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Futebol (também) é escrita

abril 29, 2010

Nas Condições Normais de Temperatura, Pressão e Cachaça (CNTPC), este embriagado locutor esperaria as tradicionais e regulamentares 48h para botar no ar a mais esperada, abalizada, vilipendiada e aliterada resenha esportiva do Norte e Nordeste de Amaralina. Hoje, porém, num tem ressaca certa. Mesmo com este terrível gosto de bota de sargento no canto da boca, subo agora nesta impoluta tribuna para relatar tudo o que vi e vivi em mais uma noite de júbilo no Parque Sócio Ambiental Manoel Barradas, o Monumental Barradão.

Aliás, minto.

Não vou me restringir aos fatos desta gloriosa quarta-feira, até porque para entender o que aconteceu ontem é preciso retroceder no tempo. E como sabe a culta platéia (deixa o acento, revisor sacana), um pouco de história e caldo de galinha não fazem mal a ninguém.

Seguinte foi este.

No ano da graça de 1974, o Esporte Clube Vitória possuía o melhor escrete da Bahia, duma banda de Sergipe, do Brasil e, quiçá, dos 18 continentes. E, antes que pensem que hiperbolizo, ressalto que isto não é conversa de torcedor apaixonado. Nécaras. A própria Revista Placar, que na época ainda tinha alguma moral, reconhecia a superioridade Rubro-Negra diante das outras equipes de Pindorama. Não foi à toa que o Leão foi o único time a ter três jogadores (Joel Mendes, Onsi e Mário Sérgio) na seleção daquele campeonato.

Pois bem.

No dia 18 de julho de 1974, com o auxílio luxuoso de Agomar Martins, juiz, ladrão e gaúcho (desculpem tantas redundâncias), o Vasco acabou com a possibilidade do triunfo da beleza no futebol. Tal atrocidade, um dos maiores furtos da história da humanidade, foi presenciada por 46.708 pagantes, na velha e trágica Fonte Nova.

Exatos 25 anos depois, veio o troco no mesmo Brasileirão. O Vitória de Toninho Cerezo eliminou o time da colina num espetacular mata-mata, que começou com um emocionante triunfo Rubro-Negro por 5×4 no Barradas em chamas.

Pois muito bem.

No ano passado, novamente, o Vitória tinha mais time que o Vasco, só que desta vez pela Copa do Brasil. Porém, por conta de umas maluquices de Experimentalgiani e de umas sacanagens de Luciano Almeida (que Deus o tenha), tomamos um sapeca monstro no dia em que completávamos 110 anos.

É óbvio que a vingança e a justiça não tardariam. E foi exatamente por isso que nem me preocupei quando umas aves de mau agouro começaram a fazer terror, dizendo que o Leão iria a campo com num sei quantos mil desfalques, que o Vasco tinha Felipe Coutinho (isso lá é nome de jogador) e etc e coisa e tal. Eu sabia que iria prevalecer a escrita. Afinal, em 9 partidas contra as injúrias cariocas de Eurico Miranda, nunca perdemos nenhuma no Santuário. Ganhamos 8 e empatamos uma.

Mas, futebol não é apenas escrita. É também raça, determinação e sangue nos olhos. E tudo isso não tem nos faltado, nem nos faltou ontem. Mesmo com o time desfalcado, todo estropiado pela maratona de jogos decisivos, brocamos as meninas cariocas sem dó nem piedade. Os 2 x 0 podem parecer pouco, mas é um carimbo no passaporte rumo às finais e ao primeiro título nacional.

MAKTUB.

P.S. 1 Não que eu queira me gabar, pois vocês sabem que não é do feitio deste modesto locutor, porém em verdade lhes digo: Tenho um tanto assim de mérito no primeiro gol de ontem. Afinal, na hora que a bola sobrou livre na área, Renato estava naquela tradicional maresia, quando eu grite. “Ô, sacana, meta (lá ele) a bola pra dentro (de lá ela) que eu arranjo para você uma CABEÇA DE CAMARÃO,  uma manga rosa da boa, vinda de Cabrobó”.

