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Brocança Internacional

agosto 26, 2009

Com as minhas 12 pontes de safenas completamente esgarçadas por conta daquela chibança de ontem à noite em Curitiba, fiquei impossibilitado de subir a esta impoluta tribuna para desfilar minhas vastas emoções e pensamentos imperfeitos. Por isso, decidi publicar uma missiva que me foi enviada pelo menino L.Ano, que conhece e pratica o pebolismo em 18 idiomas e 14 continentes. Ouçam.

BROCANÇA INTERNACIONAL

“Françuel,

me apressei em lhe escrever, antes que você se cotamine com as más influências pós-jogo.

Sossegue. Com este time é brocança internacional.

O Vitória está entre os 16 melhores clubes da América do Sul.

Querem nos convencer que é pouco? É, de fato, pois ainda não alcançamos as fases seguintes.

Mas isto é questão de calendário: consulte a tabela e crave nossa presença na etapa correspondente da competição.

El León de la Barra provou, nesta terça-feira, ser um time verdadeiramente copeiro, talhado para os embates neste sistema.

El Rojinegro de América confirmou a classificação na véspera, na inexpugnável Toca, quando os incautos e ignaros espalharam o temor pelo ensaio de cobranças de pênaltis.

Pixotes.

Houve até programa de televisão baiano que mostrou alguns chutes certos e errados, divulgou na internet, de bandeja para o Coritiba.

Traíras? Não, de maneira alguma. Esta foi nossa salvação.

Vagner Mancini, treinador campeão no mata-mata da Copa do Brasil de 2005 pelo Paulista de Jundiaí, sabe muito. Até mais do que deveria, a exemplo de Carpegiani.

E o astuto comandante incitou os rubro-negros a baterem mal os pênaltis. “Cobrem como vocês não cobrariam, pra saber o que não fazer na hora certa”, compartilhou sua sabedoria, longe da imprensa e outras pragas da modernidade. A notícia e as imagens dos arremates bisonhos causaram pânico aí no Nordeste de Amaralina e êxtase no Couto Pereira.

Pois bem. Ganhamos nossa vaga às oitavas-de-final exatamente assim.

O Coritiba se empolgou todo: “se o Vitória treinou pênalti, teme perder por 2 a 0; e nas cobranças, vai mal; tá no nosso papo; eles estão sem San Julián de Cali, El Atajador de Penales, vem Gleguer, que frangou em Recife”.

Nem precisei assistir a este jogo de cumprimento de tabela. Sei que o Coxa foi de cum força, desesperado após o intervalo e conseguiu dois insuficientes golzinhos de desarranjo.

E o Vitória, sempre se poupando para o Campeonato Brasileiro, lá, na dele.

Bola na marca da cal, torcida ouriçada, time da casa se inflamando. E os rubro-negros prontos pro repeteco do Mineirão sobre o Galo pela Copa do Brasil. Agora, sem Viáfara, para equilibrar mais.

E pronto, cinco GOLAÇOS de pênaltis – que ainda não vi, mas já soube que Apodi inventou um estilo peculiar de cobrança. Perfeitos. Categoria pura, frieza, eficiência, “muita qualidade” no dialeto boleiro.

Pra não se cansar, foi só nas Coxas mesmo.

Agora, é brocar o River Plate, seja argentino, uruguaio, feiraguaio, ilheense, piauiense, da zorra que for.

Em seguida, deve aparecer um clube que já venceu a competição: Cienciano ou San Lorenzo. Melhor assim, pois o famoso Boca já está correndo, o Blooming promoveu atentado no gramado… Em 1997, pela Copa Conmebol, ganhávamos de 4 a 1 no campo do Sportivo Luqueño, a torcida paraguaia ficou louca e destruiu o estádio, vizinho à sede da Confederação Sul-Americana: “Uma pocilga dessa não é digna de receber um timaço que joga um futebol deste nível, tomem vergonha”, gritavam aos dirigentes. O Vitória foi levado em caravana ao aeroporto, aplaudido pelo trajeto.

Pense nisso antes da próxima coluna.

Abraço”.

