores fizerem antes mesmo de a bola rolar. Reunidos em círculo, parecem que eles se comprometeram a fazer valer o bicho, em todas as acepções da palavra. Algo como um ritual de passagem de ano novo, para ficarmos no campo das simbologias.

E como se precisássemos expurgar fantasmas, o primeiro gol foi exatamente de uma caveira, após um vacilo monstruoso da zaga do Conquista. Menos de 15 minutos a zaga Alviverde ficou assombrada, entregou a rapadura, e Hugo guardou no canto. Vale lembrar que neste interregno (recebam, fariseus, um interregno nos mamilos), o goleiro Augusto quase papa um peru de outro mundo num chute de Ayrton.

Por falar nisso, o lateral voltou a calibrar o pé, meteu uma tamancada assombrosa de fora da área, o goleiro rebateu e Juan deu números finais ao primeiro tempo. 3 x 0. Números finais é modo de dizer, pois se quiséssemos botar a matemática em campo, poderíamos dizer que o Vitória teve 128% de posse de bola, jogou com 114% de garra e técnica, além de ter tido um compromisso tático acima da média.

Aliás, Ney Franco largou o doce: “Nossa equipe é forte quando joga bem postada. Do jeito que vínhamos jogando, poderíamos colocar o Baresi na zaga, o Piazza, o Luizinho, os melhores zagueiros do mundo – e eles ainda ficariam expostos. Fizemos um ajuste no meio de campo, pedi bom posicionamento dos laterais e dos homens que ficam á frente da zaga. Os nossos jogadores são bons, mas estavam expostos. Além da qualidade na parte ofensiva, precisamos fazer um jogo sem correr riscos”.

Perfeito, Ney, só uma pergunta. Por que diabos vossência esperou três meses para perceber o óbvio e mudar o sistema antigo? Assim, minhas 548 pontes de safenas num aguentam, meu caro.

Mas voltemos a falar de jangada, que é pau que bóia.

Na segunda etapa, mesmo sem um centroavante fixo, o time continuou com gosto de querosene. E marcou mais três gols. Aliás, minto. Não foram três gols, foram três golaços, isso sem contar uma infinidade de lances desperdiçados. Porém, não há o que se queixar. Só perde quem cria.

Confiram comigo no replay.

Outro dado extremamente relevante foi que nos noventinha, Wilson fez apenas uma defesa. O fato ocorreu depois que  Rodrigo Defendi espirrou o taco numa cabeçada e o atacante do Conquista chegou de cara com o gol, sendo fungado no cangote por Dão.

Ah, sim, quando a maré tá boa o rio corre para o mar tranquilamente. Do nada, começamos, em tom de galhofa, a puxar um coro de elogios a Dão. Ato contínuo, o referido passou a acreditar. E partia para cada bola como um pedreiro vai num prato de comida após um dia de labuta.

E foi assim que ontem nasceu um zagueiro, assim como também nasceu o ano novo que vai perdurar até dezembro.

Oremos.

 

P.S Ah, sim. Soube que, depois de saber que o Vitória voltou a jogar bola, houve um rebuliço doido lá pras bandas de Itinga. Aquelas lembranças das goleadas do ano passado voltaram a assombrar. Porém, espero, sinceramente, que caso o Vitória meta nova goleada a torcida tricolor num fique gritando. “Volta, tiririquinha. Devolvam, meu Bahia

PRISIONEIROS DO JARDIM DE INFÂNCIA

março 28, 2014

Há pouco mais de um ano, dialogava com uma professora gaúcha sobre as dores e as delícias desta besta e bela província lambuzada de dendê e de exclusão. A referida mestre, que nem bem desembarcara na Bahia, já estava estupefata com o desleixo de seus alunos – e olha que eram estudantes do Doutorado.

Nestas primeiras aulas, quase ninguém cumpriu o combinado. E o pior. Nunca assumem a responsabilidade. Sempre têm uma desculpa esfarrapada. Parecem crianças que se recusam a  crescer. Caso não mudem e cumpram com suas obrigações vou reprová-los, sem dó nem piedade”, descreveu, com um certo ar de desânimo, mas de modo firme. E, de bate-pronto, me questionou: “Como é que você consegue conviver com isto?”.

Pedi ao lerdo garçom mais uma dose de cangebrina, que, óbvio, não chegou, e falei para a moça que, antes de conhecer os pontos turísticos e outras mumunhas da capital, o visitante precisa ser apresentado a uma entidade etérea e intangível chamada “O rapaz”.

