Archive for junho \27\UTC 2013

NÃO EXISTE DESPEDIDA

junho 27, 2013

catimba_02

– Alô, André?

A resposta vem um tanto quanto impaciente e irritada.

– O que foi? Quem é?

Com o lombo curtido no carrancismo autoritário dos 600 DEMÔNHOS do sertão baiano, respiro e tento não me abalar.

– Seguinte. Meu nome é Franciel e gostaria de lhe entrevistar. Mas, se não puder, é nenhuma.

  – Oxente, rapaz, tenha sua calma. É que estava aqui torcendo pra porra do Japão – e a Itália acaba de virar o jogo. 

(É graça uma porra desta?)

Naquele início de noite do dia 19 de junho, apesar de já conhecer toda a fama do artilheiro que leva a catimba no próprio sobrenome, reforçou-se a certeza de que a entrevista, caso acontecesse, seria mercurial.

E, de prima, sem prolongar muito a conversa, ele informa logo que vai viajar e pede que lhe ligue na manhã da quarta-feira seguinte.

A referida manhã que eu perseguia parece que num vai chegar nunca. Mas, finalmente, o ponteiro do relógio bateu 9h34 da madrugada do glorioso dia. E decido telefonar.

André, aqui é Franciel novamente. Lhe liguei quinta-feira passada, lembra? Queria saber sobre a possibilidade da entrevista.

De bate-pronto, sem deixar a criança cair no chão, ele larga o doce, deixando-me mais deslocado do que os zagueiros e goleiros que tiveram o desprazer de enfrentá-lo.

Sabe onde é barraca de Sandiz, perto do conjunto Castro Alves, no Engenho Velho de Brotas?

Mesmo não fazendo a mínima idéia, digo que sim, até porque, uma vez mais, de modo surpreendente, ele afirma que estará me esperando no referido local dentro de uma hora de relógio. (Quando se fala uma hora de relógio na Bahia é porque se tem a obrigação de ser pontual.)

Atarantado, peço correndo ao meu filho que me ensine, num curso intensivo, como fazer uma gravação com seu equipamento. Com a convicção de que já posso trabalhar de cameraman em qualquer filme de Glauber Rocha, desço a pirambeira com uma câmara na mão, várias idéias e angústias na cabeça.

Assim, depois de ouvir nãos em mais de cinco barracas (barracas são estabelecimentos que nos outros lugares do país servem para vender revistas e jornais, mas aqui sempre se transformam em budegas), pergunto ao simpático cidadão:

Amigo, você sabe onde é a barraca de Perdiz?

Sem perder o humor, ele larga: “Perdiz, não, mas Sandiz, sou eu”.

Peço uma água mineral, o proprietário faz ouvido de mercador, André chega e, antes de me cumprimentar direito, pergunta se vou lhe acompanhar numa gelosa.

A entrevista abaixo, sem a respectiva gravação de tudo, pois, óbvio, num aprendi porra nenhuma da lição ensinada por meu filho, é feita sob o signo da canjebrina.

André, vamos começar pelas mitologias. Reza a lenda que seu famoso apelido surgiu quando você, mesmo sem dar um murro, amedrontou  o beque central Gardel do Internacional num princípio de confusão no histórico Grenal de 1977? 

Mentira. Quem lhe disse isso? O apelido surgiu porque quando eu cheguei no Rio Grande do Sul  ficava levando a bola para linha de escanteio, prendendo o jogo, amarrando, aí um locutor gaúcho, que eu num lembro o nome agora, começou a dizer: “Lá vai André,  catimbando, este André catimba de mais”. Pronto, aí, pegou.

Mas, este episódio com o zagueiro colorado existiu ou não?

– Sim, existiu – até porque os beques chegavam junto e eu nunca fui de pipocar. Num tinha este negócio de ficar pulando toda hora, cavando falta como agora, não. Aliás, quem pipocava era repreendido pelos próprios companheiros. Naquele tempo era pau puro

Você tem idéia de quantas confusões você provocou ao longo de sua carreira?

Rapaz, eu nunca fui de sair dando o primeiro cacete em ninguém, não. Porém, sempre que levei, parti para o revide.

Quantas vezes?

– Ah, num lembro, não.

(Perdiz, digo, Sandiz, intervém pela primeira vez).

2.568 vezes. Eu contei.

Mas, André, como é que você, com este seu porte físico, tinha coragem para entrar em tanta confusão?

Deixa eu lhe contar. Só comecei a jogar bola com 20 anos, no Ypiranga – e mesmo assim porque o cara que me viu jogar, um senhor chamado Paulinho, foi lá em casa pedir autorização à minha mãe, dizer que ia pagar minha escola e ainda me dar um dinheiro, pois minha família num aceitava que ninguém jogasse bola, não. Futebol aqui, naquela época, só pra moleque ou capitão de areia…

Mas, perguntei sobre sua coragem com este porte físico…

Então, quando fui jogar bola já estava preparado nas aulas com o mestre Caribé e com Ivo Rangel (professores de Karatê na Bahia). Além disso, eu era bom de capoeira.

Ah, bom. E a maior confusão da qual você participou foi mesmo no Ba x Vi de 1973, quando dizem que até o governador ACM teve que descer da tribuna de honra para apartar a briga?

Rapaz, aquela foi realmente a maior confusão. Ficou perigoso. Num lembro se o governador desceu, não, mas num fui eu quem provocou. Foi Osni (Ponta direita do Vitória), que inventou de dar um drible com a coxa em Romero, aí o pau quebrou.  E olhe que era um jogo numa data especial, comemorativa, Dia das Mães. Ganhamos de 1 x 0.

André, chega de violência, né? Vamos falar de coisas boas. Confere a história de que um macumbeiro queria vetar sua participação naquela histórica final de 1972?

Verdade. Naquela época a macumba era muito forte e respeitada aqui no futebol baiano. Ocorreu o seguinte. Éramos 16 jogadores. Aí, o cara veio passando com o frango em cada jogador, eu era o último. Quando o frango chegou em mim, coitado, já estava acabado, mas aí ele disse que era eu que tava carregado. E vetou minha participação no jogo. O presidente foi falar com Paulinho de Almeida, que era o técnico – e  este respondeu: “Meu time é André e mais 10”.

E você tava tão carregado que fez logo o primeiro gol com três minutos de bola rolando…

Pois é. Além do gol, com 15 minutos, sofri um pênalti, o que praticamente decidiu o campeonato. Mas, num foi um título fácil, não. O Bahia, se não me engano, jogava por dois resultados iguais. A torcida do Vitória não acreditava porque no ano anterior tínhamos perdido um título praticamente ganho. Aliás, nem quero falar sobre algumas disputas daquela época porque num quero acusar ninguém. Mas, enfim.  O fato é que ganhamos o histórico campeonato com um estádio bem vazio por conta desta descrença. Porém, Paulinho de Almeida era um técnico excelente, não inventava, e tínhamos um timaço.