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O Futuro é Sopa de Tamanco

agosto 24, 2009

Desde sábado à noite, milhares de ouvintes (na verdade, três) ligam para esta intimorata emissora cobrando a resenha sobre a peleja na Ilha do Retiro. Eles afirmam que querem e que precisam ouvir minha análise abalizada sobre aquele triste episódio da história do ludopédio de Pindorama. 

Pois muito bem.

Depois que me raciocinei todo, cheguei à conclusão de que, neste grave momento da nação, devo parafrasear o filósofo Bell Marques e (re) fazer a seguinte e inevitável indagação: “dizer o quê, cidadão?”

Que o Vitória tem uma vocação irremediável para Irmã Dulce? Que nosso time não pode ver ninguém sofrendo que quer logo ajudar? Que o Rubro-Negro é o Robin Hood do Brasileirão, o amigo dos desvalidos?

Ora, ora, ora e ora.

Tudo isso, amiga ouvinte, eu já falei – e não vou ficar aqui me auto-plagiando. Poderia, talvez, apelar à infalível Scarlett Johansson, que está ainda mais gostosa (mentira! É impossível) no papel de viúva negra. O problema é que já recorri a esta, digamos assim, artimanha retórica. E, ademais, figurinha repetida não completa álbum.

Restava-me, então, o silêncio.

Porém, com couro curtido no sol inclemente das lides sertânicas do semi-árido, não sou de fugir à luta. Assim, para que a querida ouvinte não fique chorosa, com saudade da voz rascante deste rouco e embriagado locutor, subirei novamente a esta tribuna para falar sobre o Rubro-Negro. Mas retorno seguindo o sábio conselho do poeta e antropólogo social Peninha: “O que passou, passou, não importa. Ficou do outro lado da porta”. 

Então, avante. Vamos ao futuro, que é o que interessa. E, minha comadre, em verdade vos digo: os próximos dias serão tão macios quanto uma sopa de tamanco com caco de vidro, ácido muriático e sal.  

Sim, o cardápio é este mesmo. Não estou aqui pra iludir ninguém. Se o Leão ainda quiser alguma coisa neste Sarneyzão/2009 tem que entrar em campo nas rodadas seguintes, especialmente as próximas quatro, com a gana dos deserdados, a confiança dos vitoriosos e muita vergonha na cara. Só com esta mistura será possível enfrentar Cruzeiro (que vem em ascensão), Grêmio (ainda imbatível em seu reduto), Palmeiras (líder da competição) e Internacional (melhor elenco do campeonato). 

Eis a verdade que salva e liberta. O resto são prosopopéias flácidas para bovinos acalentar.

UMBORA TRI-TÓ-RIA, CARAJO!

HOMBRIDADE

agosto 20, 2009

Ao contrário do que pensam os idiotas da objetividade, futebol não se resolve apenas nas quatro linhas. Na verdade, há muito mais obstáculos entre o tiro de meta e a zona do agrião do que imaginam aqueles que raciocinam somente em linha reta. Às vezes, um jogo é decidido antes mesmo de a bola rolar. E creiam: uma atitude digna pode ser tão importante para o resultado final quanto um arremate certeiro, pois mexe com valores subjetivos que acabam por influenciar o desempenho da equipe em campo.

E a agoniante partida de ontem à noite contra o Atlético do Paraná, por exemplo, começou a ser ganha muito antes do fidumasanta de Wilson Lambança soprar o apito inicial.

Mostrando que, além de craque, é também um líder neste elenco, o menino Leandro Domingues deu uma entrevista conclamando o grupo à união. Aliás, mais do que conclamar, deu o exemplo e o largou a seguinte: “Vou ao estádio para dar meu apoio e torcer por eles“.

Putaquepariu futebol, dignidade e regatas!

Esta declaração, que a princípio pode parecer banal, foi tão importante quanto aquelas arrancadas endiabradas e passes geniais que ele tem oferecido aos homens e mulheres de boa vontade que têm tido o privilégio de vê-lo desfilar sua categoria neste brasileirão. Uma beleza. Craque de bola e craque de verbo.

