Archive for março \31\UTC 2014

O ANO COMEÇOU

março 31, 2014

Ao contrário do que pensam os incautos, o ano na Bahia não se inicia depois do Carnaval, mas sim quando o Vitória começa a jogar bola. E como neste domingo, diante do Conquista, o Leão praticou o fino do Ludopédio, já se pode afirmar sem medo de errar: o ano, finalmente, começou. Atenção, hereges, acertem os ponteiros dos relógios, pois estamos em 2014.

Por falar em acertar ponteiros, foi exatamente isso que os jogadores fizerem antes mesmo de a bola rolar. Reunidos em círculo, parecem que eles se comprometeram a fazer valer o bicho, em todas as acepções da palavra. Algo como um ritual de passagem de ano novo, para ficarmos no campo das simbologias.

E como se precisássemos expurgar fantasmas, o primeiro gol foi exatamente de uma caveira, após um vacilo monstruoso da zaga do Conquista. Menos de 15 minutos a zaga Alviverde ficou assombrada, entregou a rapadura, e Hugo guardou no canto. Vale lembrar que neste interregno (recebam, fariseus, um interregno nos mamilos), o goleiro Augusto quase papa um peru de outro mundo num chute de Ayrton.

Por falar nisso, o lateral voltou a calibrar o pé, meteu uma tamancada assombrosa de fora da área, o goleiro rebateu e Juan deu números finais ao primeiro tempo. 3 x 0. Números finais é modo de dizer, pois se quiséssemos botar a matemática em campo, poderíamos dizer que o Vitória teve 128% de posse de bola, jogou com 114% de garra e técnica, além de ter tido um compromisso tático acima da média.

Aliás, Ney Franco largou o doce: “Nossa equipe é forte quando joga bem postada. Do jeito que vínhamos jogando, poderíamos colocar o Baresi na zaga, o Piazza, o Luizinho, os melhores zagueiros do mundo – e eles ainda ficariam expostos. Fizemos um ajuste no meio de campo, pedi bom posicionamento dos laterais e dos homens que ficam á frente da zaga. Os nossos jogadores são bons, mas estavam expostos. Além da qualidade na parte ofensiva, precisamos fazer um jogo sem correr riscos”.

Perfeito, Ney, só uma pergunta. Por que diabos vossência esperou três meses para perceber o óbvio e mudar o sistema antigo? Assim, minhas 548 pontes de safenas num aguentam, meu caro.

Mas voltemos a falar de jangada, que é pau que bóia.

Na segunda etapa, mesmo sem um centroavante fixo, o time continuou com gosto de querosene. E marcou mais três gols. Aliás, minto. Não foram três gols, foram três golaços, isso sem contar uma infinidade de lances desperdiçados. Porém, não há o que se queixar. Só perde quem cria.

Confiram comigo no replay.

Outro dado extremamente relevante foi que nos noventinha, Wilson fez apenas uma defesa. O fato ocorreu depois que  Rodrigo Defendi espirrou o taco numa cabeçada e o atacante do Conquista chegou de cara com o gol, sendo fungado no cangote por Dão.

Ah, sim, quando a maré tá boa o rio corre para o mar tranquilamente. Do nada, começamos, em tom de galhofa, a puxar um coro de elogios a Dão. Ato contínuo, o referido passou a acreditar. E partia para cada bola como um pedreiro vai num prato de comida após um dia de labuta.

E foi assim que ontem nasceu um zagueiro, assim como também nasceu o ano novo que vai perdurar até dezembro.

Oremos.

 

P.S Ah, sim. Soube que, depois de saber que o Vitória voltou a jogar bola, houve um rebuliço doido lá pras bandas de Itinga. Aquelas lembranças das goleadas do ano passado voltaram a assombrar. Porém, espero, sinceramente, que caso o Vitória meta nova goleada a torcida tricolor num fique gritando. “Volta, tiririquinha. Devolvam, meu Bahia

PRISIONEIROS DO JARDIM DE INFÂNCIA

março 28, 2014

Há pouco mais de um ano, dialogava com uma professora gaúcha sobre as dores e as delícias desta besta e bela província lambuzada de dendê e de exclusão. A referida mestre, que nem bem desembarcara na Bahia, já estava estupefata com o desleixo de seus alunos – e olha que eram estudantes do Doutorado.

Nestas primeiras aulas, quase ninguém cumpriu o combinado. E o pior. Nunca assumem a responsabilidade. Sempre têm uma desculpa esfarrapada. Parecem crianças que se recusam a  crescer. Caso não mudem e cumpram com suas obrigações vou reprová-los, sem dó nem piedade”, descreveu, com um certo ar de desânimo, mas de modo firme. E, de bate-pronto, me questionou: “Como é que você consegue conviver com isto?”.