Não sei se ele ouviu, ou se foi apenas coincidência, mas que fato é que o sacana deu um carrinho com categoria e mandou a criança para o barbante. Isto ninguém pode negar.

P.S. 2 A moça do shortinho Gerasamba pegou gosto pela coisa. O negócio dela agora é se pronunciar no P.S. Ouçam.

“França (olhe a intimidade da sacaninha), já que você não explica porque Júnior fez tantos gols, então pelo menos me diga por que ontem ele não conseguiu brocar?”.

Mesmo já quase sem voz, pois estou de virote, explico.

– Minha filha, a culpa é da MODELO sueca. Toda vez que ela aparece no estádio, El Diablo Rojo broca. Porém, na partida seguinte, depois de comemorar muito com a referida, ele não consegue praticar o futebol em alto nível. E eu nem tiro a razão do maluco. Com uma sacaninha daquela em casa eu também num ia querer saber de bola tão cedo.

Carta Aberta de Agradecimento

abril 27, 2010

Depois de um breve interregno (recebam), retorno a esta impoluta tribuna com a alma lavada e encharcada de emoção (dá-lhe Odorico Paraguacivisky. É Paraguacivisky mesmo. Vá fazer rima na casa da porra).

Pois bem.

Tal sentimento não é conseqüência somente desta lua, deste conhaque e de outras mumunhas que me deixam comovido como a zorra. Nécaras. O responsável por este transbordamento sentimental (Putaquepariu a pieguice!) é o brioso Esporte Clube Vitória e os homens que não apenas vestem, mas honram o manto.

Neste exato instante de minha locução, a moça do shortinho Gerasamba adentra (lá ela) o recinto largando logo a seguinte, em itálico.

“Sêo Françuel, que conversa errada da porra é esta? Onde o senhor esteve e o que andou fazendo neste período em que levou um pedaço sumido? Estou lhe desconhecendo. Logo o senhor que sempre teve a voz rouca, ereta e rascante vem agora com esta fala toda macia. Por acaso o senhor se androginou? Rapaz, mude o rumo desta prosa. Afinal, o que é que o povo do NE de Amaralina vai pensar?”.

Diante dos questionamentos da minha sempre estimada, explico.

Minha filha, seguinte é este. Estive longe dos microfones nos últimos tempos porque estava organizando a comemoração dos meus primeiros e já tradicionais 40 anos. (Na Bahia é assim. A chibança nem começa e já é tradição).

Ai, ai, ai, valei-me, meus culhões de Cristo, o homem enlocou de vez. Sêo Françuá, que disgrama esta efeméride (receba também) tem a ver com meu Vitória?”, interrompe-me novamente a danada, agora em negrito. 

 E novamente eu explico, pois sempre fico sensibilizado com a referida, principalmente porque o pedaço de pano cada vez menor tenta tapar a bunda cada vez maior. Isso sem contar que a sacaninha mexe mais do que ferry-boat em dia de maré vazante. Ô, Grória.

Mas derivo.

O fato, minha querida, é que todo santo ano faço aniversário no glorioso 25 de abril. Porém, neste inolvidável 2010, resolvi antecipar a comemoração porque no domingo iria ocorrer o ba X VI, a mãe de todas as batalhas. E, por falar em mãe, fiquei receoso em antecipar a festa porque a minha sempre dizia que comemorar antes da data exata dá azar.

Mas eu tinha (e tenho) tanta confiança no time comandado por Ricardo Silva que acabei desobedecendo até mesmo ao conselho de minha finada genitora.

E minha convicção na equipe se fortaleceu ainda mais quando vi os guerreiros do Leão entrando em campo. A garra expressa no rosto de cada um demonstrava que, além de honrar as cores do clube, eles estavam ali com a missão de defender meu aniversário. Até Bida, sempre tão desligado das simbologias, fez o seguinte gesto antes do jogo começar: beijou o escudo com uma sinceridade que nunca havia demonstrado nas outras duzentas e poucas vezes em que vi envergar o manto sagrado. Aquele ato, que não era à toa, pois Bida honrou a camisa nos 90 minutos, me deixou comovido como o diabo.