E antes que alguns argumentem que elogiar Domingues, neste momento, é desnecessário, em verdade vos digo: esta atitude dele contagiou o elenco e, creio, serviu também de inspiração para que as relações entre Mancini x Ramon*  atingisse um patamar de respeitável lealdade. Ambos cederam e saíram do episódio maiores do que entraram.

Aos fatos.

Logo que ficou impossibilitado de escalar Leandro Domingues, Vágner Mancini deu entrevista apaziguadora (parece que ele voltou muito mais amadurecido, apesar do pouco tempo fora), dizendo que Ramon era o substituto natural, pois experiente, sábio, entre outros adjetivos.

A partir daí, a relação entre os dois, que se esgarçou no ano passado, começou a ficar menos tensa. Nada garantia, porém, que as coisas pudessem dar certo. No entanto, há uma frase pichada no muro do Porto da Barra, atribuída a Caetano Veloso, que serve muito bem para ocasiões como esta. Ouçam. “É incrível o poder que as coisas parecem ter quando elas precisam acontecer”.

Eis uma verdade universal. E as coisas aconteceram. Ramon entrou em campo com uma garra que não demonstrava desde o século IV Antes de Cristo. Parecia que estava disposto a provar para o técnico e talvez para si mesmo que ainda é útil ao elenco. No primeiro tempo fez uma partida quase que impecável. Marcou, reclamou, chamou o jogo para si, driblou, fez lances de efeito e, principalmente, um golaço.

Apesar de estar feliz com seu desempenho que contribuía para mandar a urucubaca para a casa da zorra, este renitente locutor ainda olhava para o ex-reizinho da toca com desconfiança. Afinal, como disse lá no início, futebol não se resolve apenas nas quatro linhas.

Pois muito bem.

O ponteiro do relógio, que ontem andou devagar como a porra, já dava suas últimas voltas quando Mancini novamente fez um gesto digno: substituiu Ramon. O técnico poderia muito bem tê-lo deixado em campo se arrastando no final, porém preferiu sacá-lo para que a torcida aplaudisse o seu ídolo.

Logo após ser ovacionado pela massa, o meio-campista compreendeu a atitude do técnico e num gesto de humildade, ou melhor, de HOMBRIDADE, foi lhe cumprimentar e agradecer a oportunidade.

Mais do que os três pontos, esta, pra mim, foi a maior vitória da noite. Ver um homem consagrado mudar de postura e entender que não pode colocar seu projeto pessoal à frente do projeto de uma nação, no caso a nação Rubro-Negra que lhe devota um carinho especial, mesmo ele tendo cometido alguns deslizes nos últimos tempos.

É isto. Às vezes, um ato de nobreza é tão decisivo para o sucesso de um time quanto uma rápida troca de passes entre dois atacantes matadores.

 

* Por conta das estripulias dos últimos tempos, havia prometido não mais escrever o nome de Ramon. Mudei de opinião por conta de sua digna atitude de ontem à noite, que, pra mim, foi mais importante até do que sua boa atuação.

Hereges, aprendam uma coisa: A bola nasceu para obedecer

agosto 17, 2009

A Bahia e uma banda de Sergipe são testemunhas de que este sertânico locutor jamais entrega a rapadura ou joga a toalha. Por isso, nem bem terminava a tragédia de ontem à tarde e eu já estava formulando um texto para destacar os aspectos positivos da peleja em Goiânia. E, como sói acontecer, tentaria iludir a platéia gastando mais um bocado de minha falsa erudição. Desta vez, as circunstâncias exigiam que recorresse ao personagem Dr. Pangloss, de Voltaire.

Aos desprovidos de conhecimento, explico a escolha. Seguinte é este.

Tal figura, que lecionava “metafísico-teólogo-cosmolonigologia”, era professor de otimismo. Para o referido, não importava se o bicho estava pegando do primeiro ao quinto, nem se a madeira estava gemendo sem dó nem piedade. Ele não queria nem saber. Sempre achava que as coisas iam pelo caminho certo. E largava em francês. “Tout est pour le mieux dans le meilleur des mondes possibles”. (“É tudo para o melhor no melhor dos mundos possíveis”).

Pois muito bem.