Pedi ao lerdo garçom mais uma dose de cangebrina, que, óbvio, não chegou, e falei para a moça que, antes de conhecer os pontos turísticos e outras mumunhas da capital, o visitante precisa ser apresentado a uma entidade etérea e intangível chamada “O rapaz”.

Minha amiga, seu espanto, e de muitos outros incautos que aqui chegam, é porque vocês não foram apresentadas ao ‘rapaz’. Este sujeito é o responsável/culpado por tudo que não funciona. Assim, se o mecânico não consertou seu carro, a culpa é do ‘rapaz’ que não trouxe a chave hexagonal, o alicate, o diabo”.

Porém, antes que a professora fizesse deduções equivocadas e/ou preconceituosas, achando que esta é uma característica de uma determinada categoria, explique-lhe que o fenômeno não escolhe classe social. “Caso você vá num banco, o gerente/superintendente lhe dirá que não pode resolver seu problema financeiro porque o rapaz não apareceu para trabalhar – e  o lançamento do boleto ficou travado ou algo que o valha”.

Pois então. Lembrei-me deste episódio agora por conta desta chibança entre o Esporte Clube Vitória e a Caixa Econômica Federal. Desde o início do ano o Clube não recebe a grana da instituição financeira, principal patrocinadora. E, segundo reportagem publicada no globo esporte.com tal fato tem origem na seguinte questão. “Para que o patrocínio com a Caixa fosse firmado, o Rubro-Negro precisou fazer um acordo de parcelar as dívidas existentes para, assim, receber a certidão negativa. O documento tinha validade de 19 de julho de 2013 a 15 de janeiro de 2014”.

Porém, nesta época, a diretoria, talvez preocupada em preparar o time para a gloriosa estréia na Copa do Nordeste (Vitória 0 x 3 América/ RN), esqueceu-se de correr atrás da certidão negativa que possibilitaria o início do recebimento de algo em torno de R$ 6 (seis) milhões. Com a mesma rapidez da zaga comandada por Rodrigo Defendi, só 60 dias depois do fim do prazo foi que o ágil departamento jurídico entrou com a liminar e recebeu o seguinte sabão do juiz Evandro Reimão Reis, da 10ª Vara Federal. Às aspas.

Tal circunstância temporal leva a concluir não ser tão premente o exame da liminar já que a própria autora somente depois de quase dois meses de vencido o documento é que se dispôs a requerer em Juízo sua obtenção. Por isso, deve-se aguardar o decurso do prazo para resposta (20 dias), quando certamente haverá mais elementos para formar a convicção do magistrado”.

Pois bem, digo, pois mal. Invés de reconhecer que errou, que não entrou com a liminar na hora necessária, o presidente do Vitória vai para as rádios da vida culpar uma tal “herança maldita”.

Tenha santa paciência!!! É querer brincar com a inteligência alheia. Nem vou debater a herança deixada pelo ex-presidente – até porque todos sabem que não nutro qualquer simpatia pelo referido, que teve uma gestão marcada pela truculência, acusações de racismo, falta de transparência, entre outros pecados. Porém, a obrigação de ter apresentado liminar pelo menos 60 dias antes não era dele.

O presidente atual tá querendo ser ladino, dando uma de João sem braço e recorrendo ao velho hábito baiano de botar a culpa “no rapaz”.  Porém, assim como a professora gaúcha, boa parte da consciente torcida do Vitória reprova, com veemência, estas tergiversações.

E aos míopes, que se preocupam e só enxergam as questões nas quatro linhas, não custa lembrar que tal fato, entre outros, muitos outros, tem contribuído para este início de ano tão medonho.

Portanto, presidente, é preciso assumir suas responsabilidades e sair deste jardim da infância argumentativo, pois ninguém aqui é menino. A torcida do Vitória merece e exige respeito.

VITÓRIA 2 x 1 souza

março 27, 2014

Depois de pouco mais de 40 minutos de uma apresentação bisonha, sem forças nem para jogar pedra em santo, eis que a bola é alçada na área e o zagueiro Sílvio sobe para fazer ECPP 1 x 0 Vitória. O placar anunciava a justiça, não somente por ratificar em números a então superioridade do time de Conquista, mas também, e principalmente, por deixar claro, desnudar, o total desleixo de souza (deixa em caixa baixa, maestro) com a equipe.

Sim, amigos de infortúnios, a culpa do gol foi do indigitado. Afinal, quem conhece um tanto assim de Ludopédio sabe que em qualquer baba de ponta de rua, na hora do escanteio, os atacantes são solidários e voltam para marcar o zagueiro do time adversário, invertendo os papéis da lógica cotidiana.

