Archive for junho \25\UTC 2012

STANNO TUTTI BENE *

junho 25, 2012

Muito pior do que o estouro das bombas juninas são os sons das trombetas do apocalipse que, desde o início da noite do último sábado, têm causado um barulho dos seiscentos DEMÔNHOS nesta província lambuzada de dendê e de vexames. E o mais grave é que, novamente, a galera está entrando na onda derrotista.

Calma, amigos, não há motivo para desespero. Como não diria Macunaíma, aquele herói sem caráter, “pouco otimismo e muita incompreensão, os males da torcida do Vitória são”.

Sim, companheiros, antes de tudo e de mais nada, é preciso que não nos entreguemos a este pessimismo. Temos que fazer uma análise global, em perspectiva histórica. Não podemos nem devemos ficar presos somente a um fato isolado.

Exemplo?

Seguinte. No ano da graça de 2003, mais exatamente num simbólico dia de finados, o Leão botou 3 x 0 no mesmo Goiás e depois perdeu por 4 x 3. Acontece que, naquela época, o jogo foi no Barradão e acabamos a peleja com 11 jogadores. Agora, jogando fora de casa e com apenas 10 homens (?) em campo, conseguimos perder de apenas 4 x 3. Outro fato a ser considerado é que, naquela ocasião, terminamos o primeiro tempo metendo 3 x 0. Desta vez, a primeira etapa foi concluída já com 3 x 1 no placar. Então, como se pode perceber, houve um importante avanço, só tomamos três gols no segundo tempo. A desgraça agora foi muito menor. Assim, não vejo motivo algum para choro nem ranger de dentes. Aliás, nesta batida evolutiva aí, da próxima vez que metermos 3 x 0 na equipe esmeraldina é bem capaz de segurarmos um empate. Basta não desanimar. Aguardem e confiem.

Outra coisa fundamental neste momento é não deixarmos que a incompreensão contamine nossos atos. Não se pode vestir uma camisa listrada e sair por aí acusando as pessoas sem procurar entender os seus motivos.

Outro exemplo?

Mais um seguinte. A zaga Rubro-Negra não pode ser apedrejada como se fosse a prostituta Geni da ópera do Malandro. E já que entramos nesta seara putanhesca, cabe destacar que, depois dos fatos envolvendo a pudica Nicole Bahis, o menino Victor Ramos ficou completamente impossibilitado de trabalhar com a cabeça, que, como direi?, está cheia de problemas. Exigir que o referido, nesta situação, corte as bolas pelo alto é algo quase desumano. Pode causar até um acidente mais grave. E, antes de tudo, é fundamental preservar a integridade física do rapaz.

Além da análise histórica, convido os amigos também para uma avaliação geopolítica. Vocês, que agora estão criticando o inventivo técnico do Vitória, têm que saber que, se ele não estivesse aqui, a situação poderia estar muito pior.

Como assim? Assim. Já imaginaram se o criativo treinador estivesse orientando a seleção do Paraguai? Pois é. Tenham a certeza de que iriam aparecer pencas de analistas políticos (eles sempre aparecem nestas ocasiões), com aquelas poses de enganar otário, garantindo que o golpe naquele brioso país foi culpa do Vitória. Então, invés de estarmos desmoralizados apenas no Brasil, poderíamos estar numa intriga internacional de colocar Hitchcock no chinelo. Já pensaram numa porra desta?

É isso. Existem coisas inconsequentemente insanas que só o futebol pode fazer por você. Para todas as outras tem o Esporte Clube Vitória.

*Estamos todos tão bem quanto os filhos de Matteo Scuro, do filme de Giuseppe Tornatore

LARISSA DANTAS

junho 18, 2012

Com a mente obnubilada pelas chibanças do fim de semana, não consigo precisar agora com exatidão quando foi a primeira vez que li um texto da menina Larissa Dantas. Porém, tenho uma certeza: Foi admiração à primeira vista. E isto aconteceu porque a análise que ela fazia dos jogadores no brioso Canal E.C Vitória tinha três marcas fundamentais: sensatez, honestidade e um amor inquebrantável pelo Leão.

Algum tempo depois nos conhecemos pessoalmente num jantar de confraternização da Associação Vitória Forte (AVF). A partir de então, a admiração só aumentou. Percebi que, além das características já citadas no parágrafo anterior, Lari tinha (e tem) algo que considero fundamental: uma crença juvenil (mas, não ingênua) em dias melhores para o nosso Clube. E melhor. Uma crença que não lhe cegava em relação aos graves erros cometidos e repetidos pela diretoria.

E foi assim, com estas (boas) idiossincrasias, que ela assumiu o comando do blog do torcedor do Vitória no Globo Esporte, levando-o a um nível de respeitabilidade admirável. Não era incomum ouvir elogios até dos adversários, coisas do tipo. “Não gosto nem simpatizo com o Vitória, mas respeito a blogueira”.

Este respeito, aliás, fez com que a página do torcedor conseguisse unir duas coisas que, no Brasil, parecem inconciliáveis: Quantidade e qualidade. Foi sob a batuta dela que o blog do Vitória conseguiu recordes e mais recordes de audiência, além de conquistar algo que não pode ser mensurado apenas pelos números: um belo capital simbólico.

