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QUEM BEM FEZ FOI LEANDRO DOMINGUES

fevereiro 22, 2016

Na ensolarada e inconsequente manhã dominical, sou parado na briosa feira do fim de linha do Nordeste de Amaralina por aquele tipo de personagem que nunca vi de chapéu nem de vista, mas que é meu amigo desde sempre, sabe um monte de coisas sobre minha vida, inclusive que, logo mais, à tarde, estarei me martirizando no Barradão para testemunhar a peleja entre Vitória x Jacobina. E assim, sem dar boa tarde nem bom dia, ele já larga logo.

– Quem bem fez foi Leandro Domingues.

Para dialogar com este tipo de personagem que só se encontra na briosa feira de fim de linha do Nordeste de Amaralina não se pode demonstrar espanto. Não cabe perguntar “como assim?”. É preciso muita catilogência. Então, depois de me raciocinar todo, respondo a esta questão enigmática com uma pérola da filosofia moderna.

– É verdade.

Após ouvir meu abalizado comentário, ele prossegue, com a voz triunfante.

– Então, quem bem fez foi Leandro Domingues.

Como eu não poderia recorrer novamente ao mesmo axioma anterior, inovei.

– É fato.

Vendo que estamos na mesma sintonia, ele deslancha.

– Pois é. Quem bem fez foi Leandro Domingues (quem aguenta uma porra de uma repetição desta com o sol inclemente azucrinando o seu resto de juízo?) que inventou uma dor na coxa para nem aparecer lá. Só o cara sendo muito otário para gastar seu tempo num negócio sem futuro.

Havia uma verdade implacável naquela sentença, mas este rouco, cansado e cabeludo locutor é insistente. E otário. E vou ao Barradão. Porém, quando a bola começar a rolar (rolar é um modo carinhoso de falar, pois a disgramada pulava mais do que uma guariba, maltratada por aqueles pernas-de-pau) não consigo prestar atenção no jogo.

Os maledicentes, não sem razão, vão dizer que meu alheamento, meu olhar perdido, minha desconcentração, é consequência das canjebrinas e das ressacas ancestrais. Também. Contudo é mais do que isso. Eu não conseguia prestar atenção no jogo, pois ficava martelando em minha mente a frase fatal do meu eterno amigo do fim de feira: “negócio sem futuro”.

E a bola, vá lá, rolava e eu derivava, pensando quantas vezes tentamos prolongar um casamento falido, achando que ele irá se reacender, que das cinzas surgirão novas brasas. E assim, mesmo tendo a certeza de que é algo sem futuro, prolongamos uma dor, aliás, nem dor é, uma sensação de vazio, de esperança vazia e vã, por um tempo infindo. Porém, não há mais amor, só o desejo/medo de que não termine. E assim adiamos. E tudo se degrigola, fica sem sabor. E se, um dia, não damos um basta definitivo, viveremos ad eternum prisioneiros desta covardia.

Mutatis mutandi, o mesmo se aplica ao brioso campeonato baiano. Depois de muito relutar e prolongar o vazio, ontem, pela primeira vez depois de séculos, sucumbi à tese de que é imperioso acabar com os torneios estaduais. E é bom que façamos isso enquanto a gente ainda acredita que ama os referidos.Afinal, sempre chega  uma hora em que é inútil tentar prolongar o vazio.

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NÃO É APENAS RESSACA