Pois bem, digo, pois mal. Na hora em que a bola foi alçada na área, o referido sujeito, completamente displicente, deixa o zagueiro cabecear sozinho. E pior. Ao ver que a bola foi gol, não esboça nem ao menos uma reação teatral para fingir um descontentamento. Nada. Demonstra apenas o descompromisso de quem foi contratado numa nebulosa segunda-feira de Carnaval.

É óbvio que algum incauto pode argumentar, não sem razão, que, no último Clássico Cartão de Crédito VISA (Vitória x sardinha), o time foi bizarro mesmo sem a presença do referido. Fato. Só que, apesar de praticar um futebol deplorável, a equipe Rubro-Negra ainda jogava com alguma velocidade e criou diversas chances de gols, desperdiçadas pela incompetência. Já na peleja de ontem, nécaras e nada. A entrada do sujeito deixou o time ainda mais lento e improdutivo, se é que isto é possível, pois a injúria ficou ali, na zona do agrião, sem função alguma, a não ser enojar meu baba. (Sim, por volta dos 26 minutos, ele concluiu ao gol, mas aquele peteleco num merece nem registro).

Porém, nem tudo foi choro e ranger de dentes. Assim que o sacrista foi substituído, o Sobrenatural de Almeida, que andava um tanto quanto sumido, novamente deu o ar da graça. O ponteiro do relógio marcava pouco mais de 30 minutos, quando o endiabrado PICA-PAU incorporou o talismã de 2013, driblou 629 zagueiros do Conquista e mandou a criança chorar no fundo do barbante, que é lugar quente.
Confiram comigo no replay.

Naquele momento, ficou claro que surgiu um nome para finalmente pacificar a Venezuela (copiraite Cláudio Reis). É só colocar PICA-PAU como presidente que resolve a chibança, pois ele ataca tanto pela direita como pela esquerda.

Mas, derivo. E volto apenas para encerrar dizendo que é urgente, preciso, necessário fundamental que Ney Franco exija contratações (especialmente de zagueiros e homens de criação) e defina o mais breve possível o time titular e o padrão tático. Afinal, o Brasileirão já é logo ali e a casa pode feder a homem. Deuzulivre!

 

P.S.1 PAREM COM ISSO!!! Esta história de que o Bahia tá desviando o dinheiro do jabá dos jornalistas para os ÁRBITROS & BANDEIRINHAS é apenas boato. O jogo de ontem foi parelho, com justiça. Afinal, se enfrentavam o vice-geral da 1ª fase, a sardinha, contra o vice do Grupo 3, o Serrano. Duelo de vices tinha que terminar igual.

 

P.S 2 Se houvesse justiça no futebol, souza teria sido trocado por uelinton. Seria o caso típico de negociação em que os dois lados saem perdendo.

UMA MARCA HISTÓRICA

março 25, 2014

Ontem, após publicar as prosopopéias sobre o último Ba x Vi, me dei conta de que estava chegando à marca de 5oo rabiscos nesta intimorata emissora. Apesar de nunca me importar com efemérides, pensei que este momento  deveria e merecia ser comemorado de forma séria, na ampla e boa acepção da palavra.

Porém, assim, de modo rápido, não veio nada em minha mente no descalabro do futebol atual que merecesse destaque. Aí, me lembrei que escrevi hoje um texto especial para o Jornal Sul 21 sobre um raro caso de dignidade e firme delicadeza no hostil cotidiano.

Então, apesar de não ser sobre futebol, resolvi abrir uma exceção e compartilhar o texto aqui, pois a atitude deste cidadão serve de exemplo para que possamos aplicar em todas as áreas de nossas vidas. Já imaginaram se os dirigentes de nossos clubes agissem com tamanha dignidade? Com vocês,

AILTON DA SILVA SANTOS: O MOTORISTA DO 1636

 

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Por Franciel Cruz

Especial para o Sul21

Os brasileiros, acostumados a tantas e tamanhas tragédias, se espantam sempre diante de atos serenos e firmemente dignos. Na última segunda-feira, dia 17, por exemplo, enquanto o país, atônito e impotente, testemunhava a brutalidade cometida pelo Estado, por intermédio da PM, contra Cláudia da Silva Ferreira, um motorista, quase que de modo anônimo, dava-nos uma surpreendente lição de que ainda há espaço para a tenra, mas firme delicadeza no desmantelo do cotidiano das grandes cidades.

Ailton da Silva Santos, o motorista do ônibus 1636, que muitos pensavam que era apenas uma ficção, ao contrário dos que acham que se pode arrastar cidadãos pelas ruas impunemente, fez o caminho inverso. Ao ver uma senhora adentrar o buzu com um filho no colo, falou a seguinte frase que merece ser repetida. “Só sigo viagem se derem lugar a esta senhora”.

