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Inversão de valores é uma praga pior do que a saúva

maio 22, 2011

Conforme já sabe a culta audiência que sintoniza nesta emissora, a saúva foi descrita assim pelo botânico Auguste de Saint-Hilaire: “é a designação comum aos insectos himenópteros, da família dos formicídeos, género Atta Fabr., distribuído por todo o Brasil. As saúvas são cortadeiras e carregadeiras, utilizando as folhas cortadas e outras substâncias para cultivarem o fungo com que se alimentam. São consideradas a mais importante das pragas agrícolas do Brasil. São sociais, e vivem em formigueiros subterrâneos, formados de várias panelas, canais e olheiros”.

Após a  descrição acima, o referido estudioso francês largou a frase que ficou célebre: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”.

Pois muito bem, amigos de infortúnio.

No nosso Esporte Clube Vitória está grassando uma praga muito mais perniciosa do que a saúva. E o nome deste veneno é inversão de valores.

Aos fatos.

No dia 4 de novembro de 2009, o lateral Apodi (ala é a puta que o pariu!), revoltadinho porque recebeu a camisa de reserva, simplesmente jogou o manto no chão, como se fosse um pano qualquer.

E o que fez na época o presidente Alexi Portela? Nécaras e nada. Aliás, pior. Disse que compreendia a atitude do jogador porque ele era jovem e etc e coisa e tals.

O tempo passa, voa e a iniqüidade no Rubro-Negro continua numa boa. Em janeiro deste ano, o atacante Neto disse que não queria mais jogar no Vitória, fez uma lambança da disgrama, disse que ia, voltou, titubeou e está aí hoje às vésperas de renovar contrato.

Pois muito bem.

Já Viáfara, um jogador que nos seus três anos de contrato não deu uma única declaração que não fosse pelo engrandecimento do Vitória foi humilhado pelo Clube, com o presidente anunciando sua demissão numa rádio amiga. A lógica absurda parece premiar os que desrespeitam a instituição e punir aqueles que a amam.

Mas, o que isto tem a ver com o jogo de ontem? Já explico.

Seguinte é este. A praga da inversão de valores parece que é contagiosa, pois uma parte da torcida está indo no mesmo perverso caminho trilhado pela diretoria. Em relçao aos caras que que não têm  nenhum compromisso com o clube, que pintam o diabo de loiro ou de qualquer outra cor, eles não esboçam qualquer reclamação.

Porém, se algum prata da casa cometer qualquer deslize nas quatro linhas ou fora dela, está amaldiçoado para sempre. Lembro, como exemplo, que Anderson Martins, que hoje é destaque no Vasco, era Anderson Bragueiro. Neto Berola (não é prata da casa, mas é de nossa região) era um pica tonta e assim sucessivamente com outros tantos.

Interrompo a lista apenas para citar a vítima da vez, o queridinho da torcida para despejar suas frustações: Elkesson. É fato que o atleta perdeu o gol do título, que, muitas vezes se enrola numa jogada simples ou algo do gênero. Porém, nunca vi o cidadão se esconder das partidas. Repetindo: Não se esconde nunca. Além disso, já foi decisivo, como na conquista do próprio baiano do ano passado, para ficar apenas num exemplo. No entanto, como ele não tem pedigree, não veio de fora, a torcida trata-o como se fosse ele quem tivesse traído Jesus – e não Judas.

E ontem, no jogo de sua despedida, então, foi algo vergonhoso. A perseguição começou antes mesmo do árbitro soprar o apito para aquela partida chinfrim entre Vitória 1 x 0 Vila Nova. A cada toque na bola era uma vaia, como se isso fosse melhorar o rendimento do rapaz ou do time. O engraçado é que, mesmo sendo pretendido por vários grandes clubes do Brasil, ele não pipocou. Correu, caiu (aliás, como cai este sujeito), chutou, tentou driblar, errou, mas não se escondeu do jogo um só momento nem deixou de botar a perna na dividida.

E fez mais. Ao final do jogo, já praticamente fechado com outro clube, agradeceu a torcida do Vitória e disse que ia torcer pelo retorno da equipe à série A. E fez muito mais. Informou que abriu mão de seus 10% para o Vitória. E fez mais ainda. Pediu que os torcedores refletissem e passassem a apoiar as pratas da casa, pois são elas que no fundo dão sangue suor e lágrimas pela equipe.

E tudo isso na noite em que a torcida aplaudiu Neto por este ter feito um mísero gol numa equipe fraca como esta do Vila Nova.