Pois muito bem, digo pois muito mal. Neste último sábado, fomos surpreendidos por um texto intitulado “Tchau daqui”, no qual ela se despede da condição de blogueira da referida página. Não há maiores explicações. Larissa diz apenas que “A verdade é que como sou conselheira e, no momento, posicionando-me contra isso que aí está no clube, não poderei mais assinar textos por aqui”.

É óbvio que o globo esporte bota e tira (lá nele) para escrever na página quem quiser. Contudo, um tanto assim de respeito ao leitor não faz mal a ninguém. Não se pode, ou melhor, não se deve interromper um trabalho sério como o que Larissa vinha fazendo com esta argumentação estapafúrdia de incompatibilidade – até porque, desde que começou a escrever lá, Larissa já era conselheira e se posicionava de modo crítico em relação à atual gestão. E, no tempo em que esteve como titular do blog, ela não mudou uma vírgula sequer em seus posicionamentos.

Portanto, esta desculpa esfarrapada nos dá o direito de supor que existiram pressões indevidas de pessoas atingidas por seus bons textos. Não há outra explicação plausível.

De todo modo, nada de tristeza. Afinal, como disse a própria Larissa não será uma “incompatibilidade de contrato com a política da globo” que matará um ideal.

Avante, Lari. A Altivez vencerá a pusilanimidade

SMV : NÃO AO RETROCESSO

junho 15, 2012

O porquê do tratamento desleixado que a diretoria do Esporte Clube Vitória tem dispensado ao torcedor é um dos mistérios mais insondáveis da sociedade contemporânea. Parece que os dirigentes atuam no cotidianamente apenas para confirmar aquela sentença do Barão de Itararé: “De onde menos se espera…daí é que não saí nada mesmo”.
E na área de marketing, então, parece existir um esforço extra neste sentido. Pilhas de livros já foram escritos tratando da (in)ação deste Departamento , e, em especial, sobre o descaso e a falta de respeito com que comumente são tratados os sócio-torcedores do Clube. Mas, pelo visto, parece que ainda serão necessárias mais algumas bibliotecas.

Por certo, até mesmo o velho e guerreiro Chacrinha (aquele que “veio para confundir, não para explicar”) ficaria indignado e surpreso com a mais nova barafunda em que se meteu o programa de fidelidade Sou Mais Vitória (SMV). Para nossa sorte, tal situação, vai sendo, aos poucos, desvendada por torcedores mais atentos, que gostam de acompanhar de perto a atuação do Clube fora das quatro linhas.

Pois que a tal mixórdia, se não esclarecida a contento e com a máxima urgência, poderá trazer enormes prejuízos a um considerável número de pessoas em curto período de tempo. Senão, vejamos: de uns tempos pra cá, sócios-torcedores do Vitória começaram a perceber que, após realizada a renovação de seus respectivos planos SMV, a nova carteirinha expedida não informa com a devida clareza a data de ingresso do cidadão no referido Programa. Lá consta apenas um lacônico “DESDE” seguido da data da renovação em 2012. Uma frase solta, perdida no verso do cartão.

Sim, mas, aquele “DESDE” significa exatamente o quê? É “sócio desde” ou “renovado desde” ou “admitido desde”, ou “válido desde”, ou…? Mistério. Curiosamente, feita a mesma pergunta a 5 funcionários diferentes, obtém-se 5 respostas também diferentes.

E, mesmo para quem ainda não renovou seu plano em 2012, a carteira anterior TAMBÉM não faz referência clara, expressa e objetiva à data de ingresso do torcedor no Programa SMV (o que, ainda por cima, dificulta sobremaneira o controle da data de vencimento). Aliás, neste particular, mais confusão e omissão: alguns funcionários (do Clube e do SMV) dizem que há tolerância de 30 dias (para mais ou para menos) para se considerar a renovação sem ininterrupção do vínculo. Outros, porém, já dizem que são apenas 15 (quinze) dias. Outros, ainda, 10 (dez) dias. Na verdade, ninguém se entende. Há casos de sócios que renovaram 1 (um) dia depois do prazo e obtiveram, no ato, na lata, a singela informação: “Perdeu, playboy! Não há tolerância alguma! Sua renovação começa a contar somente a partir de hoje! Todo seu tempo anterior? Isso não te pertence mais…”. Só pra variar, os documentos oficiais do Clube (estatutos, regulamento do SMV, etc.) não trazem absolutamente NADA a respeito do assunto.

E a confusão só se agrava e se espalha. Mais ainda na medida em que entram em cena os tortuosos labirintos da informática: pelas informações até aqui coletadas informalmente, parece haver diferentes sistemas de controle de sócios: um feito pelo E.C.Vitória, outro utilizado pelo Programa de Fidelidade SMV e mais outro disponibilizado no site do Clube, na “Área do Associado”. Agora, se com apenas 1 sistema de cadastro já há margem para falhas, imaginem todos estes operando ao mesmo tempo…

Pra completar (e pra meu desespero), ao tentar buscar minhas informações na tal “Área do Associado” não consegui acesso de jeito nenhum. Fui obrigado, então, a ser protagonista involuntário do seguinte diálogo (insólito, mas não menos insano) com o telemarketing do SMV:

– Sim, então, como me cadastro no site?
– Sr., o Sr. tem que estar colocando seu o e-mail como login.
– Mas aparece a mensagem: “Senha ou usuário inválido”.
– Então o Sr. vai poder estar clicando em “Esqueceu a senha?” para estar pedindo uma nova senha.
– Mas eu não quero senha. Quero me cadastrar como usuário!
– Sr., o Sr. precisa estar clicando em “Esqueceu a senha?” para que possamos estar entrando em contato com o Sr.
– Já fiz isso, mas aparece outra mensagem: “Este e-mail não foi encontrado na nossa base de associados”!!
– Então o Sr. não está cadastrado na base de dados do site, Sr.
– Mas esta foi exatamente a minha 1ª pergunta!! Como me cadastro no site?!?!
– Sr., o Sr. tem que estar colocando o seu e-mail como login…

Neste momento, sinto piscar um letreiro na minha testa, escrito: O-TÁRIO, O-TÁRIO, O-TÁRIO! Vergonha (própria e alheia) foram tão grandes, que ainda agradeci antes de desligar.

Mas, acreditem, fica ainda pior: há notícia de casos em que sócios-torcedores aparecem com UMA DATA IMPRESSA NO CARTÃO e OUTRA DATA DIFERENTE NO SISTEMA DO SMV. Também casos de datas divergentes entre os sistemas do SMV e do site (a infame “Área do Associado”). Carteiras e recibos de inscrição com informações conflitantes também começam a ser denunciados. Isto sem falar na extrema dificuldade de acesso a informações oficiais e precisas sobre tão importante assunto.

Nestas condições, tal imbróglio poderá imputar enorme transtorno ao sócio-torcedor. Muito longe do que apregoa, o Clube não costuma adotar a menor transparência nesta relação que, em primeira instância, é uma RELAÇÃO DE CONSUMO como outra qualquer, isto é, possui garantias expressas nos diversos diplomas legais do país (Estatuto do Torcedor, Código de Defesa do Consumidor e na própria Constituição Federal). Fica, então, a pergunta: trata-se de um simples descaso, singela incompetência administrativa ou conveniente estratégia política?

Ora, ora, ora. Ninguém é menino. Não por coincidência, esse registro e controle de datas é absolutamente FUNDAMENTAL PARA AQUISIÇÃO DO DIREITO DE VOTO previsto pelo Estatuto do E.C.Vitória. A partir delas, conta-se 18 (dezoito) meses, para aferir se o sócio tem direito de votar. Lembro agora, inclusive, do nefasto episódio ocorrido na última eleição do Vitória (em Dezembro/2010), no qual alguns sócios-torcedores foram surpreendidos na portaria do Clube e impedidos de participar da eleição. Molhados de chuva e humilhados por “não constarem na lista”. Lista esta que, diga-se de passagem, não se sabe quem elaborou, de onde surgiu e sem jamais ter sido levada ao conhecimento dos principais interessados (os sócios-torcedores do Vitória) com a devida antecedência, ou seja, ao completo arrepio dos valores e das instituições democráticas do país.

Em resumo, hoje e agora, pouquíssimos são os torcedores do E.C.Vitória que têm a plena certeza da sua condição de sócio perante o Clube: se seus dados estão corretos, se seus direitos estão preservados hoje e se estarão quando da próxima eleição, em Dezembro de 2013. De tudo, uma única certeza: há muita coisa obscura e sem explicação plausível até o momento. Assim é que esta mensagem, longe de possuir um tom acusatório, infamante ou tumultuador, tem o único objetivo de ALERTAR O TORCEDOR RUBRO-NEGRO para que esteja sempre atento e que faça valer o seu direito! Quem ama o Vitória certamente apoiará qualquer medida que evite os transtornos do passado e que se apóie firmemente na preservação da democracia, da transparência e do respeito ao torcedor.

VAMOS BATER PALMAS PARA OS NÚMEROS

junho 13, 2012

Na longínqua década 80, depois de concluir o curso de Processamento de Dados na briosa Escola de Engenharia Eletromecânica, curso este que me consumiu quatro longos anos e um pedaço de meu fígado (pois vivia mais no Bar Milonga do que nas aulas), descambei para o Centec, prestigiosa (mentira!!!) instituição de ensino superior da aprazível cidade de Simões Filho. Lá, além de continuar a ingerir canjebrinas e outras substâncias não recomendadas pela Carta Magna, frequentava as aulas de Telecomunicações.

Lembro que havia um coitado de um espanhol, professor de Química aplicada, que sofria para me explicar o funcionamento das pipetas, buretas e outras disgramas do gênero. Apesar de desprovido de talento para as ciências exatas, característica que não me abandonou, após um certo tempo passei a compreender a lógica destes equipamentos. Mas num entendia porra nenhuma da fala do professor. E, mesmo quando entendia, sacaneava o desinfeliz.

Mida de zierro a zierro”, ordenava ele com o tradicional sotaque autoritário. E eu nada. Um dia, depois de 500 aulas, decidi posicionar uma zorra lá no número zero conforme ele queira. E o mestre, emocionado, disse “Si, si, si”. Porém, ao ver que os olhos do sacana brilhavam, por finalmente estar conseguindo ensinar algo a uma anta, peguei e botei o equipamento no 6 ou 7. O mestre, já entregando os pontos, suspirou e disse. “Non, non, non. É de zierro a zierro”. O único zero que apareceu foi no meu boletim.