Esta sentença, a princípio, pode parecer algo banal, mas ganha outra relevância quando se sabe que ela foi proferida no horário do rush, com os nervos à flor da pele e no caótico trânsito de Salvador, terceira maior capital do país. (Segundo dados do IBGE, em 1º de julho de 2012 a capital baiana possuía 2.710.968 milhões de habitantes)

É fato que todo o Brasil tem uma relação de tensão com o transporte coletivo, mas aqui na Bahia o quadro, historicamente, tem proporções alarmantes, de literal revolta. No início da década de 1930, a população, inconformada com o aumento da tarifa, promoveu o Quebra-Bondes, queimando cerca de 80 veículos, o que representava 2/3 da frota. Além disso, cercou a casa do prefeito e do secretário de segurança pública, num confronto que terminou com a morte de quatro pessoas. A empresa responsável pelas linhas, a Cia. Circular de Carris da Bahia, acionou o governo e retirou todos os veículos da cidade, deixando a população apenas com o caótico e incipiente serviço de ônibus.

No início da década de 1980, a insatisfação se volta exatamente contra os buzus. Mais de 600 foram destruídos e três pessoas morreram. Por conta dos péssimos serviços, Salvador foi pioneira também nos protestos recentes que tomaram conta do país, tendo sido palco em 2003 da já antológica e combativa Revolta do Buzu.

Para que se tenha uma ideia da gravidade do problema do transporte coletivo de Salvador, a capital baiana é a que possui a menor frota entre as maiores cidades do país, cerca de 2.500 ônibus para uma população de quase 3 milhões. (Não é possível fornecer dados corretos porque, depois de várias ligações e mais de 40 minutos de espera, ninguém na Transalvador soube especificar a quantidade de ônibus circulando na cidade).

Foto: kdkds

O fato, porém, é que a relação de veículos por habitantes é de apenas 0,9 em Salvador, quando em cidades com população menor e com metrô, como Brasília, atinge 1,5.

Foi também por conta de todo este histórico e deste caldo de cultura que a atitude de Ailton Santos, simbolizada naquela frase “só sigo viagem se derem lugar a esta senhora”, ficou martelando minha cabeça durante os últimos dias. E decidi saber quem era este personagem que teve a audácia de contrariar a lógica perversa do confuso e violento trânsito de Salvador.

Porém, conversar com Ailton da Silva Santos é extremamente complicado, não por conta de sua quase pueril simplicidade, mas principalmente porque sua vida é, literalmente, corrida. Não são raras as vezes em que ele tem que trabalhar dobrado, o que significa uma carga horária de 14 horas, para complementar o salário base de R$ 1.600,71, que usa para sustentar seu filho de quatro anos e mais duas filhas, uma de 9 e outra de 19.

Por isso, somente no último sábado, dia 22, foi possível ouvi-lo durante breves 15 minutos, entre o almoço e sua próxima corrida, no fim de linha de Matas dos Oitis, conjunto afastado distante mais de 20 Km do centro da cidade. Ele não falou nenhuma informação bombástica, nada que ilustre as manchetes de jornais sedentos de sangue, tragédias e ações espetaculares. Porém, contou algo extremamente relevante para quem se importa com coisas fora de moda, como delicadeza e preocupação com o próximo. Às breves aspas.

“Tenho 38 anos e comecei a dirigir faz mais de 15, por influência de meu irmão. Em todo este período, sempre repito aquela frase, pois sei que transporto vida. Não podemos sair arrastando as pessoas”.

Esta nova declaração de Ailton, me fez lembrar de Amilton dos Santos, tratorista que, no início da década passada, mais precisamente no ano de 2003, se recusou a cumprir uma ordem judicial de derrubar casas de pessoas de baixa renda. Por ironia do destino, em 2011 Amilton trabalhava exatamente na terraplanagem para as construções do programa Minha casa, Minha Vida.

Estes dois personagem, apesar das diferenças de seus atos, mas com sobrenome em comum, mostram que o Brasil, tão acostumado a bajular as árvores genealógicas forjadas nas capitanias hereditárias, deve acreditar mais e aplaudir os seus dignos “Santos” do cotidiano.

ACABOU A BRINCADEIRA!

março 24, 2014

Logo após o clássico Cartão de Crédito, o VISA (Vitória x sardinha), um destes peixes pequenos da família dos Clupeidae, que parece ter saído do Dique do Tororó, postou-se em minha frente com uns trejeitos rebolativamente esquisitos e começou a cantar (cantar é modo de dizer, pois a injúria apenas emitia os sons estranhos)  lepo-lepo.