É fato que três pontos são importantes em qualquer situação, especialmente numa largada de campeoanto. Porém, três pontos não são tudo na vida. Existem valores maiores.

Ah, sim. Ia esquecendo. Viáfara, que estava sendo satanizado pela diretoria e por uma parte da imprensa e da torcida, também abriu mão de sua rescisão. Esperamos que estes exemplos de dignidade vençam,

E termino emulando a frase do botânico francês.

Ou acabamos com esta nefasta inversão de valores no Vitória, ou ela acabará com o nosso clube do coração.

P.S  Ontem, fui presentear meu sobrinho Caique, menino completamente apaixonado pelo clube, com uma filiação ao SMV. Não eram nem 13h, no entanto a Capemi não atendia mais. Informaram que atendimento só no shopping lapa. Para não dar nova viagem de balde, liguei para confirmar. A moça informa que “estaremos abertos até 20h”. Quando chego lá, ela pergunta se estou com todos os documento. Respondo afirmativamente, mas aí ela completa: “Ih, esqueci de falar. O sistema está fora do ar”.

E não oferece nem um mínimo formulário para garantir um novo sócio.

Francamente. Até quando a diretoria vai tratar os torcedores como gado?  Até quando aceitamos e não protestamos contra esta inversão de valores.

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‘NADA VAI TIRAR O VITÓRIA DO MEU CORAÇÃO’

maio 19, 2011

Por conta de minha formação ceticamente cartesiana, sempre desconfiei das chamadas forças sobrenaturais.  Acreditava (e, de certo modo, ainda acredito) que somos senhores de nossos destinos, independentemente das ações exógenas (recebam, incréus, um exógena pelos mamilos).

Pois bem.

Acontece que a convicção, esta menina traquina, é um bicho traiçoeiro da disgrama. Basta um descuido e vupt, ela, a convicção, nos escapa, sem remorso algum. E comigo não foi diferente. Há exatos três anos e três dias, em 17/05/2008, comecei a mudar minha opinião sobre as artimanhas do destino. A partir da referida data, comecei a perceber que Ele, o destino, tem uma força descomunal, muito além do que pode imaginar nossa vã consciência (Chupa, Shakespeare!).

O seguinte foi este.

O ponteiro do relógio marcava 18h10, na Ilha do Retiro, quando vi que aquele colombiano, que estava vestindo  pela primeira vez o manto Rubro-Negro, começava a selar uma aliança inquebrantável com o Clube e a torcida. Uma coisa completamente fora dos padrões do futebol moderno, onde o que sempre prevalece é o vil metal. Ele fez uma partida extraordinária não somente porque estava em boa forma, mas porque, além de tudo, pegava com as mãos, os pés, o coração e até mesmo com a língua.

Aliás, como fala este rapaz. Porém, todas as falas sempre foram no sentido de construir um clube respeitado e vencedor. Jamais ele admitiu ou engoliu calado qualquer coisa que viesse a desmerecer a imagem de um Vitória Grande. Ele sempre acreditou que era possível construir este Rubro-Negro de seus e de nossos sonhos. Um time destemido, que nunca se apequena.

Inclusive, acho que a maior e mais simbólica divergência de Viáfara com a atual diretoria é exatamente esta. Ele incomoda os que estão temporariamente no poder porque pensa um Vitória Forte, coisa que causa alergia a esta gente que se guia pela covardia e mesquinhez.

É verdade  que, em todo este período, ele não foi apenas o goleiro espetacular, que pegou tudo e mais um pouco, a exemplo da Vitoriosa (sim, vitoriosa) campanha na Copa do Brasil do ano passado. Viáfara, é preciso fazer justiça aos fatos, teve também atuações medonhas.  Na minha imodesta opinião, a pior de todas foi contra o Palmeiras.

Mas, derivo.

O que queria dizer é que a prova definitiva de que a ligação de VIáfara com o VItória era muito mais profunda do que a coincidência das duas letras iniciais, ocorreu no dia 12 de junho do ano passado.

Como sói acontecer, larguei mulher e filho e descambei para o Santuário para assistir a peleja entre Vitória x ABC pela Copa do Nordeste. Era uma noite fria, destas que, de quando em vez, se abate sobre a cidade, com uma neblina que torna este tipo de jogo ainda menos atrativo.

Pois muito bem.

