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O dia em que Kleiton deixou de ser (apenas o) irmão de Leandro

dezembro 3, 2010

Aí um analista amigou meu disse que devemos matar nossos pais para que possamos nos tornar gente. Na verdade, ele não falou simples assim, pois esta raça de gente gosta de complicar tudo. No psicanalistês, o desinfeliz largou a seguinte: “Depois de admitir a superioridade do mestre/genitor, temos que assassiná-lo, simbolicamente, para podermos nos tornar mestre de nós mesmos”.

PUTAQUEPARIU O EMBROMEICHON, CHON, CHON!

Mas, deixando a profundidade de lado, eu quero é ficar colado à pele dela noite e dia, falando de jangada, que é pau que bóia. E nossa jangada é o futebol.

Assim, quando a moça do shortinho Gerasamba tá de calundu, sempre digo: “Minha nega, TPM é nada diante da angústia do goleiro na hora do gol. Aliás, tragédia maior ainda é a do cidadão que já tem alguém talentoso na família no mesmo ramo de sua atividade. Tem que matá-lo, como disse o tal psicanalista do primeiro parágrafo”.

Imaginem, por exemplo, companheiros de divã, quantas sessões de análise seriam necessárias para que o pobre do Edinho tirasse o peso de Pelé sobre suas luvas. Impossível tentar guardar a meta onde seu pai foi o maior artilheiro. Que infortúnio dos seiscentos!

Porém, nem só destas tragédias épicas, de rei e plebeus negros, vive o Ludopédio. O nosso pebolismo de cada dia também é feito de pequenos dissabores.

 Então, conto-lhes brevemente a saga de Kleiton e Leandro.

 Seguinte é este.

 Mesmo que o Brasil não saiba, o menino Kleiton despontava celeremente para o anonimato porque não conseguia se desvencilhar de SÃO LEANDRO DOMINGUES), seu irmão, digamos assim, mais famoso.

E, talvez até por não conseguir se afirmar diante deste carma, o contrato de Kleiton, que vence agora no final do ano, nem foi renovado pela diretoria do Esporte Clube Vitória. E a perseguição não é só dos cartolas, não. Na semana passada, ele tinha sido vítima, mais uma vez, do ódio e do ressentimento da torcida Rubro-Negra porque não conseguiu se desvencilhar do fantasma do progenitor.

Inclusive, na semifinal do Nordestão, no Estádio Manoel Barradas, o cara que tinha a missão de comandar o time apenas seguia as indecentes ordens táticas. Aliás, não só ele. Nenhuma das promessas da base Rubro-Negra assumiu a responsabilidade de brilhar, de botar um toque de improviso ou genialidade nas quatro linhas, conforme já foi dito AQUI, Ó .  

Mas, derivo. O fato é que, apesar de ter feito um dos gols do triunfo sobre o CSA, Kleiton não fez o que se esperava dele: Libertar-se da opressão do talentoso Leandro.

E quando tudo parecia perdido, eis que nesta última quarta-feira, Kleiton acordou com gosto de sangue na boca, com o desejo de matar o pai, no caso o irmão mais velho, para poder se afirmar. E decidiu fazer isso exatamente no jogo mais importante de sua vida : a final do Nordestão.

Assim, diante de um estádio completamente lotado e de um adversário que acabara de conquistar a Terceirona, o poderoso ABC de Natal, o menino Kleiton deu adeus à síndrome de coadjuvante. Além de um gol com a categoria da família Domingues, ele fez uma jogada no segundo tempo que espantou para sempre todos os fantasmas.

Seguinte foi este.

Tranquilo e infalível como Bruce Lee, Kleiton encarou o zagueirão abecedista e mostrou que craque pode fazer jogada bela sem firula. Assim, deu um leve toque entre as pernas do adversário, rumou para a grande área, deu outro drible desconcertante e com a generosidade dos grandes entregou a bola para Marconi mandar para as redes e carimbar o Tetra Campeonato do Nordeste para o Esporte Clube Vitória.  

E, finalmente, nós, torcedores Rubro-Negros, que nem ansiamos mais por título, conquistamos a glória máxima: Vimos nascer uma estrela do Ludopédio exalando a pureza de quem ainda não foi conspurcado pelo vil metal. Neste ano de tantos desacertos, esta foi a nossa vingança. E a vingança de Kleiton.

P.S Esta homilia vai dedicada para a galera que falou comigo ontem lá no Dia do Samba, Leo Negão, Edson da Lapinha e outro sacana que tava com uma filhinha linda, mas que não me lembro o nome.