Além de não ser chegado em pagode, também sou meio fraco em matemática. Assim, fiz a seguinte indagação para o referido. “Ô, criatura, você tem uma calculadora aí? É que a primeira fase acabou hoje e o Vitória terminou como líder isolado e absoluto. E, como sou fraco de contas, queria saber quem foi o vice?”.

Nada mais eu disse, nem me foi perguntado. Poderia largar diversas outras aleotrias, mas a Sardinella calou-se, quietou-se e voltou para o Dique igual a uma oferenda. Preferi também não continuar zombando, pois o momento não é pra graça. É hora de falar sério.

E o primeiro que merece ser chamado à responsabilidade é o senhor Ney Franco. Sim, o idolatrado, salve, salve Ney Franco, aquele mesmo que chancelou a contratação de Souza em plena segunda-feira de Carnaval.

Não é admissível que já tenhamos estreado na Copa do Brasil, estejamos na antevéspera do Brasileirão, e o time não tenha o mínimo padrão de jogo. Nem mesmo diante das horrendas equipes do Jabazão/2014, o Vitória conseguiu apresentar algo parecido com futebol.

Porém, pior do que tudo isso é que, logo após tomar uma bordoada da equipe horripilante de Itinga, ele venha com um cheiro mole depois do jogo, como se todo mundo fosse otário, dizendo que o “Vitória fez a melhor partida da temporada”. Ah, seu Ney, me faça um caldo de cana contaminado, por favor. Você perde um jogo para um time fraco, que jogou num esquema 4-6-0, e ainda fica procurando chiada. Assuma sua porra. Aliás, seu aproveitamento no VISA é abaixo da média, muito abaixo.

Aliás, desde que Escudero se contundiu que o Vitória não tem mais um jogador de referência no meio-campo. No entanto, os sábios ficaram fazendo cavalo de batalha para trazer um jogador em fim de carreira rejeitado pela maioria esmagadora da torcida, enquanto dispensavam Arthur Maia, que nem é santo de minha predileção, mas, ao menos, é prata da casa e jovem. E, como disse o sábio técnico Amadeu, campeão da Copa Sub-20, ele teve oportunidade, mas não teve sequência. Fato. Com Ney Franco, por exemplo, Arthur não jogou nem três partidas seguidas. Fez um bom jogo contra o Confiança, depois foi escanteado. Por falar em nossa eterna promessa, veja que gol antológico o referido fez ontem.

Mas, derivo. E como não estou pra brincadeira, volto apenas para finalizar registrando que papel mais feio do que o de Ney Franco e deste malamanhado time do Vitória (se é que isto é possível), só o desempenhado pela despreparada PM baiana. Depois de entrarem em confronto com pessoas da torcida organizada, os meganhas saíram pelas arquibancadas, de modo truculento, distribuindo gás de pimenta em crianças, adultos e em pessoas com deficiência. Lastimável.

Enfim, resta torcer para que o time se ajeite logo, tarefa tão complicada quanto torcer e lutar pela melhoria das ações dos PMs, que, por conta de nossa tradição militaresca, ao vestir uma farda se acham propostos legítimos do presidente, do papa, de deus.

Oremos.

P.S Para não dizer que Ney Franco só fez bobagem, ele obrou bem, ao menos uma vez. Ao ver que o menino Marcelo, que num é nem trapo e já quer ser guardanapo, tava rebolando em campo, ele o sacou imediatamente

Mesmo errando (quase) tudo, o Vitória fez o certo

março 20, 2014

O ponteiro do velho roscofe cansado de tantas e inúteis pelejas já estava no último suspiro quando o Vitória marcou o segundo gol que lhe daria o triunfo em sua estréia na Copa do Brasil, diante do brioso JMalucelli, time que tem nome de loja que vende equipamento de som pra carro de pagodeiro.

Diante do furdunço, várias hipóteses passaram em meu maltratado juízo. Falta, impedimento ou apenas mais uma demonstração de amor ao alheio, o velho furto, cometida pelos homens de preto? Impossível saber – até porque a labuta não foi transmitida por nenhuma rede de TV, numa demonstração clara de que a televisão brasileira, além de mentirosa, é omissa nos grandes e decisivos momentos do Brasil e do Vitória – o que dá no mesmo.

E pra acabar de lenhar e confundir a porra toda, o comentarista da rádio largou a seguinte prosopopéia, com voz ofegante e aquele tradicional tom de denúncia vazia que só os especialistas em dramatizar o insosso cotidiano sabem fazer. “Ele (respira) anulou o gol do Vitória por causa da pressão (ênfase na palavra pressão) da torcida”.

Detalhe. A intimidadora turba contava com apenas 245 pessoas. Isto mesmo, minha comadre. O público pagante, que segundo o radialista pressionou o juiz, era composto por 245 testemunhas.