Como não levava jeito para os números, decidi fazer algo mais próximo de Telecomunicações para não perder o material escolar que já havia comprado. E foi assim que decidi fazer Comunicação, mais especificamente jornalismo. Depois descobri que uma coisa num tinha nada a ver com a outra, mas pouco me importava – até porque nunca tive afeição nem vocação para o estudo. Assim, já no meio do curso, fui cumprir meu destino de sertanejo, largando a faculdade e voltando ao labor na roça de meu finado pai.

Mas aí, minha também já finada mãe, que tinha problemas cardíacos e por isso não torcia para o Vitória, apelou: “Eu vou morrer e não vejo meu filho formado”.

Como possuo o coração mole, decidi concluir a porra do curso de jornalismo, mas o fa…

Aí, meu deus do céu. Valei-me meu Jesus Cristim. Isto aqui agora virou programa de Jota Silvestre para neguinho ficar contando toda a vida, é? Sêo Françuel, homem de deus, se o senhor tá querendo emprego, leve este seu mixuruca currículo para o balcão do Sine, na Região do Iguatemi, que é o lugar adequado”, esbravejou a Moça do Shortinho Gerasamba, que anda sumida e toda cheia de direito, igualzinha à torcida do Leão.

Paciente como sempre, lhe expliquei com uma linguagem fácil e acessível. “Minha filha, escute. Estes prolegômenos (receba um prolegômenos nos mamilos) são apenas para informar que apesar de jornalista não possuo o defeito desta raça ruim, de falar sobre o que desconhece e sobre o que não enxerga. Então, é isso. Como não estou vendo futebol, não posso falar sobre o mesmo. Por isso, apesar de toda a minha imperícia com a matemática, hoje falarei tratarei apenas dos números, que é mais jogo”.

Seguinte é este.

Apesar do futebol ainda não ter aparecido nas quatro linhas, a verdade é que temos muito a comemorar no campo da numerologia. Afinal, ganhamos 13 pontos dos 18 disputados, o que na matemática moderna representa a dízima periódica de 72, 2222222%.

Se pegarmos como parâmetro para comparação (eta que hoje tô num matamatiquês do DEMÔNHO) o ano de 2007, aquele em que subimos, poderemos comprovar o quão alvissareiros são estes números. Naquela ocasião, na sexta rodada, tínhamos 50% de aproveitamento, com 9 pontos em 18 disputados. Vale destacar que também que havíamos feitos três partidas em casa e três fora.

Outro dado relevante a se considerar é que os paulistas deixaram de ser pica e estão recebendo na tarrasquesta, ao contrário das edições anteriores, o que aumenta nossa chance de subida em maizomenos 87,29%. (A propósito, fiz um detalhado estudo matemático sobre o tema no Saite Impedimento. Confira neste LINQUE Ó).

Então, amigos, sem mais delongas, é isso. Enquanto não podemos aplaudir o belo pebolismo praticado pela equipe, vamos batendo palmas para os números. Ontem mesmo diante do guarani foi apenas 1 x 0, mas valeram os 3 pontos do mesmo jeito.

Ah, sim, uma última coisa. Temos que torcer também para que minhas 29 pontes de safenas não estourem antes da tão esperada e redentora 38ª rodada, senão ficarei impossibilitado de orientar o time.
Pra finalizar, um brinde a todos. Epa, um, não, 13.

P.S.1 Tem uma equipe aí que também anda de calculadora na mão, mas naquele caso nem os cálculos sofisticados do meu velho professor de espanhol conseguirão apontar alguma saída.

P.S 2 Já que apelei à ciência matemática, cabe um pouco de superstição também. A última vez que fui ver um jogo do Vitória no dia dos namorados foi em 2010. Sabem o que aconteceu? Além de a patroa me dizer uns impropérios e me botar pra dormir no sofá, o time começou a arrancada rumo ao título do Nordestão, nossa última conquista.

Chuva, Suor, ETs e Brocança

junho 11, 2012

Seguindo nosso lema de servir bem para servir sempre, inauguramos hoje uma nova série intitulada Colado no fato igual a carrapato, onde nossos enviados (lá eles) especiais falarão in loco sobre as  pelejas do Rubro-Negro pelos cantos do Brasil. E estreamos logo em altíssimo nível, com este excelente relato de DIÓGENES BALEEIRO. Recebam nos mamilos, amorteçam e distribuam a boa nova. Amém?

 

CHUVA, SUOR, ETs E BROCANÇA 

O que não faz a abstinência futebolística. Há dois anos sem saber o que é ver meu time jogar, recebi com uma certa frustração a notícia de que o Vitória somente viria a Belo Horizonte para a partida contra o América no longínquo mês de agosto.

Tive, portanto, que optar entre conter as crises de abstinência por mais 3 meses ou encarar 320 km de estrada para ver o Leão jogar , na última sexta-feira contra uma agremiação desportiva chamada Boa Esporte, ex-Ituiutaba, atualmente em Varginha e futuramente sabe-se lá onde.

A escolha pela segunda opção não foi muito fácil. A primeira dificuldade foi convencer a patroa de que a viagem era necessária. Após intensas negociações, chegamos ao seguinte consenso: tudo bem, vamos se o Vitória ganhar duas partidas seguidas nesse início de série B.

Após o empate contra o América/RN, fui convencido de que poderia conter as crises de abstinência secando as sardinhas na última quarta-feira, aqui mesmo em BH.