Aliás, por falar em diabo, o da cabeça oxigenada, mais uma vez botou pra vê tauba lascá ni banda e me deu o melhor presente de aniversário. Um golaço de quem conhece as manhas da zona do agrião.

Até mesmo Egídio, PHD em displicência, sabia que não admissivel vacilar naquela data especial. Do mesmo modo Viáfara, Wallace, Reniê, Fernando, Neto Coruja, Uelliton e Vânderson (Eu sei, disgrama, que ele não jogou, mas o espírito guerreiro dele estava, sim, em campo). Já Ramon e Elkesson, que não estavam nos seus melhores dias, também correram como desesperados para não deixar que nada nem ninguém (principalmente as injúrias de Itinga) manchassem meu aniversário.

E foi pelos atos de bravura de todos eles que o congelado coração deste envelhecido e cético locutor se aqueceu numa das tardes/noites mais felizes de todos os tempos. Eis aí, minha filha, o real motivo que fez este masculinástico locutor afinar a voz lá no início. É que cheguei a ficar com os olhos rasos d`água pela consideração que os jogadores tiveram comigo.

Por isso, rebain de sacana, um aviso final. No próximo domingo, estarei fazendo aniversário novamente. Exatamente no dia 2 de maio completarei 40 anos e uma semana. Assim, já sabendo que vocês vão demonstrar a mesma bravura e honrar mais uma vez meu aniversário, antecipadamente agradeço em letras garrafais.

OBRIGADO, LEÕES GUERREIROS

P.S 1 Um mistério ronda a Bahia e uma banda de Sergipe. Por que Júnior fez aquela comemoração? Ninguém sabe, né? Pois eu explico agora. Na verdade, EL DIABLO ROJO tava tentando mostrar para Marcos Pimentel como é que se trabalha com a pá, na esperança de que o referido lateral decida arranjar outra profissão, a de coveiro, por exemplo. Porque, amigos ouvintes, futebol, definitivamente, não é o ramo do rapaz.

P.S 2 Sêo Françuel, e por que Júnior está fazendo tanto gols?, pergunta-me a pagodeira, que agora entra até no P.S. E eu não respondo – pelo menos não antes de domingo. Afinal, depois que ameacei relevar o segredo, o sacaninha começou a balanças as redes sem dó nem piedade. É óbvio que não sou supersticioso, mas também não sou maluco de quebrar esta corrente tão cedo.

P.S.3 É óbvio que nenhum presente que vocês pensem em me dar chegará aos pés daquele que recebi no domingo. Porém, minha maltratada conta agradece qualquer faz-me-rir. Aceito também minha parte em substâncias não recomendadas pela Carta Magna.

EU VOLTAREI

abril 26, 2010

Atendendo ao queremismo, tal e qual um Getúlio Vargas do Sertão, eu voltarei. E voltarei com mais gosto de querosene ainda. 

Tenham só um pouco mais de paciência.  A gloriosa e tradicional ressaca está se esvaindo.

De nada.

Ricardo Silva largou o doce

abril 16, 2010

Primeiro de tudo, uma confissão. Estou virado nos seiscentos com os jogadores do Vitória. Afinal, por conta da indolência daquele rebain de sacana, acabei me lenhando no bolão aqui no Nordeste de Amaralina. Marquei 6 x 0 para o Rubro-Negro contra os Comedores de Pequi, mas o time me faz aquele papelão, metendo só 4 nas injúrias do Centro-Oeste.

Ô, grória.

 Bom. Dito isso, vamos à resenha. Seguinte.

Há coisa de cinco séculos, o menino Etienne de La Boétie publicava “Le Discours de la Servitude Volontaire”, com direito a biquinho e as porra. Nesta obra clássica, o indigitado largava as seguintes indagações, referindo-se à relação entre servos e tiranos: “Como tem algum poder sobre vós, senão por vós? Como ousaria atacar-vos, se não estivesse em conluio convosco?”.

Ao ouvir tais questionamentos, a Moça do Shortinho Gerasamba, com uma cara de ressaca da zorra e uma roupa mais curta do que nunca, adentra o recinto já interrompendo minha aula magna: “Ah, Sêo Françuel, ninguém aguenta mais estas suas prosopopéias metidas a eruditas. Por isso, agora quem pergunta sou eu: Que disgrama esta dança de rato deste francês tem a ver com o Vitória, que é o que interessa?”.