Por falar em timaço, o Vitória de 1974 é considerado por muitos como o melhor da história. O que você acha?

Não posso garantir se era ou foi o melhor, mas era uma equipe excelente. Um meio de campo fabuloso, um grande ataque e uma boa zaga, porém infelizmente teve aquele jogo contra o Vasco…

André, o árbitro Agomar Martins realmente prejudicou o Vitória ou é só choro?

Prejudicou e muito. Deixou de dar um pênalti claro, além de ter enojado o baba o tempo todo. Tínhamos time para ser campeão. Aliás, o Vasco acabou levantando a taça depois de conseguir mudar mando de campo contra o Cruzeiro, muito estranho.

Mas, apesar de elogiar a equipe de 1974, no seu time dos sonhos na Revista Placar, no ano passado, você não escalou ninguém do Vitória. Por que?

Escalei o Aguinaldo

Mas Aguinaldo foi o goleiro de 1973. O de 1974 era Joel Mendes. 

É, você veio preparado para entrevista, ao contrário de outros jornalistas que num sabem nada e ainda querem me dar aula, dizendo que passaram pela faculdade, como se futebol aprendesse na faculdade. Outro dia um chegou aqui que tive que dar a real. “Você pode falar muita teoria, mas quem pisou lá dentro fui eu.” Mas o time que escalei, para mim, era realmente o melhor.

(Passa um Carro da Empresa de Limpeza Pública).

Porra, o número  desta placa é exatamente o invertido do carro de meu filho.

Você vai jogar no bicho hoje?

Claro.

André, voltando. Ou melhor, indo. Como foi sua chegada no Grêmio?

Rapaz, é engraçado. O Grêmio talvez tenha sido o time no qual eu mais marquei gol jogando contra. Quando jogava no Vitória, quando joguei no Guarani. Aliás, o time do Guarani de 1976 já era um timaço. Então, acho que eles me contrataram porque eu tava fazendo gol de mais neles.

Por falar em gol, aquela bicicleta de 1979 contra o Esportivo foi o mais bonito de sua carreira?

Foi um dos mais bonitos, mas tenho uns outros cinco daquele mesmo naipe, mas não de bicicleta, é claro. Não posso lhe mostrar agora porque o ladrão roubou meu carro e levou o DVD com todos os gols. Ô seu ladrão, devolva meu DVD.

(Nem com durapox a gente consegue segurar o riso)

Outro gol muito bonito e marcante foi o do título de 1977 do Grêmio. Você poderia relatar o que se passou em sua cabeça na hora em que recebeu aquela passe de Iura?

Rapaz, ele já sabia que eu entrava na diagonal. Quando recebi a bola, toquei e decidi bater logo de primeira. A partir daí, foi um turbilhão. Fiquei louco. Num pensei em mais nada. Só queria voar.  Inclusive, já falei com Dadá Maravilha que o único que parou realmente no ar fui eu. Aliás, Dadá me deve duas caixas de cervejas.

Como assim? Por causa da parada no ar?

Não. Foi que, no fim de nossas carreiras, lá no Amazonas, falei que ia fazer mais gol que ele. E fiz. Mas ele num me pagou. Dadá, pague minhas cervejas. (Novas risadas gerais  e irrestritas)

Mas, voltando ao gol. Queria extravasar muito. Fazer um salto mortal, mas quando cheguei na altura da trave, senti uma dor na coxa, na virilha e me lasquei todo. A mão, quando aperto no lugar, dói até hoje. Mas, valeu a pena. O Internacional era octacampeão, buscava o enea, mas você sabia que ENEA passou a significar “Eles Nunca Esquecerão André”? E não esqueceram mesmo, pois sempre sou homenageado lá e tenho um carinho muito especial pela torcida gremista e pelo povo gaúcho.

Já aqui, na Bahia, rola o boato de que você foi barrado no Barradão, confere?

Quatro vezes. E olhe que eu possuía a carteira de número um. Agora, me deram uma de ex-atleta que vence no final do ano. Na nova Fonte, ainda nada.

E se lhe barrarem de novo, vai ter putaria?

Rapaz, não provoque. Deixa quieto.

Por falar em confusão, como foi sua passagem pela Argentina, convivendo com Maradona, novo, já que dois bicudos não se bicam.

Tem nada disso. Rapaz, minha convivência com ele foi sensacional. Inclusive, ele me deu de presente um relógio ômega, bem bonito, com o nome André, no dia de meu aniversário. E olhe a porra. Eu não sabia, mas era o mesmo dia do aniversário do dele.

E você não retribuiu?

De uma certa forma, sim. Estávamos em uma excursão com o Argentino Juniors, no Equador, acho que em Guaiaquil. Então, cheguei num bar que tinha algumas mulheres, inclusive uma baiana. Fiquei lá conversando, ele chegou e apresentei ele para as meninas.

Apresentou em que sentido, André?

Ele perguntou quem era, falei que era de minha terra e tal, os dois se engraçaram…

Ah, entendi. Então, o relógio tá pago. Antes de encerrar, queria saber qual foi o pior zagueiro que você enfrentou?

Ah, foram muitos. Me lembro do Brito, Fontana, que jogava muito duro, este que você lembrou no começo (Gardel), mas enfrentava todos, não tinha medo de nenhum. Naquela época era cuspe, dedada, tudo.

Conte um episódio com algum zagueiro miserável, que lhe marcou.

Ah, teve um caso brabo com Figueroa, do Internacional, quando eu estava ainda no Vitória. Ele ficou provocando muito. Naquele tempo, zagueiro fazia que ia ajeitar o cadarço e enchia a mão de terra. Quando tinha um lance na área, jogava terra na cara do outro.  E este Figueroa ficou querendo me intimidar. Me provocou, bateu e eu dei um soco no estômago dele. O jogo, se não me  engano, terminou 1 x 1, não perdemos e eu fiz o gol e uma ameaça. Falei: “gringo, eu lhe pego lá em Salvador”, mas ele num apareceu aqui não.

(Sandiz interrompe novamente para dizer, modestamente, que o zagueiro mais duro que André enfrentou foi ele. Inclusive, informa que Catimba lhe deve 24 cervejas por conta disso. Os dois começam a discutir. Para que a casa não comece a feder a homem, faço a intervenção com a pergunta final).

André, como você encara esta homenagem que vai receber hoje à noite aqui em Salvador ? (Ele será homenageado no Cinefoot).

(Pela primeira vez extremamente emocionado) Rapaz, você pode não acreditar, mas é uma alegria muito grande pra mim. Andrezinho, meu filho, que joga mais bola do que muita gente que está hoje nas quatro linhas, também tá feliz, todo mundo tá contente.