Minha amiga, seu espanto, e de muitos outros incautos que aqui chegam, é porque vocês não foram apresentadas ao ‘rapaz’. Este sujeito é o responsável/culpado por tudo que não funciona. Assim, se o mecânico não consertou seu carro, a culpa é do ‘rapaz’ que não trouxe a chave hexagonal, o alicate, o diabo”.

Porém, antes que a professora fizesse deduções equivocadas e/ou preconceituosas, achando que esta é uma característica de uma determinada categoria, explique-lhe que o fenômeno não escolhe classe social. “Caso você vá num banco, o gerente/superintendente lhe dirá que não pode resolver seu problema financeiro porque o rapaz não apareceu para trabalhar – e  o lançamento do boleto ficou travado ou algo que o valha”.

Pois então. Lembrei-me deste episódio agora por conta desta chibança entre o Esporte Clube Vitória e a Caixa Econômica Federal. Desde o início do ano o Clube não recebe a grana da instituição financeira, principal patrocinadora. E, segundo reportagem publicada no globo esporte.com tal fato tem origem na seguinte questão. “Para que o patrocínio com a Caixa fosse firmado, o Rubro-Negro precisou fazer um acordo de parcelar as dívidas existentes para, assim, receber a certidão negativa. O documento tinha validade de 19 de julho de 2013 a 15 de janeiro de 2014”.

Porém, nesta época, a diretoria, talvez preocupada em preparar o time para a gloriosa estréia na Copa do Nordeste (Vitória 0 x 3 América/ RN), esqueceu-se de correr atrás da certidão negativa que possibilitaria o início do recebimento de algo em torno de R$ 6 (seis) milhões. Com a mesma rapidez da zaga comandada por Rodrigo Defendi, só 60 dias depois do fim do prazo foi que o ágil departamento jurídico entrou com a liminar e recebeu o seguinte sabão do juiz Evandro Reimão Reis, da 10ª Vara Federal. Às aspas.

Tal circunstância temporal leva a concluir não ser tão premente o exame da liminar já que a própria autora somente depois de quase dois meses de vencido o documento é que se dispôs a requerer em Juízo sua obtenção. Por isso, deve-se aguardar o decurso do prazo para resposta (20 dias), quando certamente haverá mais elementos para formar a convicção do magistrado”.

Pois bem, digo, pois mal. Invés de reconhecer que errou, que não entrou com a liminar na hora necessária, o presidente do Vitória vai para as rádios da vida culpar uma tal “herança maldita”.

Tenha santa paciência!!! É querer brincar com a inteligência alheia. Nem vou debater a herança deixada pelo ex-presidente – até porque todos sabem que não nutro qualquer simpatia pelo referido, que teve uma gestão marcada pela truculência, acusações de racismo, falta de transparência, entre outros pecados. Porém, a obrigação de ter apresentado liminar pelo menos 60 dias antes não era dele.

O presidente atual tá querendo ser ladino, dando uma de João sem braço e recorrendo ao velho hábito baiano de botar a culpa “no rapaz”.  Porém, assim como a professora gaúcha, boa parte da consciente torcida do Vitória reprova, com veemência, estas tergiversações.

E aos míopes, que se preocupam e só enxergam as questões nas quatro linhas, não custa lembrar que tal fato, entre outros, muitos outros, tem contribuído para este início de ano tão medonho.

Portanto, presidente, é preciso assumir suas responsabilidades e sair deste jardim da infância argumentativo, pois ninguém aqui é menino. A torcida do Vitória merece e exige respeito.

VITÓRIA 2 x 1 souza

março 27, 2014

Depois de pouco mais de 40 minutos de uma apresentação bisonha, sem forças nem para jogar pedra em santo, eis que a bola é alçada na área e o zagueiro Sílvio sobe para fazer ECPP 1 x 0 Vitória. O placar anunciava a justiça, não somente por ratificar em números a então superioridade do time de Conquista, mas também, e principalmente, por deixar claro, desnudar, o total desleixo de souza (deixa em caixa baixa, maestro) com a equipe.

Sim, amigos de infortúnios, a culpa do gol foi do indigitado. Afinal, quem conhece um tanto assim de Ludopédio sabe que em qualquer baba de ponta de rua, na hora do escanteio, os atacantes são solidários e voltam para marcar o zagueiro do time adversário, invertendo os papéis da lógica cotidiana.