Paciente, tranquilo e infalível como o ataque Rubro-Negro, eu explico. Seguinte é este, minha filha. Nada é mais atual para o caso do Vitória do que os escritos de La Boétie.

Como assim? Ouça.

No início do clássico livro, ele afirma que é melhor ter um senhor a ter vários. E, ontem, na entrevista coletiva, Ricardo Silva mostrou que aprendeu a lição, dando seu grito de independência em relação aos escrotos radialistas baianos (desculpe-me a tripla redundância), que tentavam esculhambá-lo. “Não tenho nada para explicar sobre a atuação do time. Vamos ouvir as explicações dos comentaristas”, largou o doce, abandonando a maldita humildade, que não dá camisa a ninguém.

Além disso, nosso técnico decidiu ainda a qual senhor quer servir. “Quero agradecer, antes de tudo, ao torcedor”.

É isso aí, Ricardo. Esqueça estas injúrias dos microfones da vida, que querem apenas desestabilizar o ambiente, e junte-se à massa, que foi quem botou você lá na casamata Rubro-Negra.

Aliás, antes mesmo do jogo começar, Ricardo Silva já dava demonstração de que decidiu abandonar outro tirano que lhe escravizava: o MEDO. Assim, no lugar de Uelliton, que estava suspenso, ele colocou em campo a categoria de Fernando. E este mostrou que ainda sabe tratar a criança com carinho.

Não bastasse isso, quando o maestro da canhota cansou, nosso técnico mostrou mais uma vez que decidiu ouvir a voz da arquibancada. Assim, em vez de colocar mais um homem no meio, como vinha fazendo, escalou um atacante. Com isso, o time partiu para cima do Goiás com gosto de querosene e praticamente selou a classificação à próxima fase da competição e assegurou o devido lugar entre os 8 melhores do Brasil.

Por tudo isso, agora quem faz uma pergunta à torcida Rubro-Negra é este ressaqueado locutor. Alguém aí tem contato com Salomão Resedá? Se tiver, me passe. Afinal, precisamos urgentemente de um alvará preventivo para a final da Copa do Brasil, pois os Velhinhos da Toca do Leão vão brocar sem dó nem piedade os meninos da Vila Belmiro. E não quero que o tal juiz venha apelar ao Estatuto da Criança e do Adolescente. Os santistas são dimenor, mas vão cair na madeira, logo logo.

P.S. 1 Amanhã, sem falta, explico porque Júnior, o cabeça de água oxigenada, continua fazendo gols.

Humildade demais é atraso

abril 13, 2010

Aqui, no genuflexório, onde ajoelhado rezo para o bem do Brasil e do Esporte Clube Vitória (o que dá no mesmo), mais uma vez agradeço as palmas dos generosos ouvintes, porém informo: o título que embeleza esta gloriosa coluna não é de minha lavra. O autor da filosófica prosopopéia é o meu amigo Thalles Gomes, que, apesar de alagoano, é gente boa e conhece o ludopédio em 12 idiomas, conforme vocês podem conferir AQUI e ACOLÁ.

Mas, derivo.

O fato é que me lembrei da referida frase do título por conta das peripécias de nosso brioso técnico Ricardo Silva. É só o Leão se engasgar com tradicionais e poderosas equipes do cenário nacional, a exemplo do Atlético de Alagoinhas ou Camaçari, que ele logo aparece com a ladainha da humildade. “Enfrentamos um time qualificado e bem treinado”, repete o treinador, como se fosse um mantra.

Hômi, quá; Sinhô, me deixe.

Com todo respeito a estas duas agremiações, educadamente sou obrigado a dizer, com direito a três exclamações no final da frase: Qualificado e bem treinado uma ova!!!

Tanto a equipe do Pólo Petroquímico quanto a da terra de Jean Wyllys estão para o futebol do mesmo jeito que Cascão está para o nado sincronizado. Aliás, juntando todas as agremiações que disputam o Varelão/2010 não dá pra formar nem meio time. Sem medo de errar, repito: este é o campeonato de pior nível técnico/tático dos últimos 26 séculos.