Novo tumulto, só que agora na audiência radiofônica.

Ato contínuo, um amigo mais exaltado, que é sempre do contra, disse logo que o referido radialista “falava aquela bobagem de pressão” porque recebia jabá, digo, mantinha relações comerciais com o Vitória. Porém, outro, mais apaziguador, tentou acalmar os ânimos, propagando o inoxidável axioma: “Sim, por mais inacreditável que possa parecer, o radialista pode estar dizendo a verdade. Afinal, quando o juiz é frouxo, até cachorro em campo é pressão”.

Pelo sim e pelo não, para evitar maiores polêmicas, decidi que não faria nem farei nenhuma análise do jogo baseado no que ouvi, pois num quero sofrer pressão de seu ninguém. E, se forem me oferecer jabá, informo logo: minha parte eu quero em substâncias não recomendadas pela Carta Magna.

Mas, derivo.

O fato a ser destacado na labuta de ontem, e que ficará para a posteridade, é que, uma vez mais, o coelho Ozir invadiu o gramado do Ecoestádio, praça esportiva onde não existe nada de concreto. A arquibancada situa-se num morro coberto de grama e o placar é todo de madeira (isto deve ter sido planejado pra quando o time da Casa receber bordoada, eles colocarem logo os cupins em ação). Num ambiente assim, tão ecológico, é óbvio que os gols só poderiam ser de duas criaturas ligadas à natureza: Bruno Batata e Alan Pinheiro.

Desculpa, minha comadre, mas foi inevitável. É que em m jogos ordinários como o de ontem, não resta outro caminho, senão recorrer à cretinice metida a engraçadinha.

Porém, antes de encerrar esta prosa ruim, cabe falar algo sério. O Vitória, apesar de todos os pesares, fez o certo ao mandar o time titular para Curitiba, mesmo na antevéspera de um Ba x Vi.

É fato que o nosso clássico é a mãe de todas as batalhas, mas a Copa do Brasil tem que ser priorizada por equipes que não estão no eixo central do futebol de Pindorama. Afinal, depois que os sacanas do Sul Maravilha inventaram os pontos corridos, formou-se um cordão sanitário que praticamente impossibilita a entrada das equipes periféricas. Desde 2006, por exemplo, quando se passou a ter apenas 20 clubes neste sistema, apenas os times de SP, RJ, MG e RS estiveram entre os quatro primeiros. Só não estamos numa completa espanholização porque a incompetência dos dirigentes ainda contribui para que o desequilíbrio não seja maior.

Então, amigos de infortúnios, mesmo o resultado em Curitiba não tendo sido o ideal, repito que a decisão de dar prioridade à Copa do Brasil foi a correta, ao contrário do ano anterior. E deve ser assim daqui por diante, pois ela representa a tênue possibilidade de times periféricos botarem a mão num caneco nacional – apesar das mudanças ocorridas em 2013 e das fantasmagóricas pressões que sofreremos dos 245 torcedores dos JMalucellis da vida.

Amém.

P.S. 1 Para não dizer que comentarista de rádio só fala mentira, teve uma hora que um deles afirmou que a zaga do Vitória falhou feio. Impossível isso, pelo menos isso, não ser verdade.

P.S. 2 O Rubro-Negro Paulo Assis lembrou que o Atlético do Paraná furou o cerco no ano passado. Furou o cerco dos times do RS, SP, MG e RS, mas o Furacão não é exatamente um time da periferia aos quais eu me referia. De todo modo, vale registrar o acréscimo feito por Paulo.

PREDESTINADO

março 17, 2014

É óbvio que ninguém com mais de seis anos e três neurônios acredita nesta bobagem de que o destino já está traçado. Afinal, aceitar que existe uma entidade intangível e fantasmagórica a guiar e direcionar todos os nossos passos é abdicar do pouco de protagonismo que resta às nossas vidas queridas que já não são nem um mar de rosas.  Porém, tem horas que ficamos tentados a crer na retrógrada teologia da predestinação.

Nos últimos tempos, por exemplo, especialmente quando vejo o menino José Welison em campo, minhas convicções têm sofrido forte abalo. O pivete é um fenômeno.  É destes raros casos de quem sempre soube o que quer e como conseguir. Não foi à toa que, com apenas 15 anos, deixou seu torrão natal, o Rio Grande do Norte, e veio para o Vitória, avisando a decisão aos pais por telefone, apenas alguns dias antes da viagem.