Pois bem, digo, pois mal. Na hora em que a bola foi alçada na área, o referido sujeito, completamente displicente, deixa o zagueiro cabecear sozinho. E pior. Ao ver que a bola foi gol, não esboça nem ao menos uma reação teatral para fingir um descontentamento. Nada. Demonstra apenas o descompromisso de quem foi contratado numa nebulosa segunda-feira de Carnaval.

É óbvio que algum incauto pode argumentar, não sem razão, que, no último Clássico Cartão de Crédito VISA (Vitória x sardinha), o time foi bizarro mesmo sem a presença do referido. Fato. Só que, apesar de praticar um futebol deplorável, a equipe Rubro-Negra ainda jogava com alguma velocidade e criou diversas chances de gols, desperdiçadas pela incompetência. Já na peleja de ontem, nécaras e nada. A entrada do sujeito deixou o time ainda mais lento e improdutivo, se é que isto é possível, pois a injúria ficou ali, na zona do agrião, sem função alguma, a não ser enojar meu baba. (Sim, por volta dos 26 minutos, ele concluiu ao gol, mas aquele peteleco num merece nem registro).

Porém, nem tudo foi choro e ranger de dentes. Assim que o sacrista foi substituído, o Sobrenatural de Almeida, que andava um tanto quanto sumido, novamente deu o ar da graça. O ponteiro do relógio marcava pouco mais de 30 minutos, quando o endiabrado PICA-PAU incorporou o talismã de 2013, driblou 629 zagueiros do Conquista e mandou a criança chorar no fundo do barbante, que é lugar quente.
Confiram comigo no replay.

Naquele momento, ficou claro que surgiu um nome para finalmente pacificar a Venezuela (copiraite Cláudio Reis). É só colocar PICA-PAU como presidente que resolve a chibança, pois ele ataca tanto pela direita como pela esquerda.

Mas, derivo. E volto apenas para encerrar dizendo que é urgente, preciso, necessário fundamental que Ney Franco exija contratações (especialmente de zagueiros e homens de criação) e defina o mais breve possível o time titular e o padrão tático. Afinal, o Brasileirão já é logo ali e a casa pode feder a homem. Deuzulivre!

 

P.S.1 PAREM COM ISSO!!! Esta história de que o Bahia tá desviando o dinheiro do jabá dos jornalistas para os ÁRBITROS & BANDEIRINHAS é apenas boato. O jogo de ontem foi parelho, com justiça. Afinal, se enfrentavam o vice-geral da 1ª fase, a sardinha, contra o vice do Grupo 3, o Serrano. Duelo de vices tinha que terminar igual.

 

P.S 2 Se houvesse justiça no futebol, souza teria sido trocado por uelinton. Seria o caso típico de negociação em que os dois lados saem perdendo.

UMA MARCA HISTÓRICA

março 25, 2014

Ontem, após publicar as prosopopéias sobre o último Ba x Vi, me dei conta de que estava chegando à marca de 5oo rabiscos nesta intimorata emissora. Apesar de nunca me importar com efemérides, pensei que este momento  deveria e merecia ser comemorado de forma séria, na ampla e boa acepção da palavra.

Porém, assim, de modo rápido, não veio nada em minha mente no descalabro do futebol atual que merecesse destaque. Aí, me lembrei que escrevi hoje um texto especial para o Jornal Sul 21 sobre um raro caso de dignidade e firme delicadeza no hostil cotidiano.

Então, apesar de não ser sobre futebol, resolvi abrir uma exceção e compartilhar o texto aqui, pois a atitude deste cidadão serve de exemplo para que possamos aplicar em todas as áreas de nossas vidas. Já imaginaram se os dirigentes de nossos clubes agissem com tamanha dignidade? Com vocês,

AILTON DA SILVA SANTOS: O MOTORISTA DO 1636

 

rggrggreg | Foto:

Por Franciel Cruz

Especial para o Sul21

Os brasileiros, acostumados a tantas e tamanhas tragédias, se espantam sempre diante de atos serenos e firmemente dignos. Na última segunda-feira, dia 17, por exemplo, enquanto o país, atônito e impotente, testemunhava a brutalidade cometida pelo Estado, por intermédio da PM, contra Cláudia da Silva Ferreira, um motorista, quase que de modo anônimo, dava-nos uma surpreendente lição de que ainda há espaço para a tenra, mas firme delicadeza no desmantelo do cotidiano das grandes cidades.