Pois muito bem.

Achando que modéstia pouca é bobagem, o comandante Rubro-Negro, além de declarar SATISFEITO com um mísero EMPATE contra o Camaça, ainda largou a seguinte: “Considerando que estávamos perdendo e que o nosso principal adversário também empatou, o resultado não foi ruim”.

Ricardo Silva, meu amigo, pare de conceder entrevistas a radialistas escrotos e me escute. Seguinte é este. “Nosso principal adversário” não estava em Feira de Santana nem em Camaçari. O maior oponente atual do Rubro-Negro, que paira sobre o Barradão tal e qual um inimigo oculto, tem apenas quatro letras: MEDO. Isso mesmo: MEDO. Afinal, que outra explicação existe para que nosso meio de campo tenha uma densidade demográfica maior do que a Baixada Fluminense e que o Vitória continue entrando em campo contra equipes desqualificadas com mais volantes do que o almoxarifado da Volkswagen? (royalties para Renato K.)

VÁ MATAR O DEMÔNHO.

Repetindo.

VÁ MATAR O DEMÔNHO.

É vero que não se deve menosprezar os adversários, nem mesmo estas injúrias que participam do Valerão/2010, até porque a arrogância é a véspera da fracasso. Porém, é fundamental que o Vitória tenha a dimensão do seu tamanho. Não é admissível que fiquemos satisfeitos com desempenhos medíocres contra times idem. O comandante tem o dever de elevar a moral da tropa. Ele não pode ficar conformado, repetindo o discurso dos pobres de espírito, pois humildade demais é atraso.

Chega!

E outra. Amanhã à noite, no Santuário, tem que partir pra cima do Goiás com gosto de querosene. É hora de descer a madeira sem dó nem piedade.

P.S Fique tranquila, minha comandre, que a explicação sobre os gols do atacante Júnior vai sair. Tenha sua calma.

O caso do Dr. Jekyll e a inconstância do Vitória

abril 8, 2010

Há coisa de uma semana, mais exatamente no dia 31 de março deste ano da graça de 2010, decidi que era necessário refugiar-me no obsequioso silêncio para tentar desvendar o seguinte mistério que assombra a Bahia e uma banda de Sergipe: Por que diabos o Esporte Clube Vitória está tão instável no início desta temporada?

Neste interregno (recebam na pleura, fariseus), consultei runas, búzios, tarôs, almanaques, bulas, evangelhos, ciganos, pais e mães de santo – e nada. Nem mesmo o infalível Lunário Perpétuo (que sempre me socorre nos momentos de dúvida e angústia) conseguia esclarecer os porquês de um mesmo time massacrar o Náutico por 5 x 0 e, ato contínuo, engasgar-se com o Carcará.

Alguns levantaram a hipótese de que tal volubilidade (carai, hoje eu tô virado no cão) ocorria porque a equipe estava focada apenas na Copa do Brasil e que no Valerão/2010 o time entrava (lá ele) relaxado.

Tal avaliação, porém, não resistia aos fatos. Exemplos? Recebam.

Por que então o Rubro-Negro tomou uma bordoada do poderoso Curíntia alagoano na competição nacional, enquanto diante do mesmo Carcará, valendo pelo torneio local, o Leão já havia praticado algo parecido com futebol e enfiado 4 x 0?

Na falta de explicação melhor, começou a vicejar (puta que pariu!) uma outra tese: A de que o Vitória jogava mal fora de casa, mas no Glorioso Parque Sócio Ambiental a equipe vencia e convencia. E, como prova, os adeptos de tal teoria sacavam do coldre os últimos resultados, que convenceram até este cético locutor. Afinal, desde que o Santuário foi reaberto, o Leão, além de não ter perdido uma partida sequer, ainda não havia levado nem um gol.