Ser homenageado em sua própria terra é algo muito especial, pois nunca baixei a cabeça para ninguém, criei meus filhos com dignidade, não ganhei dinheiro no futebol, mas ganhei amizade. Então, esta homenagem, pra mim, é muito especial. Inclusive, vou vestir terno pela segunda vez. A outra foi em meu casamento.

Perdiz, a conta.

P.S O título deste texto era referente a uma pergunta que acabei cortando da entrevista relativa à lembrança dele do jogo de despedida. André respondeu: “Não lembro qual foi meu último jogo. Não fiz despedida. Não estou morto. Despedida é pra quem morre”.

Depois disso, dei-lhe um até logo e marcamos nova rodada de canjebrinas.

*A imagem é de uma campanha publicitária em que a fotografia foi de Lázaro Santana, André Heleno e Márcio Rosário.

P.S: Para quem lê da Bahia, lá vai o serviço de utilidade pública:
CINEFOOT TOUR 2013 – SALVADOR
Espaço Itaú Unibanco Glauber Rocha
De 26 a 29 de junho
Sessões noturnas, às 20h30
Entrada Franca
(Homenagem à André Catimba acontece HOJE, dia 27)
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QUAL FOI O RESULTADO DO FUTEBOL?*

junho 24, 2013

Naquele fim de manhã de segunda-feira, a inquietação daquele mininu num era apenas provocada pelo fervor da puberdade. Nécaras. O que ele efetivamente sentia era uma angústia transcendental – caso o referido soubesse que porra significava transcendental.

Porém, ele sabia de outras coisas. Sabia, por exemplo, que, no medieval sertão nordestino, ninguém, muito menos os meninos de pouca idade, ousaria ter o desplante de sequer pensar em afrontar seus pais. Aliás, não podiam nem cogitar ser dono de uma opinião, qualquer que fosse. O silêncio era o segredo do sucesso. Ao contrário de hoje, quando vivemos neste império infantil, o Estatuto da Criança e do Adolescente de priscas eras possuía apenas o seguinte e sucinto artigo: “Menino, cachorro e tamanco são debaixo do banco”.

Ô, DESGRÓRIA!!!

Mas, o desinfeliz planejava a subversão. E isto estava escrito em letras garrafais no seu atormentado semblante. Digo que estava escrito assim, no chute, pois não podia, efetivamente, ver o rosto dele. Não havia espelhos acessíveis para mim na Loja de Confecções Vestilar. Sim, aquele projeto de rebelde atormentado naquela manhã de segunda-feira era eu.

Vocês, moços, civilizados moços, que nunca viveram o carrancismo, talvez não tenham dimensão. E, como já soprou Loius Armonstrong quando questionado sobre o jazz, “se você precisa perguntar, não vai entender jamais”. Porém, mesmo assim, lhes direi.

Seguinte era este.

Segunda-feira, na PARADOXAL CIDADE DE IRECÊ, era dia de feira na rua. E dia de feira significava dia festa, de gente, muita gente nos insalubres estabelecimentos comerciais, de bêbados, pedintes, repentistas confundido e alegrando nossas vidas, de mascates de todos os cantos e outros vendedores de delícias e ilusões. E dia de muito trabalho. Sim, regalia de mininu era trabalhar, especialmente naquele início da década de 1980, quando corria muito dinheiro na localidade e a referida e opressora urbe era a Capital do Feijão, maior produtora de todo o Nordeste de Pindorama.

Todavia, naquele fim de manhã de segunda-feira, NÃO. NÃO, meu pai, NÃO vou mais trabalhar. Vou pra casa.

Rispidamente, meu finado genitor largou o doce: “O que é que você tem, rapaz? Se tá passando mal vai no médico. Afinal, Doutor Sombra (juro, este era o nome do médico) está aí pra isso”.

Eu, realmente, estava passando mal. Porém, nem mesmo Doutor Sombra, que possuía mais conhecimentos do que os curandeiros que vendiam a inoxidável banha do peixe-boi, poderia dar jeito. O doutor que eu queria ver era outro, muito menos soturno, que vestia a camisa 8.

Eis o drama de botar qualquer Shakespeare no chinelo. Como informar ao dita…digo, meu pai, que eu ia largar o labor (sim, ele não fechou o comércio naquele 5 de julho), a festa da feira, que mesmo trabalhando eu amava, para ir ver um jogo de bola que, na concepção dele, era coisa de malandra, assim mesmo, no feminino. (Creio que ele falava deste jeito, mudando o gênero, para desmoralizar ainda mais o Ludopédio).

Contudo, apesar de todos os perigos, fui ver o Brasil x Itália na TV colorida lá de casa (sim, tinha este desfrute. Era e sou um pequeno burguês revoltadinho), mesmo sabendo que, independentemente do placar final no Estádio Sarriá, meu lombo seria presenteado por doses generosas de urtiga e cansanção. Mas valia o risco. Aliás, inconsequentemente, prossigo achando que os riscos sempre são válidos.

E foi por tudo isso que, mais de 30 anos depois, neste fim de manhã de sábado, apesar de não ter mais a feira, novamente vivi aquela angústia transcendental que inquietava aquele menino.

E, novamente, deixei a paixão juvenil falar mais alto. Assim, mesmo contrariando as recomendações de meus velhos amigos, que me alertaram para todos os perigos ufanistas (assim como meu pai me alertou para os perigos fantasmagórico que rondavam meu espinhaço), decidi correr riscos novamente num dia de jogo Brasil x Itália, mesmo sabendo que, independentemente do que acontecesse no gramado da Nova/Velha e trágica Fonte, uma vez mais eu levaria porrada. E, agora, não era mais meu pai. Era algo muito pior: a pulicia militar da Bahia.

É fato que alguns podem argumentar que aquele time que entrou em campo em 5 de julho representava a esperança, tinha craques, e que estas manifestações de rua estão repletas de pernas de pau que não valem uma missa.

Talvez vocês tenham razão e eu continue o ingênuo revoltadinho de 30 anos atrás, mas o fato é: sempre que estiver claro para mim que os opressores poderes constituídos (seja meu pai ou a PM) estão de um lado, irei jogar bola no outro, mesmo com a quase certeza de que a MADEIRA VAI DESCER no final.

(Ah, sim. Os olheiros oficialescos, que só enxergam as obviedades, podem não ter visto, mas tem muito menino craque de bola na rua, não duvidem).

E, diante das certezas de meus amigos cartesianos, esquerdistas, moralistas, ponderados, legalistas, que estão sempre com medo de ENFRENTAR o novo (mesmo que este pareça e seja velho), opto pelo sábia constatação do poeta Antônio Brasileiro.