Ocorre que a ida ao Independência para assistir in loco ao empate do Galo com o jahia só fez agravar a situação. Constatei que eu precisava de verdade ver o MEU TIME em campo. Porra de ficar secando time do interior da Bahia.

Eis que, na sexta-feira, acordei às 6 da matina, abri a janela, olhei para o horizonte na direção do Sul de Minas e pensei comigo, “o Vitória vai brocar hoje”.

Ignorei o fato de a minha digníssima ainda estar dormindo e vociferei, “mulé, vamo pra Varginha”, ao que ela respondeu “umhumm” e seguiu dormindo. Ao acordar, a referida deparou-se com o marido de malas prontas e paramentado com o sagrado manto do Leão, dirigindo-lhe a seguinte indagação:

– Bora?

Horas mais tarde, estávamos na rodovia Fernão Dias, rumo à cidade dos ETs -não sem antes encarar um engarrafamento de quase duas horas de relógio pra sair da capital das alterosas, cujas principais vias estão em obras desde 1897. “Não tem problema”, pensei, “o Vitória vai brocar hoje”.

Ao chegar à cidade, ao invés dos costumeiros ETs, fomos recebidos por uma desanimadora chuva, cujo poder de enojar o meu baba era potencializado pelo frio característico da região.

Precavida como somente ela sabe ser, a patroa levou consigo um guarda-chuva, que foi prontamente barrado pelo porteiro na entrada de visitantes do Melão Sports Arena, ao argumento de que poderia ser usado como arma numa briga.

“Mas não vai ter briga”, argumentei, “não deve ter ninguém aí”.

“Tem sim”, alegou o representante dos ETs, “já chegaram quatro torcedores do Vitória antes de vocês”.
Entramos então no estádio sem proteção contra a chuva e de bico seco, pois a moça do isopor do lado de fora estava sem troco para uma nota de vinte merréis. Mas todo sacrifício era válido porque o Vitória com certeza iria brocar naquela noite.

Lá dentro, percebi que eu não estava fazendo nenhum sacrifício. Havia um garoto distribuindo balões com as nossas cores, que, descobri depois, eram de um tal que saiu numa reportagem anos atrás e que vai em todos os jogos do Vitória*. Um outro rapaz (cujo nome, se não me engano, é Marcos**) tem como meta ir em 113 jogos do Vitória pelo Brasil e já estava há dois dias sem dormir até chegar lá em Varginha. Enfim, pegar uma chuvinha e uma estrada de 300 km não eram mais do que minha obrigação.

A torcida visitante, como sói, é colocada em Varginha no local com a pior visão possível do campo. De sorte que eu demorei para entender a escalação do Vitória. Só fui descobrir, por exemplo, que o nosso camisa 8 era a rainha dos baixinhos lá pela décima quarta ajeitada nos seus dele(a) cabelos.

E os poucos lances que a gente conseguia ver direito eram os que ocorriam no lado esquerdo do ataque do Vitória no primeiro tempo. Não por acaso, foi este o lado em que ocorreram as faltas que deram origem aos nossos dois gols.

Vocês vão achar que é mentira minha, mas, no primeiro gol, falei pra Uellinton deixar a cobrança para Neto e apontei para este último o canto que ele devia bater. E nem venham dizer que não dava pra ele ouvir porque a torcida do Boa na hora estava abafando minhas orientações mandando o juiz tomar cachaça. Podem ver para onde Neto APONTA na hora da comemoração e digam se eu estou mentindo.

No final do primeiro tempo, antes do segundo gol, um dos torcedores (a esta altura, já éramos uns 30) me largou a seguinte: “Cerezo, tira Tartá!”.
No intervalo, descobri que o sacripanta que falou duas bobagens com apenas três palavras, na verdade era um torcedor do time de itinga que estava acompanhando um amigo Rubronegro rumo a São Paulo.

Mas não é que o sardinhense ajudou? A frase deve ter mexido com os brios de Tartá e o sacaninha foi lá, marcou o segundo, desempatou e assegurou nossa vitória.

No segundo tempo, pressão do Ituiutaba, digo do Boa, mais chuva e alguns vacilos deram um tom de dramaticidade à partida. Porém, o Vitória conseguiu segurar o resultado como há muito não via em jogos fora de casa.

E por isso nem a chuva nem o pneu furado na volta a BH conseguiram estragar a minha viagem. O Vitória brocou, vai continuar brocando e ano que vem, com toda certeza, estaremos de volta à Série A. E, se Ronaldinho continuar no Galo, acho bom ele começar a aprender a dançar com a bunda na parede porque a madeira vai gemer.

* Manoel Novaes. 

** Marcus Liyrio

PUTAQUEPARIU A ICONOCLASTIA!!!

junho 9, 2012

No tempo em que eu era menino, além de chiqueirar carneiros, fazia outras estripulias não muito católicas, como por exemplo mexer sempre no disjuntor da igreja matriz antes de começar a missa. Era uma agonia dos seiscentos DEMÔNHOS. Os padres, carolas e coroinhas ficavam num alvoroço desinfeliz, praguejando contra toda a minha árvore genealógica.