Assim, mesmo com o tempo fechado, agarrei-me a este bote e despenquei rumo a Canabrava para ver o confronto entre o Vitória x 2ª força do futebol do estado, o Bahia de Feira. Ao término da primeira etapa, diante da exuberante apresentação Rubra-Negra, não havia como contestar tal teoria. Realmente, o Vitória só estava afim de praticar o ludopédio em alto nível no Barradão.

Porém, quando já me preparava para propagar esta boa-nova para a população do Norte e Nordeste de Amaralina, veio o segundo tempo, que jogou minhas certezas ribanceira abaixo. O futebol arisco, rápido, objetivo, bonito e ao mesmo tempo eficiente foi trocado por uma postura apática, desinteressada e revoltante. Como é possível numa mesma partida um time encantar e enojar?

PUTAQUEPARIU A BIPOLARIDADE!!!

Depois de me raciocinar todo, cheguei à conclusão de que os jogadores do Vitória estão sofrendo da síndrome do Dr. Jekyll, aquele clássico personagem de Robert Louis Stevenson, que numa hora era um médico e noutra um monstro.

Só pode ser isso.

Assim como o referido doutor, os jogadores do Rubro-Negro parecem que estão tomando alguma poção que os transformam em outros seres em questão de minutos. E, do nada, começam a fazer exatamente o oposto do que esperamos deles.

Aliás, tem um lá no meio de campo que já tem cara de que vive completamente leso e entorpecido. E não é Ramon.

P.S. 1 Alguns torcedores ficaram revoltados com a expulsão de Júnior, mas eu compreendi perfeitamente a atitude do Cabeça de água oxigenada. Afinal, com uma sueca daquela esperando em casa, que porra eu ia ficar fazendo naquele baba do 2º tempo? Quem é doido?

P.S 2 Ah, sim. Antes do fim do mundo, explicarei porque Júnior continua fazendo gols.

Um homem não deve matar um deus

abril 1, 2010

Por André Dantas

Normalmente as pessoas não sabem ao certo o dia em que começaram a torcer por seu time de futebol. Não é o meu caso. Lembro-me ainda, era o dia 27/11/1985. Dia de Ricky.

Eu tinha 10 anos e morava em Itabuna. Nessa tradicional cidade do interior da Bahia, à época, numa conta rasteira, 60% dos torcedores eram flamenguistas, 35% se dividiam entre outras equipes (principalmente o Vasco) e 5% Bahia. Torcedor do Vitória eu só conhecia meu pai que, por sinal, nunca foi fanático, até porque o Vitória daquela época não era qualificado para despertar fanatismo em ninguém. Nos últimos 12 campeonatos até então tinha vencido apenas um e ainda era um time quase amador treinando em campo de terra.

Eu ainda criança estava alheio a esta realidade e pouco me importava com ela. Lá em casa só pegava Rádio Globo direto do Rio (“José Carlos Araújo – Sou eu!”), eu tinha uma camisa do Flamengo e meu irmão outra do Vasco e caminhávamos inexoravelmente para a vala comum.

Só que o dia 27/11/1985 chegou e com ele o convite de meu pai para irmos ao “Itabunão” (Estádio Luís Viana Filho) assistir a Itabuna e Vitória pelo campeonato baiano. Apesar de ainda não ter paixão clubística, adorava futebol (tinha mais de 30 times de futebol de botão…) e nunca tinha ido a um estádio.

Foi maravilhoso. A atmosfera de um estádio é algo único e para aquela criança o Itabunão era imenso. O time do Vitória não era grande coisa, mas era o melhor dos últimos anos. Tinha Bigu como referência no meio, contava com o veterano Jésum, que ainda jogava bem, e apareceu por lá com sua maior estrela – o nigeriano Ricky.

Meu pai estava empolgado com o estrangeiro que chegara no ano anterior, estreando em um ba xVI marcando um gol. Sua presença proporcionava ao Vitória a possibilidade de encarar de forma menos desigual seu rival mais poderoso.

O Vitória vinha bem no campeonato e foi nesse clima que decorreu o jogo, mas nada disso seria suficiente para que eu tirasse os pensamentos do time de Zico. Era muita desigualdade.