“A verdade é uma só: são muitas. E estamos todos certos. E sem rumo”.

Então, minha cartolina imaginária continua sendo esta: CHEGA DE XIBIATAGEM. É HORA DE CHIBANÇA!!!

Agora, deem-me licença, que vou perguntar ao freguês ao lado qual foi o resultado do futebol.

 

P.S E para não dizer que não falei de pilhéria, reproduzo uma das melhores frases que escutei nestes últimos dias: “Uma grande parte desta galera saiu do feissibuque, mas o feissibuque não saiu deste pessoal”.

* Texto publicado originalmente no brioso Impedimento

O VOO DE UM SUPER-HERÓI

junho 18, 2013

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Em 1976 foi inaugurada a boate Dancing Days. Nos anos seguintes, já no auge da moda das discotecas, as meninas Frenéticas, aquelas que nasceram sabendo que eram bonitas e gostosas, cantavam em todas as rádios: “o que mais me dói é que você escolheu errado seu super-herói”.

Entre uma coisa e outra, o moço Carlos André Avelino de Lima, conhecido nos gramados pebolísticos como André Catimba, assinalava um gol decisivo na final do Gauchão de 1977. O tento quebrou a hegemonia de oito anos do Internacional, deu o título ao Grêmio e fez o jogador virar notícia não exatamente pelo feito, mas pela sua emocionada comemoração.

Catimba balançou as redes e voou num impulso de dar inveja ao super-homem. Desafiou a gravidade e a lógica. Aliás, um dos seus grandes méritos em campo era este, o de acreditar em todos os lances, nunca considerando uma bola perdida. Seu apetite por gols era maior do que a própria razão.

A gravidade interrompeu o voo de Catimba e ele caiu no gramado contundido e vencedor, ao mesmo tempo. Um misto de sensações novamente sem nenhuma lógica. E as imagens foram veiculadas mundo afora, servindo de chacota para gargalhadas estúpidas.

Quem riu não entendeu que ali tinha se dado o trágico e fabular instantâneo do homem descobrindo os seus limites. Catimba, este herói do título tricolor, herói do esporte bretão, herói da artilharia e dos gols por todos os times que passou, sem asas, encontrou o chão.

O problema é que nós continuamos escolhendo errado nossos super-heróis. Quantas vezes nos deixamos enganar por vilões travestidos de paladinos da justiça? Quantas vezes apontamos dedos em riste para rir dos “patéticos sonhadores”? Quantos que são capazes de rir da imagem do centroavante tentaram um dia, como ele, voar?

Não parece lógico que sobre o aplauso de milhares de pessoas, gritando gol em uníssono, algum tipo de mágica se estabeleça? Somente quem nunca pisou num estádio de futebol pode achar que o que acontece ali dentro segue à risca o tipo de pragmatismo capaz de acreditar que a gravidade pode vencer!

Catimba fez 67 gols no seu tempo de Grêmio, contribuindo decisivamente para os títulos de 1977 e 1979. No ano da inauguração da Dancing Days, fez bailar a torcida verde e branca do Guarani, com 27 tentos assinalados em 1976.

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Antes ainda, por cinco anos, defendeu as cores do Vitória, sendo um dos pilares da geração de 1972, jamais esquecida pela torcida rubro-negra baiana. O ataque poderoso formado por Osni, Catimba e Mário Sérgio fazia tremer os mais respeitados adversários.

Somente em campeonatos brasileiros, o centroavante voador balançou a rede 31 vezes, até hoje o segundo maior artilheiro do Vitória na competição nacional.

Gigante com seus 1,73m de altura, ele irrompia defesas adversárias como um bólido. Dominava bem todos os fundamentos, gozando de um tipo de intimidade com o gol que poucos foram capazes de experimentar.

Em 1974, quando o Vitória jogou o melhor futebol do país e foi descartado das semifinais por um árbitro, que era fã de Nelson Rodrigues e achava poesia no seu apelo por canalhas no futebol, a equipe emplacou três jogadores na seleção final do campeonato.

Entre os onze da Bola-de-Prata da Placar estavam o goleiro Joel Mendes e os atacantes Osni e Mário Sérgio. Parecia muito para um time que não chegou às finais, não? Era tanto que não tiveram coragem de premiar o melhor centroavante da competição, André Catimba.

Tão improvável quanto o próprio futebol vistoso daqueles dias, Catimba estava fadado a cumprir a sina dos nossos melhores heróis, o destino de serem lembrados não por suas glórias, mas por suas quedas.

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No próximo dia 27, na segunda noite do festival de cinema Cinefoot Tour, em Salvador, André Catimba vai ser finalmente homenageado aqui na Província. A plasticidade do seu vôo interrompido só caberia mesmo em dois lugares, num estádio de futebol ou no cinema. Claro, porque a chamada sétima arte nada mais é do que a materialização do sonho humano de ser mais do que é.

Corações rubro-negros baianos e corações de todos que amam este esporte – o lema do citado festival de cinema é: Futebol é mais que um Jogo – devem estar em festa celebrando Catimba. Vamos todos, como fizemos nos anos 1970, voar junto com ele, sem medo da gravidade, como se chão não haja.

Alegria e estado de graça não significam isto, o chão que nos falta sem fazer falta? O chão é para os comuns, para os imortais somente os céus! Até porque num mundo cheio de gente pé no chão, alivia a alma saber que ainda existem os que querem voar e os que sabem escolher certo os seus super-heróis.

João Carlos Sampaio é, nesta ordem, torcedor do Vitória, crítico de cinema e fã de super-heróis.

Ps: Para quem lê da Bahia, lá vai o serviço de utilidade pública:
CINEFOOT TOUR 2013 – SALVADOR
Espaço Itaú Unibanco Glauber Rocha
De 26 a 29 de junho
Sessões noturnas, às 20h30
Entrada Franca
(Homenagem à André Catimba acontece no dia 27)

A BAHIA TEM UM JEITO SINGULAR

junho 15, 2013

Salvador, capital da Bahia e primeira capital do Brasil, é uma cidade singular. Sua culinária de raízes africanas, sua musicalidade, suas manifestações religiosas que sempre se misturam com o profano, são atrações para turistas nacionais e internacionais”.

Este ufanista parágrafo acima, que mostra como esta hospitaleira urbe é atrativa, é o trecho inicial de apresentação do Grande Hotel da Barra, último emprego de Carlos Alberto Conceição dos Santos Júnior.

Porém, há exatos 10 dias, o hotel, que trata tão bem os visitantes, não tem mais o referido jovem arrumando os quartos dos hóspedes.

-“Sim, ele realmente trabalhou aqui, mas saiu no início do mês”, diz a moça, com a voz tranquila e segura.