De quando em vez, meu finado pai tentava resolver o problema aplicando uma receita quase infalível. Uma mistura de urtiga e cansanção em doses nada homeopáticas neste meu lombo curtido pelo sol inclemente do semiárido. Mas, num tinha jeito que desse jeito. Afinal, como já ensinou Dois de Ouro, pau que nasce torto vira berimbau. Bastavam as feridas cicatrizarem, e eu logo esquecia o poder milagroso das ardentes e prediletas plantas de meu genitor. E novamente ia praticar meu esporte favorito: deixar a religião nas trevas, literalmente.

Pois muito bem. O tempo passou, voou, a poupança bamerindus se fudeu toda, porém jamais abandonei este vício infame de ficar desafiando o sobrenatural.

E ontem não foi diferente. A prudência me recomendava que ficasse quieto – até porque o Vitória, esta assombração que está incrustada em minh’alma há séculos, iria jogar contra um time fantasma, o Boa Esporte, numa cidade não menos fantasmagórica, Varginha dos Ets.
Porém, antes mesmo do início do jogo, comecei a brincar com os defuntos – e larguei a seguinte prosopopéia às 20h49 de ontem, também conhecida como sexta-cheira. “Profetizo sem medo de errar. No jogo do Vitória hoje, Xuxa vai ajeitar o cabelo 28 vezes só no primeiro tempo“.

Agora, me respondam: Pra que porra eu fui mexer com o morto-vivo? O sacana, além da tiara na cabeça, parece que usa aparelho auditivo telex, pois ouviu minha profecia e ajeitou os cabelos exatamente na quantidade de vezes que falei. E os torcedores do Vitória, esta raça ruim e exigente, ainda queriam que o cara jogasse bola. Amigos, a verdade é uma só. Ou ele ajeita a cabeleira ou joga bola. É impossível, para o sacana, realizar estas duas coisas ao mesmo tempo. O problema é que o indigitado sempre acha que os pelos de sua cabeça são mais importantes do que o Ludopédio. Mas, deixemos os mortos descansarem e cuidarem do cabelo em paz.

Voltemos ao futebol. E às assombrações.

Um dos mistérios que ainda não consegui decifrar é saber qual espírito entrou no corpo de Neto Baiano. Sim, só pode ser isso. O homem está possuído. Não há outra explicação. As duas últimas faltas que ele bateu foram coisa de outro mundo. Aquela de ontem, então, foi uma mistura de Rivelino com Didi Folha Seca.

PUTAQUEPARIU A CURVA ASSIMÉTRICA!!!

Por alguns momentos, cheguei a pensar que ele deve tá fugindo da concentração para ver as cobranças de falta que este modesto locutor pratica lá pras bandas de Itapuã e adjacências.

Mas, derivo. Derivo, mas não largo a iconoclastia. Assim que o juiz safado e ladrão (desculpe-me a redundância) apitou o fim do primeiro tempo com o Vitória brocando de 2 x 1, gritei. “Por mim, pode desligar os refletores e acabar o jogo agora“.
Pra que porra eu fui brincar com o sobrenatural ?

Ato contínuo, algum sacripanta incorporou meu espírito de porco infantil e desligou todos os disjuntores do Norte, Nordeste de Amaralina e de uma banda do Vale das Pedrinhas. Escuridão total. E pra piorar a porra toda, fiz duas coisas que contrariam minha religião. Peguei o celular da vizinha emprestado e fui escutar o jogo pela rádia. Visualizem a disgrama. Eu, de celular no ouvido, escutando os escrotos radialistas baianos. Num podia dar certo. É óbvio que, sem minhas orientações, o time iria recuar. E quase que a casa fedia a homem. A infâmia só não se estabeleceu porque mais uma vez o sobrenatural de almeida se fez presente. E Douglas esqueceu que era Douglas. No segundo tempo, incorporou o espírito e a técnica dos grandes goleiros que já honraram a camisa 1 do Leão. Um espanto.

Mas, chega de assombrações. Aliás, não. Na próxima terça, todos ao Barradão para assombrar o guarani. Quem não for é mulher de drácula.

P.S Aos que duvidam da profecia sobre Xuxa e também sobre a falta de luz, acesse o seguinte tuita e confira @ingresia.

UMA NOITE DE SUPERAÇÃO

junho 6, 2012

O Norte e Nordeste de Amaralina são testemunhas de que nunca fui de amassar barro para faraó. E não será desta vez que abandonarei minhas convicções. Assim, em verdade vos digo: Não se pode perder pontos no Santuário contra time nenhum, esteja ele embalado ou com o freio de mão puxado. Caiu na toca tem que ser madeirada (lá neles).

Bom, dito isso, registrado, carimbado, avaliado e rotulado, vamos agora falar de jangada, que é pau que bóia.

Seguinte é este. Noves fora as perdas e danos, o saldo da noite desta terça-feira é um só: superação. Esta é a palavra que deve marcar o confronto entre Vitória 2 x 2 América de Natal. Mais adiante detalharei.