Independentemente da cacetada que o Rubro-Negro recebeu no Serra Dourada, eu ia usar o discurso panglossiano. Na verdade, ia utilizar o discurso esperançoso do técnico Mancini – e dizer que o time entrou em campo com outra postura, que evoluiu taticamente, que voltou a criar muitas chances de gols e etc e coisa e tals.

Porém, liguei a porra de uma rádia e um disgramado, com este mesmo espírito otimista, veio me dizer que o time havia jogado bem, “mas a bola não quis entrar”.

Como assim “a bola não quis entrar”? Que conversa da porra é esta?

No meu baba, bola num tem querer, não. Ela tem é que obedecer. E os jogadores, que queiram vestir o manto Rubro-Negro, têm o dever de mandar a menina ir descansar no barbante.  Aqueles que não possuem autoridade sobre a criança, devem ir para o banco (alô, Roger!).  

Que mané bola não quis entrar o que, rapaz? Hômi, quá; sinhô, me deixe!

Mas, bola pra frente. Agora é pensar em como recompor a zaga para a partida desta quarta-feira contra o Atlético do Paraná. E, amigos, em verdade vos confesso: Apesar de todo meu otimismo, estou com um medo da zorra desta partida. É lógico que não é por conta de nosso adversário, já que o time paranaense joga um futebol muito meeiro. Meu receio tem explicações ancestrais e de nomenclatura. O problema é que nosso treinador tem uma estranha paixão por sujeitos que receberam a graça de Marco Aurélio na pia batismal. No ano passado, todos lembram, foi aquele suplício. Vai que neste ano Mancini invoca novamente com este outro negão.

Deus é mais. Vou até virar minha boca pra maré de vazante.

UMBORA TRI-TÓ-RIA, CARAJO!

Discurso para a conquista da América

agosto 15, 2009

Até as 16h30 do dia 12 agosto deste ano da graça de 2009, um espectro de angústia assombrava o Vitória e, consequentemente, o País. Sim, o fantasma da inquietação perturbava o Rubro-Negro e Pindorama, já que o destino de um está umbilicalmente ligado ao do outro. Mas, graças aos céus, a nuvem de desespero dissipou-se. O grave problema da nação foi resolvido com a (re) contratação de Vágner Mancini para dirigir o Leão. Portanto, pode vibrar torcida brasileira…

“Mas, Françuel, até outro dia o senhor não tinha uma série de restrições ao referido?”, indaga-me uma ouvinte com uma memória de fazer inveja a Funes – aquele personagem de Borges que nunca conseguia esquecer porra de nada.

Como tenho muita paciência com moças eruditas, respondo. Seguinte é este, minha comadre. Eu não tinha restrições ao referido. O verbo deve ser colocado no presente. Ainda as tenho. Afinal, nem ele nem eu mudamos nestes últimos seis meses.

“Agora, danou-se. Por que diabos então comemorar a contratação de Pirracini? Como diria Didi Mocó Sonrisal Colesterol, agora eu fiquei cafusa”, reverberou a criatura com um ar de loira.

Como tenho um apreço por meninas galegas que citam Renato Aragão, explico: A questão, minha amiga, é que as outras opções que foram especuladas não faziam bem às minhas maltratadas pontes de safena. Ao contrário. Havia séculos que este cardíaco locutor não passava tanto dissabores. Foram dias e dias de sofrimento. Era alguém citar o nome de um Valdemar Lemos e minha pressão batia 19 x 14. Bastava um outro sugerir Márcio Bittencourt ou Cuca – e este hipocondríaco que vos sopra prosopopéia se entupia de medicamentos. Agora, aborrecimento, aborrecimento mesmo, eu tinha quando alguém mencionava o nome de Renê Simões.

Putaquepariu futebol e regatas!

Já imaginaram ter que encarar uma sangrenta competição sulamericana com um psicólogo da estirpe de Renê Simões e sua conversa empolada?

Deus é pai.

Aliás, antes mesmo de o referido ser contratado, eu já estava padecendo com as chacotas dos amigos – esta raça de gente ruim e impiedosa. Um deles, inclusive, largou o seguinte escárnio: “Tá tudo certo, França. É só botar Paulinho Cerqueira como assistente de Renê, pois só um entende o que o outro fala e vice-versa”.