Questionada sobre o motivo da demissão, a moça, com a voz tranquila, segura , e agora quase seca, responde com imprecisão: “Não, ele não foi demitido, não. Não aconteceu nada. Ele saiu de modo normal”.

Salvador, realmente, é uma cidade singular. Capital campeã de desemprego – e as pessoas saem de trabalho sem pedir demissão, “de modo normal, sem acontecer nada”. É, definitivamente, uma cidade singular. Trata muito bem os visitantes, porém fraqueja na atenção devotada aos nativos.

No entanto, apesar destas discrepâncias, aqui a praia ainda é de todos. E o baba lá é sagrado. E não seria Carlos Alberto, no fervor hormonal de seus 22 anos, que desta lei da natureza futebolística iria ter isenção. E, nesta quinta-feira, dia 13, o rapaz, morador do Nordeste de Amaralina, acordou disposto. Sim, pra jogar bola na areia fofa da Praia de Amaralina é preciso muita disposição.

Caso morasse em São Paulo, provavelmente ele tivesse sido vítima da infâmia que tomou conta da principal avenida de Pindorama no mesmo dia 13 de junho, quando os meganhas mostravam, uma vez mais, que a farda lhes dá o direito de agir como prepostos de deus.

Mas, Carlos Alberto teve a sorte de nascer na capital baiana, esta cidade singular. E mais. Para ir jogar o baba com os amigos ele nem precisa pegar ônibus. Basta andar pouco mais de 500 metros. Aliás, esta é a mesma distância que separa a casa de seus pais da minha e também da praia. Somos todos aqui abençoados.

Para que vocês tenham uma idéia de nossas glórias, nesta mesma quinta-feira, desembarcaram na cidade exatamente 1.500 homens do Exército, Marinha e Aeronáutica para trabalhar na Copa das Confederações. A função deles, segundo informa a imprensa, “será garantir a segurança de áreas consideradas estratégicas, como subestações de água e energia elétrica. O grupo também poderá atuar em situações de emergência, caso seja identificada alguma necessidade adicional. Para a realização dos serviços, os militares vão contar com armamento e equipamentos específicos para missões de Defesa e Ações de Garantia da Lei e da Ordem, cães-de-guerra, veículos blindados, motocicletas e veículos especializados de engenharia”.

Todo este arsenal é para garantir a segurança dos turistas, que, uma vez mais, ficarão maravilhados com os encantos e magia desta misteriosa província lambuzada de dendê e de exclusão.

Já que entramos nesta seara, então é preciso informar que os excluídos, os nativos, vão ficar sob os cuidados da briosa Polícia Baiana. E o governo deve ter solicitado gente de fora porque parece que os policiais daqui não gostam muito de futebol. Sim, só isso para explicar os motivos de eles terem impedido Carlos Alberto de ir jogar com os amigos na praia de Amaralina, deixando o time da Rua Aurelino Silva incompleto, na manhã desta quinta-feira. Só o ódio ao futebol para explicar aquele covarde tiro na nuca do rapaz, que nem antecedentes criminais possuía.

Nesta sexta-feira, a prefeitura de Salvador decidiu decretar feriado na próxima quinta-feira, quando completa o sétimo dia do assassinato. Porém, a medida não é em reverência à memória de Carlos Alberto, não. Segundo o alcaide é apenas para “evitar transtornos” na Copa das Confederações.

Sim, claro. Os turistas não podem ser incomodados.

P.S Carlos Alberto era primo de Joel Conceição, uma criança de 10 anos, fissurada em capoeira, que também morava na rua Aurelino Silva. Assim como seu pai Mestre Ninha, seu tio Mestre Carlos e o Mestre Bimba, criador da Capoeira Regional, o guri tinha as manhas e mandingas. A capoeira é popular neste negro bairro do Nordeste de Amaralina porque sempre foi usada pelos negros para defender sua liberdade.
E, também, foi usada pelo governo do Estado para fazer filmes publicitários exaltando as glórias da Bahia. E Joel foi escolhido para esta tarefa. Porém, como bem descreveu sua mãe Miriam Conceição, “meu filho foi protagonista de uma Bahia vendendo alegria para os gringos, que a Bahia é berço de num sei o quê e de num sei o que mais, mas esta mesma Bahia, através de seu aparato policial, tirou a vida de meu filho”.
Joel Conceição foi assassinado em 21 de novembro de 2010, quando estava na janela de sua casa. Todos os nove policiais que participaram do assassinato estão soltos.

A perversidade dos números e as pequenas (e necessárias) glórias do cotidiano

junho 12, 2013

É óbvio que a torcida do Esporte Clube Vitória tem 10 motivos para comemorar este início de Brasileirão. Afinal, independentemente dos resultados desta quarta-cheira à noite, vai terminar a 5ª rodada no G-4.

Porém, a história recente tem mostrado que os times periféricos como o nosso sofrem muito com a perversidade dos números frios e calculistas.

PUTAQUEPARIU A MATEMÁTICA!!!

Desde que começou esta chibança de pontos corridos os times do eixo RJ/SP/MG E RS assumiram de forma monolítica o comando do Ludopédio em Pindorama.

Sim, é fato que nos três primeiros anos, São Caetano (em 2003, com a 4ª colocação), Atlético do Paraná, que conquistou o vice-campeoanto em 2004 e Goiás, com a honrosa 3ª posição em 2005, ainda conseguiram furar o cerco.

Porém, para que minha comadre tenha uma idéia das injustiças, depois que se estabeleceu o formato atual com 20 clubes, nenhum time dos subúrbios terminou entre os quatros primeiros. Apenas o Paraná de 2006, treinado também por Caio Jr, beliscou uma vaga na PRÉ-Libertadores, após terminar a competição em 5º lugar.  Depois disso, só madeira de dar em doido.

PUTAQUEPARIU A EXCLUSÃO!!!

Ah, sim. Outra coisa que não permite muitas ilusões é a comparação entre os quatro primeiros colocados até a 5ª  rodada e os que tiveram fôlego para chegar bem na última volta do ponteiro. Para subsidiar o debate, fiz uma breve pesquisa sobre o tema. Confiram comigo no replay.

No ano da graça de 2007, a situação era a seguinte.

1º Vasco-11

2º Botafogo-11

3º Corinthians-11

4º Paraná -10

* Nenhum destes terminou entre os quatro no final.  E o Paraná, o intruso, ainda acabou rebaixado.

No ano seguinte, em 2008, o quadro não foi muito diferente.

1º Flamengo 13

2º  Cruzeiro 13

3º Náutico 10

4º Grêmio 10

* Apenas o Grêmio se manteve entre os quatro, terminando em segundo. O Náutico, coitado, chegou em 16º, com a bunda roçando no rebaixamento.