O time B do Vitória fazia uma partida medonha e o gol da equipe potiguar poderia sair a qualquer momento. E quando tal profecia aconteceu, fiz o que costumo fazer nestas horas: xinguei até a décima geração de todo mundo e procurei alguém para compartilhar minha revolta. Porém, a arquibancada era um deserto de homens e idéias. Foi então que, olhando para perto do alambrado, vi o sacana do colombiano sofrendo com aquela derrota, que, ressalte-se, não alterava porra nenhuma a situação do Vitória. Porém, ele não admitia um clube perdedor. Tanto é assim que, na goleada que o expressinho meteu nas sardinhas em pleno pituacivisky, ele vibrou como menino nas arquibancadas. E também sofreu junto aos torcedores naquela apática apresentação na Vila Belmiro, depois de ser um dos comandantes da memorável  festa no aeroporto 2 de Julho.  (O nome do aeroporto é 2 de Julho,  viu, cambada de sacanas?).

É por estas e outras que narrei, e na história entre Viáfara & Vitória existem e ainda existirão muitas outras, que a frase do título não me soa falsa. O colombiano, que tanto gosta de brincar, inclusive em momentos inadequados, está falando sério quando diz que nada vai tirar o Vitória do seu coração.

Nada mesmo. E, pra encerrar esta prosa, El Paredón, ouça o que falou o lírico Mário Quintana, numa pequena obra intitulada Poeminha do Contra.

“Todos estes que aí estão

Atravancando o meu caminho,

Eles passarão.

Eu passarinho!”.

É isso.

P.S. Por uma destas ironias do destino, Viáfara se despediu do Vitória exatamente no dia de seu aniversário.

Com tiranos não combinam Rubro-Negros corações

maio 16, 2011

Ao contrário do presidente do Vitória, que não sabe se vai ou se fica, esta rouco locutor não fugirá jamais à luta. Por isso, apesar da bordoada deste domingo, ou talvez exatamente por causa dela, decidi largar todos meus afazares, e cá estou de volta. Na verdade, voltarei esta semana. Por enquanto, fiquem com este excelente texto escrito por meu amigo Pedro.

Por Pedro Caribé

Sinceramente, senti poucas emoções nesta final trágica contra o Bahia de Feira. Todos os gritos que lancei nas arquibancadas foram de fundo basicamente racional, contra a diretoria e o técnico. Por alguns instantes achei que o torcedor acompanha a atual gestão num tom alienado. Nenhum protesto, somente críticas sem emoção e dispersas em jogadores, técnico e até no juiz. Não havia se quer um clima fúnebre ao sair do Manuel Barradas

Depois pensei bem… . O que estava em falta era a paixão. Sim! Os rubro-negros em 2011 estão sem apego aos jogadores, as cores, aos cânticos e ao estádio. Sim, a torcida do Vitória precisa de motivação, ser cativada, acolhida. Foram cinco anos de gás descomunal entre a Série C e a final Copa do Brasil. A direção não soube aproveitar o embalo, continuou a desqualificar o público no estádio, não contratar bons profissionais, não fazer ações de marketing. A torcida cansou, não sente a recompensa de atravessar a cidade num aguaceiro, pegar engarrafamento, ruas estreitas e ônibus cheio para ver uma final insossa.

Continuo a achar que a Era Barradas chegou ao fim. Não apenas o estádio, ultrapassado e já carregado de decepções. Mas também o comando do clube por sobrenomes como Portela, Tanajura, Falcão, Rocha, Barradas e etc. O Vitória deixou de ser um clube segmentado, decidido por famílias em tom amador. Agora é fato, os dirigentes comandam uma das maiores e mais apaixonadas torcidas do país.

Paulo Carneiro era um “novo rico” sem a veia aristocrática, capaz de idéias mirabolantes para estimular a massa, além de tato empresarial fundamental ao futebol. Após a sua saída parecia ser o fim da época dos tiranos. A torcida, talvez como numa antes em sua história, tinha assumido os rumos do clube. Porém isso se limitou as arquibancadas, aos salões dos aeroportos e as ruas da cidade.

Faltou àqueles que dirigem a capacidade de responder aos anseios. Criar mecanismos para a paixão ser materializada no dia a dia do clube e propiciar as conquistas almejadas. Sinto que os briosos rubro-negros herdaram desta terra o desejo por fazer das suas mãos transformações vinculadas ao mais fresco espírito do tempo, como na Revolta dos Búzios.

Eis que o Movimento Somos Mais Vitória se apresenta como alternativa para dar liberdade a essa paixão estancada. Se por enquanto não é possível uma participação mais igualitária e principalmente conquistas, é a hora de radicalizar, porque o lema é: Com tiranos não combinam / Rubro-negros corações!