Como é que as pessoas podem ser sádicas a este ponto? Perguntava aos meus desgastados botões, que nunca respondiam.

Mas, já que falei em sadismo, vamos ao discurso que nos interessa. Neste malvado campeonato continental devemos nos orientar pelas palavras do miserávo Hernan Cortez, espanhol fidumasanta que botô pra vê tauba lasca ni banda na época da colonização mexicana. Pois muito bem. Para conquistar a América, além de jogar muita bola, precisamos também deste tipo de discurso. Ouçam.

“Soldados do Vitória! Antes de tudo há de lutar! As caravelas mandei-as afundar, para não terdes qualquer veleidade de voltar. Há que lutar com as armas que tendes à mão. E se vo-las romperem em violento combate, então há que brigar a socos e pontapés. E se vos quebrarem os braços e as pernas, não olvidei os dentes. E se havendo feito isso, a morte chegar, mesmo assim não tereis dado a última medida de sua devoção, não! É preciso que o mau cheiro de vossos cadáveres empeste o ar e torne impossível a respiração dos inimigos do Rubro-Negro. Avante, por Deus e pela torcida do Leão”.

Poizé, amigos. É com este tipo de motivação que nossos jogadores têm que entrar em campo nesta batalha internacional. É fato que os 2 x 0 diante do Coritiba na quinta-feira à noite não foi ruim, mas poderia ter sido melhor. Afinal, como já ensinou a Santa e Pacífica Irmã Dulce, “Quando eu descubro que o burro é banguela, eu dou milho seco. Ou o disgramado lasca a gengiva ou morre de fome”.

Palavras da Salvação!

Umbora Bitória, Carajo!

Um homem chamado Kamikaze

agosto 10, 2009

De acordo com o novo pai dos burros, o google, no ano da graça de mil duzentos e lascou a boca, uma ventania divina salvou o Japão. Reza a lenda que o referido país estava prestes a ser invadido quando o tal tufão, chamado kamikaze (kami = deus; kaze = vento), entrou em ação e fez as tropas de Kublai Khan, neto de Gêngis Khan, rebolar e dar uma meia-volta. E quando eu digo Gêngis Khan aqui, hereges, estou falando do guerreiro mongol – e não daquele grupo musical que causou mais devastação do que as sangrentas batalhas da idade média.

Mas, derivo. E derivo muito – até porque os kamikazes que quero usar como ilustração neste início de resenha não têm nada a ver com o tufão, a não ser o fato da ascendência japonesa. Porém, o dado concreto é que nunca consegui ver nenhuma nobreza naqueles pilotos que se jogavam em cima dos navios aliados na época da 2ª Guerra.

Que idéia da porra é aquela?

Os suicidas muçulmanos, que se matam por causas malucas, eu até entendo, pois têm a promessa de 70 virgens no céu islâmico (aí, até eu), mas os japas se lenharem em nome da pátria, sem nenhuma virgenzinha de troco, francamente.

Pois muito bem.

O comportamento de Paulo César Carpegiani parece ser inspirado nos nipônicos. Que vocação para o masoquismo dos seiscentos. E a troco de quê? De nada, só de uma metafísica do vazio. E nem vou relembrar todas as barbeiragens do cidadão, como a constante desqualificação do elenco, para não cansar o leitor. Lembro apenas que toda vez que as coisas começavam a entrar nos eixos, ele dava um jeito de realizar uma invenção, uma tática suicida tal e qual os pilotos japoneses. Não foi à toa que em menos de quatro meses o time caiu de quatro três vezes, coisa que não ocorreu nenhuma vez no ano passado. Kamikaze no dos outros é refresco.

E esta vocação para a (auto) sabotagem ficou clara no jogo contra o Fluminense, ontem no Santuário. Ao contrário das três últimas partidas, quando reincorporou o Professor Experimentalgiani, ontem ele voltou a botar cada qual no seu cada um. E o time novamente voltou a corresponder. Meteu 1 x 0 e criou algumas outras chances. Inclusive, na primeira etapa, o tricolor carioca conseguiu dar apenas um chute a gol. É vero que exatamente nesta única oportunidade a criança foi balançar as redes, numa braga monstra da zaga. Mas acontece.