Já em 2009, ano que também teve uma parada por conta da Copa das Confederações, o quadro era este.

Inter 13

Atlético 11

Vitória 9

Santos 9

* No final, apenas o colorado se manteve entre os primeiros. O campeão foi o Flamengo, que era o 11º. Já o Leão, acabou em 13 º e teve que se contentar com uma vaga chorada na Copa Sula Miranda.

Em 2010, exatamente como agora, havia dois times fora do eixo entre os quatro primeiros

Corinthians 13

Ceará 11

Fluminense 9

Avaí 8

Porém, depois faltou oxigênio e nem Ceará nem Avaí tiveram o gostinho de, ao menos, ver seus nomes na primeira página da tabela. O Fluminense sagrou-se campeão e o Coriinthians terminou em 3º

Já o ano da graça de 2011 serviu para mostrar que time poderoso também pode ser um cavalo Paraguaio. Vejam a tabela abaixo.

São Paulo 15

Palmeiras 11

Corinthians 10

Figueirense 10

* Pois muito bem. O campeoníssimo São Paulo tinha 100 % de aproveitamento, mas terminou chupando o picolé da capelinha do desprezo. Novamente, dos quatros primeiros, apenas o Corinthians chegou bem no final. Aliás, muito bem, pois levantou o caneco.

No ano passado, a classificação inicial era esta.

Vasco 13 Pontos.

Cruzeiro  11

Atlético Mineiro 10

Botafogo 9

*No final, o Fluminense brocou novamente e o Galo Mineiro foi o único que se sustentou na parte de cima da tabela.

Calma, minha senhora, largue esta Gilette. Nem tudo está perdido. Noves fora nosso alienável direito de fazer gozações com nosso ex-rival e outras mumunhas, as cruéis estatísticas também podem ser usada a nosso favor.

Como assim? Assim, ó.

Percebam que neste período estudado, nenhum time que liderava na 5ª rodada terminou na frente. Portanto, ainda há esperança.

E mais. Durante os vinte e poucos de boréstia, ainda podemos curtir o doce sabor de ser a melhor equipe nordestina na competição. (Adivinhem quem é o vice-melhor da região? Sim, ele mesmo, Sêo SETE).

Alguns podem achar que isso é glória miúda, mas as glórias pequenas também têm seu valor.

E vamos todos ao genuflexório continuar rezando por todos os santos argentinos.

LIBERTADORES DE FEIRA

junho 11, 2013

Uma das poucas serventias de Feira de Santana é confirmar o velho axioma de que geografia é destino. Encravada entre as malícias do Recôncavo litorâneo e as armadilhas dos Sertões, a referida e agreste urbe nunca conseguiu superar o trauma de ser apenas um entroncamento, lugar de passagem, de desmemórias.

Talvez isso explique os porquês de um dos principais personagens da localidade ter sido renegado até recentemente por quase todas as correntes ideológicas e sociais. Aliás, pior,  chutado para o escanteio da história com o mesmo desprezo e furor com que estes beques ordinários comemoram bicudas para a linha de fundo como se estivessem marcando um gol.

Sim, amigos de infortúnios, em qualquer lugar, um escravo que fugisse do chicote do opressor e, durante duas décadas, causasse transtorno ao, com o perdão do clichê anglicista, establishment seria louvado ou, no mínimo, teria sua rebeldia reconhecida por fatia considerável da população. Mas não em Feira de Santana, terra de olvidamentos. Lá, Lucas da Feira, eis o nome do Cristo-Exu (para usar uma expressão do jornalista Franklin Maxado) não ilustra sequer o nome de uma rua ou um beco qualquer. Também pudera. Nem o próprio Movimento Negro local aceita Lucas Evangelista plenamente.

É fato que, nos últimos anos, há uma tentativa de, digamos assim, compreensão do personagem histórico. Porém, durante muito tempo, a trajetória do intimorato só era relatada pelos que estavam do outro lado do balcão, a exemplo do oficial de Justiça Souza Velho, que, ainda no século XIX, escreveu o ABC de Lucas da Feira, ou o delegado de polícia Guimarães Covas, que,  em 1907, se propôs a fazer um relato “desapaixonadamente’ e classificava Lucas como “um temível facínora”.  Há ainda as vozes de Alberto Silva, que produziu Lucas, o Salteador, ou a de Sabino Campos, eternizando Lucas, o demônio negro.

Saindo dos entretantos e partindo para os finalmente futebolísticos, informo que foi com júbilo que a torcida Rubro-negra recebeu a notícia de que a última partida desta etapa inicial do FELICIANÃO seria disputada na referida e contraditória localidade. Sim, poucos lugares têm tanto a cara do Leão quanto Feira de Santana. Afinal, o Esporte Clube Vitória, mais do que uma agremiação esportiva, é um oximoro ambulante.

Exemplos? Recebam.

O Clube, que abandonou as competições no início do século passado porque não queria se misturar com colored, denominação que a imprensa de então usava para designar e estigmatizar os negros ou as ‘pessoas de cor, atualmente tem o termo “nego” como nome carinhoso e grito de guerra. Dizem que isso ocorreu por causa de um erro de uma torcida organizada que gritou Leeãao e o resto do estádio entendeu neeegooo. Mas pouco importa. O fato é que o antigo e elitista Club de Cricket Victoria tornou-se a equipe com maior número de torcedores nos bairros populares e de menor poder aquisitivo em Salvador.

Ok, minha comadre, sei que a senhora, impaciente com todo este bolodório, quer ouvir uma palavrinha sobre o desempenho do argentino, né?

Então, seguinte. Em 1953 (ih, fudeu, o homem hoje tá numa nostalgia dos 600), o Vitória decidiu finalmente se profissionalizar, abandonando o amadorismo. E aí aconteceu mais uma fundamental contradição. Apesar de ser o primeiro Clube nacional fundado por Brasileiros, o Leão foi buscar exatamente um estrangeiro, o argentino Carlos Volante (sim, ele, o mito, o cara que emprestou seu sobrenome à posição), para ser o técnico da equipe nesta nova empreitada.  E num é que o sacrista chegou logo brocando hegemonias e ajudando o Rubro-negro a conquistar dois campeonatos ?

Pois muito bem.

Exatos 60 anos depois, outro argentino faz história no Rubro-Negro, também quebra um jejum (agora, pequeno) e contribui para outro título estadual.  Porém, Maxi Biancucchi, eis a nome do endemoniado, tem feito mais. Ele trouxe de volta um misto de orgulho e admiração, revivendo ícones argentinos que já honraram a camisa Rubro-negra, a exemplo de Rodolfo Fischer, El lobo, e o mitológico goleiro Andrada, El gato, aquele da defesa de mão trocada. (Sim, é verdade que, como contrapeso, existiram também embustes como a dupla sertaneja Lucas Nania & Mariano Trípodi…)

Mas, a questão central é que o Rubro-negro faz história neste 2013, realizando o sonho de Bolívar (não o zagueiro ordinário) de construção da pátria latinoamericana integrada e de conquista da vaga libertadora.