Pouco tempo depois, com apenas 17 anos, tornou-se um dos protagonistas do importantíssimo título da primeira Copa do Brasil sub-20, conquistada pela Vitória no final de 2012. E vale ressaltar que o sujeito nem era titular da equipe. Porém, quando recebeu o passe de Alan Pinheiro, ali nas últimas voltas do ponteiro e com a casa fedendo a homem (o Vitória perdia do Atlético por 2 x 0 e mais um gol do Galo enojaria de vez o baba), ele dominou a criança com a serenidade dos convictos, avançou de modo destemido e, com o toque de craque, chutou no ângulo, selando a conquista.

Em 2013, pouco sei sobre sua biografia, mas é provável que tenha passado o ano fazendo novos pactos com o destino. Sim, só isso para explicar que sua estreia como profissional, no dia 22 de janeiro, tenha ocorrido  exatamente no jogo contra um time chamado Confiança. E, como já estava escrito há séculos, o garoto fez uma partida soberba e guardou um surpreendente (para os incréus) golaço de falta.

A partir de então, tornou-se dono da camisa 5 do Vitória. Aliás, minto. Na verdade, o meio campo inteiro do time foi a parte que lhe coube no latifúndio. Porém, amigos de infortúnio, a vida é correria, mesmo para os predestinados. E como ele correu. Outro dia mesmo tava se estrebuchando de cãimbra, num destes babas inúteis do campeonato baiano.

Aliás, por falar em baba inútil, o que leva uma pessoa a sair de seus cuidados num dia de chuva para ver uma peleja entre Vitória x Juazeirense, sendo que o Rubro-Negro já está classificado? Os outros 4.926 pagantes, num sei, mas este rouco e incrédulo locutor decidiu por uma questão, digamos assim, transcendental. Fui testar a veracidade da retrógrada tese sobre a predestinação.

E, em verdade vos digo: ao ver José Welison fazendo miséria em campo, minha falta de fé nos obscuros desígnios já previamente determinados saiu abalada. Sinto-me hoje com menos de seis anos e dois neurônios. Assim, confesso e admito: existem, realmente, pessoas que são predestinadas, que já estão com o destino traçado. E o de José Welison é brilhar muito.

Amém.

P.S Logo após o jogo, um sacrista veio fazer graça dizendo que este argentino Ferrari, que jogou na zaga do Vitória, é um fusca. Ao me lembrar de todas as lambanças do referido, apenas admoestei meu interlocutor. “Respeite o fusca”.

Aliás, esta minha zaga atual tá me fazendo ter saudades de Rubão e David Braz. Não, calma, minha comadre, largue esta pedra, estou apenas brincando.

E a moralidade tá indo para a alcova*

março 14, 2014

Há coisa de 10 anos, mais exatamente em julho de 2004, a Revista Placar publicou uma reportagem intitulada “Nas ondas (poluídas) da rádio”. Na matéria, assinada por Manuela Martinez, havia a denúncia de que os dois principais times do estado, Bahia e Vitória, bancavam do próprio bolso cinco equipes de rádio de Salvador.

A repórter informava que o Esporte Clube Vitória, único representante na Série A daquele ano, gastava 4% de todo o seu orçamento, cerca de R$ 500 mil reais, com as referidas emissoras. Questionado sobre o problema, o então presidente do Clube, Paulo Carneiro, fez a seguinte confissão. “Este ano quisemos moralizar o processo e passamos a exigir também a contrapartida  (…) Veiculamos a nossa campanha institucional nas rádios. Em troca eles recebem uma ajuda de custo para passagem e hospedagem dos jogos do Vitória fora de salvador”.

Passou-se uma década e o atual presidente do Esporte Clube Vitória, Carlos Falcão, em entrevista publicada nesta terça-feira, dia 11, no Globo Esporte, disse que “O Vitória não tem o que divulgar, porque o Vitória não paga (jabá). Nós temos uma relação muito transparente. O Vitória tem um conselho fiscal atuante, uma auditoria interna e externa… O Vitória não tem nada a esconder”.

Porém, mesmo não tendo nada a esconder, o presidente do Vitória não falou sobre os tais contratos relatados por Paulo Carneiro que, segundo a repórter da Placar, foi assinado “para tentar dar ares de transparência ao negócio”.

O irônico da história é que, em 2004, não há nenhuma aspas na reportagem da Revista Placar para o então presidente do Bahia, que na ocasião era comandado exatamente por Marcelo Guimarães, pai do último ex-presidente do Clube, Marcelo Guimarães Filho.

Porém, se a direção tricolor da época se calou, a atual resolveu botar o dedo na ferida. No dia 11 de fevereiro, o assessor especial da presidência, o marqueteiro Sidônio Palmeira, garantiu em entrevista a uma rádio local que “algumas pessoas da crônica recebiam dinheiro para falar bem do clube e cortamos todos. Essa diretoria acabou com o jabá”.  E mais. No dia seguinte, em sua página do facebook, a direção do Clube não só apoiou as declarações do assessor especial, como deu um passo adiante, informando que o material seria “apresentado na próxima reunião do Conselho Deliberativo para apreciação e o encaminhamento necessário”.