Agora, antes de tudo e de mais nada, faz-se mister recorrer ao pingo de dignidade que ainda me resta e informar que não posso fazer uma análise abalizada da bisonha apresentação do primeiro tempo. Não porque me falte catilogência (recebam, hereges uma catilogência nos mamilos) para tal tarefa, mas porque não sou daquele tipo leviano que fala sobre o que não viu. E o fato é que num vi quase nada na etapa inicial, pois só consegui chegar ao Barradas com a bola já rolando. Bola rolando é modo de dizer. Na verdade a bola não ia para lugar algum. Tava tudo atravancado. O técnico do mequinha, Roberto Fernandes, sabedor da capacidade pebolística (eu falei pebolística, fariseus) de Eduardo Ramos, decidiu fazer uma marcação cerrada e individual no camisa 8 do Rubro-negro. Toda vez que o sacana ia pegar na bola já havia alguém fungando em seu cangote. Em algumas ocasiões, até mais de um. Por conta disso, e também por causa de uma caganeira (porra de problema estomacal!) que acometeu o menino Gabriel, ficamos com o time todo desconjuntado. Nossa glória é o que primeiro tempo só teve 45 minutos. Caso contrário, a casa ia feder a homem.

Ao perceber que Eduardo Ramos num tava conseguindo se desvencilhar da marcação e que Gabriel estava cagando goma, Experimentalgiani, contrariando suas convicções, decidiu fazer o lógico. Colocou um lateral na, pasmem, lateral e um atacante no ataque. Resultado. O time voltou com gosto de querosene. Com menos de 15 minutos, já havia igualado o placar e, principalmente, encurralado o afoito américa, que perdeu todo o ímpeto inicial e passou a jogar, digo, a tentar enojar o baba, fazendo uma cera dos seiscentos DEMÔNHOS.

A primeira parte da superação já estava cumprida. Saiu a apatia e entrou a garra. Porém, nem só de raça vive o futebol. É preciso um tanto assim de técnica. E foi exatamente isso que faltou aos nossos jogadores para matar a partida. Neto, por exemplo, parece que está se especializando em perder gols na zona do agrião, cara a cara com o goleiro. Foi assim com o Coritiba, o que acabou nos valendo talvez a classificação, e foi assim novamente ontem. Mas, vamos adiante, pois o cidadão já está bem crescidinho e gordinho (será que ninguém viu que Neto está acima do peso?) e não vai mais mudar. Além disso, não somos palhaços das perdidas ilusões para ficar repisando esta ladainha ad infinitum.

O fato é que, já contente com o empate, o dragão potiguar achou um gol nos estertores da peleja. E um gol cantado e decantado. Escanteio cobrado no primeiro pau e Neto dá uma furada bizarra. Novo escanteio e nosso centroavante, que deveria ficar guardando o primeiro pau (lá ele), vai para a risca da pequena área. Aí, não deu outra. O placar, digo datashow do Barradas, assinalou  um injusto 2 x 1 para o américa.

Foi o que bastou para a nova superação. Ao ver o time em desvantagem, os torcedores murrinhas começaram a sair do estádio levando consigo aquela energia xexelenta. Nem todos. É óbvio que ainda ficaram alguns para praticar o que mais gostam: reclamar.

Visualizem a cena. 40 minutos da segunda etapa. falta na pequena área e um cidadão grita: “Tira Neto daí, num deixa ele bater a falta”. O filho do referido  olha pra ele sem crer. Clima de comoção. Então, este rouco e religioso locutor larga as palavras da salvação. “Podem anotar. primeiro gol de Falta na história do cidadão”.

Não deu outra. Assim, de algum modo, de algum modo, não, deixa de má vontade Sêo Françuel, de modo brilhante nosso centroavante teve também seu merecido momento de superação.

É vero que o resultado final não foi o que merecíamos, desejávamos e precisávamos, mas foi o possível diante das circunstâncias. E a noite, como já disse, deve ser louvada pela circunstância da superação. Aliás, por falar em superação, o público também não foi o que o Barradão merece, deseja e precisa, mas já superou o do primeiro jogo. Se levarmos em consideração que o outro foi num sábado à tarde e este numa terça à noite, também já é algo pra ser anotado. Por falar nisso, pergunto. Estão com caneta e papel na mão? Então, anotem aí. De superação em superação, inclusive no número de torcedores, vamos brocar lindamente neste ano da graça de 2012.

Amém?

O ARTILHEIRO VOLTOU

junho 4, 2012

Depois de me raciocinar todo nas últimas 48 horas, cheguei à conclusão de que o fato mais relevante na brocança diante do ipatinga foi a volta do artilheiro. Tal acontecimento, na minha imodesta concepção, reveste-se de importância ímpar por uma série de motivos. O primeiro, e talvez mais notável, é que o referido matador já estava sendo olhado com desconfiança por parte considerável da torcida. Alguns, inclusive, já defendiam a sua venda, argumentando que ele não servia mais ao Vitória.

É verdade que tal comportamento da torcida é fruto também da campanha infame da escrota imprensa local (desculpe-me a redundância), que nunca engoliu o artilheiro. Ao contrário. Sempre fizeram campanha contra ele. As sardinhas, então, coitadas, fazem de conta que não o admiram, demonstrando um falso desdém, quando na verdade morrem de inveja dele. Afinal, nunca tiveram ninguém igual ao nosso matador.

É fato que no ano passado sua performance não foi das melhores. Muitos atribuem a permanência do Leão na segundona à (falta) de ação do nosso artilheiro nos momentos decisivos. Realmente, ele não é infalível e já fraquejou algumas vezes. Porém, no meu entendimento, isto não apaga, nem apagará jamais os muitos momentos de alegria que ele já nos deu e que continuará a nos dar. Esta é uma certeza que tenho e que confirmei no último sábado.