E não havia terreno melhor para isso do que o estragado gramado do Estádio de Feira de Santana. Naquele árido terreno para os nativos, o Vitória, sabiamente, decidiu contar com o auxílio luxuoso dos hermanos. Era como se a localidade, que rejeita seus destacados personagens, estivesse marcada para acolher a glória da legião estrangeira.

E o primeiro gol (sim, aqui tratamos também da peleja em si) foi exatamente do paraguaio Cáceres, numa espécie de vingança e demarcação de terreno, já que a cidade possui  a maior feira paraguaia de todos os 18 continentes, a fabulosa Feiraguai.

Menos de dois minutos depois, Éderson provocou um fuzuê e fez o gol de empate. Porém, aos 35  minutos, Maxi armou um salseiro na defesa atleticana e chutou de dois dedos (aquele tiro que o cara tenta acertar com o peito do pé, mas sai uma trivela mascada) para brocar novamente.  Golaço.

Quando tudo parecia se acalmar, as tropas alemãs, comandadas por aquele sujeito que tem sobrenome de laboratório,  mandou uma de suas eternas e venenosas bolas para  a zona do agrião, estabelecendo uma muvuca dos 600 e o novo empate no placar.

E o feitiço só foi quebrado aos 42 minutos da etapa final, quando o outro argentino, Damian Escudero, fez renascer esta inexplicável magia entre estas duas nações, Vitória e Argentina.  Aquela cutucada, logo após o escorregão, fez a multidão cantar em portunhol castiço. “Dale, dale, mi león! Leóóóón…”.

Ah, sim. Por falar em cantar, cliquem no linque abaixo e ouçam sem parar para compreender o motivo fundamental da mágica ligação entre Argentina e esta Província lambuzada de injustiças, plágios e remelexos.

P.S Ah, sim. Outro herói rejeitado pelas grandezas de Feira de Santana é o cara do isopor que trabalha no Estádio.

Provavelmente por desconhecer as rígidas recomendações da impoluta CBF, o vendedor ambulante sempre se aproxima do muro e joga o cordão amarrado numa pedra para fora do Jóia da Princesa. Depois, candidamente, puxa o cordão, que vem acompanhado de uma caixa  cheia de cerveja… com álcool.

Não é possível compreender nem explicar os motivos de os meganhas ficarem perseguindo tão boa alma, legítima herdeira da rebeldia de Lucas da Feira.

Qual é a música, maestro?

junho 10, 2013

Ainda impossibilitado de cometer a abalizada análise da peleja de ontem no Jóia da Princesa por conta do alto nível de sangue na canjebrina que corre em minhas veias (ou seria vice-versa?), apenas solicito ao maestro que coloque este som na caixa.

 

Agora, eu lhes pergunto: com que roupa?

junho 8, 2013

Desde que este velhaco locutor começou a acompanhar o Ludopédio, e lá vão muitas décadas, uma parcela da torcida do Vitória, talvez por (má) influência dos cartolas de plantão e dos radialistas escrotos, sempre quis enojar o baba, exercendo com vigor a seguinte e esquizofrênica atitude: Aplaude, sem cessar, ou, no mínimo, é conivente com jogadores meeiros e pernas-de-pau vindos de outras paragens, enquanto, concomitantemente, tem pouquíssima paciência com o Ouro da casa.

PUTAQUEPARIU O COMPLEXO DE VIRA-LATAS!!!

É fato que este tema num é novidade nesta intimorata e impoluta emissora. Já ministrei aulas sobre a questão diversas vezes. Só em julho do ano passado tratei do tema AQUI  &  ACOLÁ.  Porém, tal e qual um Sísifo do Sertão, não me canso e volto a repetir tudo novamente. E repito porque neste ano da graça de 2013 existe o seguinte agravante que relatarei a partir do próximo parágrafo.

Seguinte é este. Pela primeira vez na história, o Leão iniciou a temporada ostentando de fato e de direito o título de melhor divisão de base do Brasil. Então, havia uma espécie de SINERGIA CONDESCENDENTE (seja lá que porra isto signifique) para com os garotos Rubro-negros.

Porém, a direção do Vitória trouxe um técnico que, apesar de discursar neste sentido, decidiu trilhar o caminho oposto. Para que vocês tenham uma idéia da barbárie, na escabrosa eliminação diante do Ceará na Copa do Nordeste, o Leão começou a partida sem nenhum, repetindo de outra forma para facilitar o entendimento, com ZERO jogador da base campeã da Copa do Brasil. Até na lateral-esquerda, que não tínhamos opção, começamos a partida com um Cardoso, que deus o tenha, improvisado. Na verdade, o referido estava aqui improvisado de jogador, pois ele, na verdade, deve exercer outra função na vida real, tipo, sei lá, estivador no Porto. (Ô, Cardoso, traga logo este saco de milho de 60 kg aí, sacana!!).

Esta tragédia vergonhosa, se é que tragédias podem ser vergonhosas, ocorreu em 18 de fevereiro. Infelizmente, a lição não foi aprendida. Na patética (Áquila coisa num pode nem receber a denominação de trágica) desmoralização diante do Salgueiro, já em maio pretérito, novamente a base Campeão estava completamente escanteada. (Só Mansur, que nem era destaque daquele time campeão nacional, começou o jogo como titular).

Pois muito bem, digo, pois muito mal.

Neste domingo, o Vitória tem um compromisso de extrema importância contra o Atlético do Paraná, em Feira de Santana. Sim, minha comadre, é óbvio que, no sistema de pontos corridos, todas as partidas são fundamentais. Porém, esta diante da equipe paranaense ganha uma relevância maior pelo aspecto simbólico. Afinal, caso o Lleão broque, e tenho fé que brocará, terminaremos esta etapa inicial entre os primeiros da competição. Assim, torcida e time voltam para as complicadas pelejas no segundo semestre com um tanto assim de auto-estima.

Mas, derivo. E volto logo para dizer que para a labuta contra o Rubro-negro do Sul estamos com 826 desfalques e sem ninguém razoavelmente à altura para substituir.  E agora, eu lhes pergunto: com que roupa eu vou para o samba? E o pior. Os meninos, que não foram preparados para ir ganhando cancha no fraco campeonato baiano, devem ser jogados na fogueira das necessidades.

Então, emulo o bom Noel (não o sardinhesco) e digo que “Eu hoje estou pulando como sapo. Pra ver se escapo desta praga de urubu. Já estou coberto de farrapo, mas NÃO eu vou acabar ficando nu”.