Todavia, Ricky jogou demais nesse dia. Ele era muito forte, muito rápido e um matador nato. Talvez por isso hoje eu seja admirador fervoroso de jogadores como Drogba do Chelsea. Assim era Ricky.

Sabe-se lá a quantas ia o jogo, quando ocorreu um cruzamento na área e Ricky parado próximo à marca do pênalti subiu e testou a criança pro fundo. Meu pai vibrou como uma criança. Eu nunca tinha visto meu pai vibrar e eu também vibrei. Mas vibrei, não pelo Vitória, mas por Ricky.

O jogo terminaria 1×1, mas isso foi o que menos importou. A partir desse dia comecei a acompanhar Ricky e o Vitória. Logo no jogo seguinte o Vitória voltaria a enfrentar o Itabuna, desta vez em Salvador, e Ricky deixaria a sua marca na vitória por 2×1. Para quem achava Nunes (não o ataul do Santo André, e sim o antigo do Flamengo…) um grande centroavante, Ricky começou a ganhar status de ídolo.

No final o Vitória sagrou-se campeão, Ricky foi o artilheiro e eu já estava conquistado. O Vitória passou a ser o único time no meu coração e Ricky meu maior ídolo, mais que Zico e mais que qualquer outro que viria depois.

Em sua rápida história no Vitória Ricky marcou 63 gols e são esses gols que me emocionam até hoje. Só Índio naquele bavi épico do 6×5 conseguiu me levar tão perto do êxtase.

Em 1986 o nigeriano foi embora e com ele o sonho. O Vitória voltou a sua mediocridade costumeira. Apenas 03 anos depois, em 1989, começou a mudar de vez a sua sina. Mas essa é outra história.

Ricky voltou ao Vitória em 1994. Voltou o ídolo, pois aquele jogador não existia mais… Já no ocaso da sua brilhante carreira retornou ao rubro-negro já bem acima do seu peso, sem a velocidade e a força que o caracterizavam. Era uma caricatura e quando vi eu chorei. Foram poucos jogos que não deram para apagar da minha alma a lembrança do maior centroavante que já envergou o manto rubro-negro, mas, de toda forma, acho que ele não deveria ter voltado. Seu nome estava e está num panteão, acima dos meros jogadores de futebol que passaram e ainda passam pelo Vitória e sua volta, ainda que por apenas 09 jogos, o fez humano que nasce, cresce e, infelizmente, encerra a carreira.

De vez em quando no Barradão passo por Ricky nas cadeiras. Já pensei várias vezes em falar com ele, tietar, dizer que sou seu fã, mas nunca o fiz. Minha esposa sempre pergunta por quê não falo, por quê não o cumprimento ao menos. Não falo porque, para mim, Ricky é um deus do futebol e os mortais não falam com os deuses, sem sua permissão ou iniciativa.

Esta é a minha história com o Vitória e com o meu maior ídolo e tenho certeza que para outras pessoas existem outros ídolos (André Catimba, Bebeto, Petkovic, Dida, Alex Alves) e se eles não são a razão de ser do torcedor, pelo menos são o ponto de partida de muitos.

Ídolos vem e vão e hoje no Vitória ainda se encontra um dos monstros sagrados de sua história. Um homem (ou um deus) que fez despertar em uma geração o orgulho de ser Vitória. Muito mais do que Ricky esse homem-deus fez do bavi (antes vergonha e deboche) alegria, orgulho e vitória, muitas vitórias rubro-negras. Esse homem tem mais gols, mais títulos, mais vitórias sobre o Bahia, mais gols sobre o Bahia, mais tudo que Ricky, ou seja, para muitos deve ser o maior ídolo que tem e já teve no clube e isso deve ser preservado e valorizado.

Mas assim como Ricky, esse homem-deus, é antes de tudo homem e nasce, cresce e, infelizmente, encerra a carreira. Já está mais do que na hora do homem deixar o deus se instalar definitivamente no Olimpo. Infelizmente, por não saber a hora de parar, corre-se o risco de se ver perpetrado o maior dos sacrilégios do futebol – o homem matar o deus.

P.S.1 Quando passar a ressaca, isto é, lá pelo mês de setembro, escreverei a resenha do jogo contra o Náutico.