Este ano, ele já mostrou que num vai ter caô, caô, meu pé tá doendo, ai, ai, seu doutor, é porque meu pai mora no interior, a caixa da mudança tá pesada, não, nécaras e nada. Até mesmo os mais céticos hão de reconhecer que neste 2012 as atuações do referido são dignas de nota. Afinal, já são 18 jogos sem perder nenhuma.

Sim, amigos, 18 jogos invicto. É exatamente dele que estou falando, do Parque Sócio Ambiental, Santuário Ecológico, o Monumental Barradão.

A verdade que salva e liberta é uma só: O Barraquistão voltou com gosto de querosene. E chegou a hora d e a torcida do Leão voltar também.

Portanto, amanhã à noite todos os caminhos levam ao Santuário. Quem num for é mulher de gilmar mendes.

P.S Quanto à partida em si, além da goleada, vale destacar a atuação de Eduardo Ramos. Aliás, já é a segunda peleja em que ele pratica o fino do Ludopédio. Domínio de bola, visão de jogo, técnica apurada e um arranque que lembra Leandro Domingues nos bons tempos. Como disse o menino Anderson Nunes, vamos torcer apenas para que ele não faça as pazes com a cachaça. Tem tudo para fazer história no Clube. Amém.

Seca na Bahia. É preciso romper o pacto macabro da indiferença e do alheamento *

junho 1, 2012

Duas ásperas tragédias assombram a Bahia neste ano da graça de 2012: A seca e a indiferença.

Enquanto os casos da estiagem crescem de modo exponencial, as manifestações de solidariedade praticamente inexistem. O silêncio dos mais diversos setores sociais é inversamente proporcional aos assustadores dados relacionados ao flagelo.

Para que se tenha uma ideia concreta, de janeiro até o final de maio, o número de municípios em situação de emergência saltou de 43 para 244, atingindo mais de dois milhões e 700 mil de baianos que penam no castigado semiárido. No entanto, apesar de tantas e tamanhas dores, não existiu uma mísera campanha de mobilização para amenizar tais efeitos. Nem mesmo o apelo financeiro, fala-se em mais de R$ 100 milhões de prejuízo, tem conseguido atrair o interesse das almas benevolentes.

Os sociólogos de budega podem argumentar, não sem razão, que tais movimentações nunca vão resolver os ancestrais problemas da seca. É fato. Eles podem dizer também, do alto de suas sábias negligências, que são necessárias políticas permanentes para a convivência com a estiagem. Perfeito. De barriga cheia, é fácil teorizar sobre a fome alheia.

O problema, amigos de infortúnios, é que, na falta das fundamentais e efetivas ações dos governos, que demoram mais de chegar do que a chuva, os atos solidários sempre desempenharam um papel fundamental para abrandar o perverso quadro.

No entanto, neste ano da graça de 2012, nem isso. A Bahia, repito, tem sido vítima de duas ásperas tragédias: a seca e a indiferença.

Nunca antes na história deste país se viu tamanho descaso. As redes de TV, que normalmente estão a postos para faturar com as lágrimas alheias, não esboçaram, até este momento, qualquer campanha para sensibilizar a população. As igrejas, idem. Até mesmo as novidadeiras redes sociais, sempre tão afoitas para abraçar causas comoventes, permanecem num estranho mutismo diante de tão grave e urgente questão. Não houve sequer um mísero jogo beneficente. (Nem mesmo um time entrando em campo com uma faixa)

O que explica tamanho desinteresse ? francamente, desconheço. Aliás, pior. Não compreendo. O alheamento é tanto e tamanho que atinge a todos nós. A seca não está em nossas pautas ou prioridades, nem mesmo como catarse. Nos bares, becos, vielas e ladeiras desta província lambuzada de dendê o tema não existe. É como se alguma mão divina (ou maligna) tivesse colocado a problemática no index prohibitorum, numa espécie de macabro pacto de alheamento.

Nas poucas vezes em que o debate tangenciou, digamos assim, a questão da redução de danos da seca foi apenas para saber se as prefeituras deveriam ou não realizar carnaval fora de época ou se seria moralmente legítimo contratar milionários cantores de axé, travestidos de forrozeiros, para os festejos juninos.

Ah, sim. Não pensem que faço estes lamentos com o distanciamento brechtiano. Não e nécaras. Este omisso sertanejo que ora sopra estas denúncias também estava sedado pela apatia. Só me atentei para a falta de ações, inclusive minha, porque na manhã desta sexta-feira, também conhecida como hoje, vi a notícia de que a União dos Municípios da Bahia (UPB) lançou a campanha Seca na Bahia. Solidariedade, já!.


Ato contínuo, fui me inteirar da campanha da UPB e já vi pessoas dizendo que é exploração política, que o presidente da instituição é candidato em 2014 e que os atos são paliativos. OK. Vale apurar tudo. Contudo vale também, e muito, que gastemos nossas energias não apenas denunciando outrem, mas também batalhando por mais campanhas solidárias nestes tempos temerários.

Amém?

* Texto publicado aqui porque entendo que é preciso acabar com o silêncio sobre tão importante tema em todos os lugares. 

P.S O Banco do Brasil abriu (lá ele) uma conta para receber doações. Quem quiser ajudar com qualquer quantia, eis a conta 992.733-6/  e agência: 3832-6.