Não, isso, não porque eu faço fé é na rapaziada, que vai em frente e segura o rojão.

P.S 1 Esta homilia é dedicada a Dimas, Magal e Willie, que, mesmo antes das festas de São João, terão que pular fogueira.

P.S 2 Para não quebrar a boa onda supersticiosa eis o que fizemos no nosso último confronto diante do adversário deste domingo.

Acovardou-se

junho 6, 2013

A princípio, por vício de linguagem, cheguei a pensar em colocar o seguinte título para este texto: “Aputou-se”.

Porém, depois me raciocinei todo e lembrei que as putas, ao contrário do time do Vitória hoje, têm dignidade.

Sei que algumas polianas, aquelas que sempre querem enxergar o mundo cor de rosa, irão dizer que num é pecado ser derrotado pelo Grêmio lá em Porto Alegre. Óbvio que não. Aliás, se fosse, o Leão já estaria com o passaporte carimbado, avaliado e rotulado direto para o inferno. Porém, uma coisa é perder com o mínimo de hombridade, outra é se aputar, ops, digo acovardar-se. (Peço novas desculpas às moças que labutam no cotidiano com honradez. Definitivamente, elas não merecem esta má comparação).

Pois muito bem, digo, pois muito mal. Para não falsear com a verdade, cabe informar que a partida contra o tricolor gaúcho começou a ser perdida com alguns dias de antecedência, logo após a peleja contra o Vasco no Santuário.

Como assim? Assim, ó.

Ao saber que não contaria com Renato Cajá, Caio Jr. sacou do coldre todo seu estoque de eufemismo e informou nos microfones da vida que o time jogaria “mais compactado” em Porto Alegre.

Que beleza. Quando nada, fiquei mais sabido. Aprendi que jogar “mais compactado”, no linguajar do indigitado, é sinônimo de ser pusilânime – se bem que até este termo é muito suave para o que ele fez hoje com o Leão e, consequentemente, para aquilo que o Leão fez com sua torcida.

PUTAQUEPARIU A COVARDIA!!!

Porém, como desgraça pouca é bobagem, o técnico decidiu levar a campo uma companheira ideal e quase inseparável para a covardia, a burrice. Assim, uma vez mais, substituiu Dinei (que, é fato, jogava muito pouco, quase nada) por um cidadão que se for chamado de medonho será um elogio. E é bom ressaltar que não é a primeira vez que ele queima uma substituição de modo completamente desnecessário. Como castigo, o time terminou a partida com um jogador a menos.

é óbvio que, como já afirmei anteriormente, o jogo desta quarta-feira à noite não foi de todo inútil. Serviu também, por exemplo, para que eu consolidasse a certeza de que Deus tem uma inexplicável comiseração dos covardes & burros. Sim, só pode. Afinal, se o Todo Poderoso deixasse correr frouxo, era para o Rubro-negro levar um sapeca inolvidável. E, ato contínuo, a prestativa & competente & visionária diretoria do Leão já estaria nas rádios amigas anunciado a volta do genial Ricardo Silva.

Hômi, quá; sinhô, me deixe, viu valera!!!

Ah, sim, sobre o jogo em si não gastarei meu pecaminoso latim em respeito às senhoras que frequentam este insalubre recinto. Elas não merecem ouvir o estoque de palavrões que está preso aqui, no canto da boca, misturado com aquele sabor insuportável de bota de sargento e soda cáustica.

Então, para dormir o sono dos justos, peço apenas ao piedoso Senhor que me sirva urgentemente um caldo de cana contaminado com a cachaça de santo Amaro. Com certeza, esta receita me fará menos mal à saúde do que testemunhar o time de Caio Jr. jogando “mais compactado”.

Quem não pode com mandinga não carrega patuá

junho 5, 2013

Os profetas do apocalipse estão mais felizes do que relâmpago no trigo (alô, Cortázar). Em todas as emissoras eles babam de júbilo. “Ah, o Grêmio tem ampla vantagem sobre o Vitória no Rio Grande do Sul”; “Ah, o Leão não vence em terras gaúchas há mais de 30 anos”;  “Ah, nenhum jogador do Rubro-negro comeu SCARLETT JOHANSSON e etc e coisa e  tals”.

É isso. Qualquer tema é motivo para esta galera do mal (que atualmente só pode comemorar um honroso e temporário 10º lugar na tabela) amplificar o terror.

Porém, em verdade vos digo: O DEMÔNHO num é tão feio assim como estão falando, não.

Sim, é fato que os números não mentem, mas, quando torturados, eles confessam.

Como assim? Assim, ó.

É só inverter o teorema – seja lá que porra isto signifique – e argumentar, por exemplo, que o Vitória não perde em terras gaúchas há mais de quatro anos. E mais ainda. Nos dois últimos confrontos no Olímpico, o tricolor dos pampas empatou com o Vitória com as calças nas mãos.

Meninos, eu vi. Em 13 de setembro de 2009, ninguém me contou, não, eu estava lá, o Vitória fez 1 x 0 com Neto Berola (que deus o tenha), meteu bola na trave e o caralho aquático. Numa cagada, depois dos 40 minutos do segundo tempo, Jonas empatou.

Já em 14 de julho de 2010, não foi diferente. O Leão brocou primeiro com um golaço de Wallace e o Grêmio só conseguiu empatar porque o miserável do Egídio agiu contra nosso patrimônio.

Contudo, todas estas coisas são águas passadas que não movem redemoinhos (Já disse que não sou bom em metáforas).

O que queria mesmo dizer é que para espantar e exorcizar todas estas notícias tenebrosas que pipocam nas emissoras de vida fácil, convoco o SANTO DOMINGUÊS

Seguinte foi este.

O cenário era extremamente parecido com o atual. Estávamos no início de junho, também valendo pela 4ª rodada e também com estas mesmas as injúrias propagando suas tradicionais aleivosias.  Para complicar, do outro lado, havia um paredão, na verdade, uma cordilheira. Victor, que outro dia fez uns milagres aí, era o goleiro do Grêmio.

A bola rola e o desinfeliz mostra porque no ano anterior tinha conquistado a premiação de melhor goleiro do Brasil. Pegou até pensamento ruim.

Porém, na última volta do ponteiro, SÃO DOMINGUES deu uma tamancada que vou lhes contar. Aliás, não. Não contarei nada, pois vocês podem achar que estou exagerando. Ajoelhem e vejam o vídeo abaixo

Então, é isso. Nada de se intimidar hoje à noite. Afinal, quem não pode com mandinga não carrega patuá.

Portanto, é chegar na Arena e se impor – até porque somos especialistas em brocar tricolores  nestas  (mal) ditas arenas, certo?