Ailton da Silva Santos, o motorista do ônibus 1636, que muitos pensavam que era apenas uma ficção, ao contrário dos que acham que se pode arrastar cidadãos pelas ruas impunemente, fez o caminho inverso. Ao ver uma senhora adentrar o buzu com um filho no colo, falou a seguinte frase que merece ser repetida. “Só sigo viagem se derem lugar a esta senhora”.

Esta sentença, a princípio, pode parecer algo banal, mas ganha outra relevância quando se sabe que ela foi proferida no horário do rush, com os nervos à flor da pele e no caótico trânsito de Salvador, terceira maior capital do país. (Segundo dados do IBGE, em 1º de julho de 2012 a capital baiana possuía 2.710.968 milhões de habitantes)

É fato que todo o Brasil tem uma relação de tensão com o transporte coletivo, mas aqui na Bahia o quadro, historicamente, tem proporções alarmantes, de literal revolta. No início da década de 1930, a população, inconformada com o aumento da tarifa, promoveu o Quebra-Bondes, queimando cerca de 80 veículos, o que representava 2/3 da frota. Além disso, cercou a casa do prefeito e do secretário de segurança pública, num confronto que terminou com a morte de quatro pessoas. A empresa responsável pelas linhas, a Cia. Circular de Carris da Bahia, acionou o governo e retirou todos os veículos da cidade, deixando a população apenas com o caótico e incipiente serviço de ônibus.

No início da década de 1980, a insatisfação se volta exatamente contra os buzus. Mais de 600 foram destruídos e três pessoas morreram. Por conta dos péssimos serviços, Salvador foi pioneira também nos protestos recentes que tomaram conta do país, tendo sido palco em 2003 da já antológica e combativa Revolta do Buzu.

Para que se tenha uma ideia da gravidade do problema do transporte coletivo de Salvador, a capital baiana é a que possui a menor frota entre as maiores cidades do país, cerca de 2.500 ônibus para uma população de quase 3 milhões. (Não é possível fornecer dados corretos porque, depois de várias ligações e mais de 40 minutos de espera, ninguém na Transalvador soube especificar a quantidade de ônibus circulando na cidade).

Foto: kdkds

O fato, porém, é que a relação de veículos por habitantes é de apenas 0,9 em Salvador, quando em cidades com população menor e com metrô, como Brasília, atinge 1,5.

Foi também por conta de todo este histórico e deste caldo de cultura que a atitude de Ailton Santos, simbolizada naquela frase “só sigo viagem se derem lugar a esta senhora”, ficou martelando minha cabeça durante os últimos dias. E decidi saber quem era este personagem que teve a audácia de contrariar a lógica perversa do confuso e violento trânsito de Salvador.

Porém, conversar com Ailton da Silva Santos é extremamente complicado, não por conta de sua quase pueril simplicidade, mas principalmente porque sua vida é, literalmente, corrida. Não são raras as vezes em que ele tem que trabalhar dobrado, o que significa uma carga horária de 14 horas, para complementar o salário base de R$ 1.600,71, que usa para sustentar seu filho de quatro anos e mais duas filhas, uma de 9 e outra de 19.

Por isso, somente no último sábado, dia 22, foi possível ouvi-lo durante breves 15 minutos, entre o almoço e sua próxima corrida, no fim de linha de Matas dos Oitis, conjunto afastado distante mais de 20 Km do centro da cidade. Ele não falou nenhuma informação bombástica, nada que ilustre as manchetes de jornais sedentos de sangue, tragédias e ações espetaculares. Porém, contou algo extremamente relevante para quem se importa com coisas fora de moda, como delicadeza e preocupação com o próximo. Às breves aspas.

“Tenho 38 anos e comecei a dirigir faz mais de 15, por influência de meu irmão. Em todo este período, sempre repito aquela frase, pois sei que transporto vida. Não podemos sair arrastando as pessoas”.

Esta nova declaração de Ailton, me fez lembrar de Amilton dos Santos, tratorista que, no início da década passada, mais precisamente no ano de 2003, se recusou a cumprir uma ordem judicial de derrubar casas de pessoas de baixa renda. Por ironia do destino, em 2011 Amilton trabalhava exatamente na terraplanagem para as construções do programa Minha casa, Minha Vida.

Estes dois personagem, apesar das diferenças de seus atos, mas com sobrenome em comum, mostram que o Brasil, tão acostumado a bajular as árvores genealógicas forjadas nas capitanias hereditárias, deve acreditar mais e aplaudir os seus dignos “Santos” do cotidiano.


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