Houve um constrangedor silêncio de tradicionais entidades de classe, como Associação Bahiana de Imprensa (ABI) e o Sindicato dos Jornalistas (Sinjorba). Apenas a Associação Baiana de Cronista Desportiva lançou uma nota pública estrilando.

No entanto, na reunião do dia 22 de fevereiro do Conselho Deliberativo, véspera do clássico Ba x Vi, a direção do Bahia descumpriu a promessa, alegando que não tinha sido possível recolher “possível recolher todos os documentos necessários”.  Contudo, diante do barulho feito por sócios, conselheiros e torcedores em geral, não havia mais como recuar.

Assim, na noite de segunda-feira, dia 10, houve nova reunião do Conselho Deliberativo do Bahia, com a promessa de entrega no dia seguinte da lista com as “relações econômicas do Esporte Clube Bahia”. Lista é modo de dizer. Foi disponibilizado um calhamaço com cerca de 500 páginas, com as mais variadas situações.   Na papelada existiam desde dinheiro para radialistas, benefícios para parentes e até gastos exorbitantes em churrascarias de Salvador, que chegaram a cinco dígitos.

Novamente, silêncio constrangedor das tradicionais entidades de classe, ABI e Sinjorba. Mais uma vez, só quem se pronunciou foi a ABCD. O problema é que o atual presidente da entidade é sócio da Sportgol Assessoria e MKT, empresa citada na lista como tendo recebido a maior quantia nos últimos três anos, cerca de R$ 250 mil.

Quem tem feito um barulho bom é a torcida do Bahia, que de modo justo está indignada com os desmandos da gestão anterior. O problema é que na imprensa, nas ruas e até mesmo em uma parte da torcida tricolor, o destaque tem sido para as passagens e hospedagem da apresentadora da Rede Record, Jéssica Senra, nos hotéis Transamérica Prestige Beach Class Internacional, em Recife, e JW Marriott Hotel, no Rio de Janeiro, juntamente com o então presidente do Bahia.

Lamentavelmente, invés de se preocupar com coisas sérias, como diria Caetano Veloso, “todo mundo quer saber com quem você se deita. Nada pode prosperar”. Ato contínuo, a apresentadora afirmou, não sem razão, que “as minhas questões particulares dizem respeito a mim”. Fato. Deve existir a presunção da inocência de Jéssica. Afinal, nem ela nem ninguém têm a obrigação de exigir de algum amigo, parente, colega, amante ou o diabo, que lhe informe a priori de onde vem o dinheiro que paga uma estadia num hotel ou uma passagem. É fato, porém, que há um gosto de sangue no ar. Revoltada, a torcida do Bahia, que viu seu Clube perder jogadores até por falta de pagamento no FGTS, não se conforma que se gaste o dinheiro do Clube desta forma. E Jéssica deveria ter humildade de compreender isto – e não ficar debochando por aí, afirmando bobagens do tipo que quem quiser saber “me pague uma cerveja e a gente conversa”.

Assunto encerrado.

Assunto encerrado, vírgula. O ex-presidente Marcelo Guimarães Filho, que foi deposto pela justiça e está no centro do furacão, à guisa de defesa, afirmou em entrevista publicada nesta quarta-feira, dia 12, no Correio*, que o atual presidente “Fernando Schmidt precisa assumir que é homossexual”.

Oxente. Como assim, precisa assumir? O que tem a ver homossexualidade com o pagamento de jabás e outras relações escusas envolvendo o Bahia?

Pois bem digo, pois mal, estas infames tergiversações estão dominando o debate. Para se ter uma idéia, além de ter sido destaque no site Bahia Notícias, o de maior audiência do estado, estes dois casos também estão entre as cinco notícias mais lidas no correio 24h, veículo online do Correio*, jornal mais vendido da Bahia. Outro dado a se destacar é que o site Bocão News, de propriedade do sócio do presidente da ABCD, silenciou nos momentos iniciais das denúncias, mas nas últimas horas já publicou diversas matérias sobre nefastas e homofóbicas afirmações de Marcelo Guimarães Filho. (Alô, tergiversação!)

Está claro, portanto, que alguns querem transformar o que seria uma busca aos ratões em um triste Programa de Ratinho.

É preciso e urgente, neste momento, que os sócios, conselheiros e torcedores em geral puxem o freio de mão nesta chibança e mudem este tenebroso roteiro, retirando o debate da alcova e levando-o para o onde realmente interessa: a transparência nas contas dos clubes.

 

* Texto escrito especialmente para o inoxidável IMPEDIMENTO