O que não poderia acontecer foi o que ele fez na segunda etapa. Exatamente no melhor momento do time, que havia acabado de empatar o jogo, ele retira Willian, melhor jogador em campo, para colocar um sujeito que nem ouso mais citar o nome aqui neste impoluto recinto. Pois bem. Além de perder força ofensiva, o time também caiu no setor de marcação. E, depois desta estratégia kamikaze, a partida transformou-se num teste para cardíacos. Só não fomos derrotados porque, às vezes, acontecem milagres no futebol. E São Gleguer operou uns três.

Aliás, por falar em milagres, vamos às boas-novas. A Diretoria do Vitória finalmente tomou uma decisão sensata: atendeu o desejo do kamikaze e cortou-lhe a cabeça.

Que a terra lhe seja leve.

Scarlett

agosto 7, 2009

Aprendi com o menestrel alagoano Thalles Gomes que não devemos ter pudor de sacar do coldre nossas falsas erudições para iludir o distinto e inculto público. “Não falha nunca, Sêo Françuel – principalmente se apelarmos para um autor conhecido. É batata. A patuléia se identifica e ainda acha que também é inteligente”, confidenciou-me o sacana com seu antiquado sotaque carioca, pouco antes de ser escorraçado do Rio de Janeiro como charlatão.

Pois muito bem. Sigo seu conselho e, desavergonhadamente, não gasto nem mais um parágrafo para atravessar o Atlântico e solicitar o auxílio do menino Fernando Pessoa, na voz rouca de Alberto Caeiro.

É claro que vocês sacam aquela ladainha de que o rio da aldeia do gajo era muito mais belo e aprazível que o Tejo, certo?   

Pois então. Desde tempos imemoriais, aplico tal tese em relação às mulheres. Prefiro a mulata da esquina, que passa mexendo mais do que Ferry Boat em dia de mar agitado, do que estas musas de plásticos que enfeiam as revistas.    

Aliás, sempre achei este negócio de ficar admirando mulher inatingível uma perda de tempo dos seiscentos. Inclusive, nunca consegui entender o comportamento de um amigo gaúcho  (por favor, não espalhem que eu tenho um amigo gaúcho) que todo sábado publica fotos e mais fotos de garotas que ele nunca vai comer.  Pra quê, meu deus?, pergunto sempre, mas o Onipotente se esconde em alguma nuvem negra e não responde. Se não fosse minha incurável elegância, eu diria que mais do que perda de tempo, isto é um grave sintoma de xibungagem.   

A disgrama é que toda regra tem exceção – e eu também caí no canto da sereia.

Scarlett.

Antes, porém, de falar da menina Johansson percebo que é hora de meter um pouco mais de erudição (obrigado, Thalles).

É óbvio que vocês conhecem o poema Teresa, de Manuel Bandeira, né? Sim, aquele mesmo no qual ele diz que a primeira vez que viu a referida achou que ela possuia “pernas estúpidas”, que na segunda percebeu “que os olhos eram muito mais velhos que o resto do corpo” e que na terceira vez não viu mais nada, pois “os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas”.  

Pois então. Minha relação com Scarlett foi diferente. Não esperei a terceira vez. Peguei afeição pela moça logo de prima, quando a vi abandonada no filme Uma rapsódia americana.  Putaquepariu futebol e regatas! A menina tinha uma quase vulgaridade e imponência das divas de antanho, um num sei o que de indizível – seja lá o que isto signifique.

E, desde então, não vejo a hora de deixar meu filho com fome e gastar todo meu parco contracheque com aquela gazela. Amigos, em verdade vos confesso: Investirei todo meu patrimônio apenas para que ela olhe pra mim com aquele mesmo olhar que devotou a Woody Allen. E nem venham falar em leite das crianças. Não aceito chantagem. Já vi homem muito mais sério do que eu perder trator, fazendas e fortunas com mulheres menos abençoadas, que não teriam condições nem de amarrar as chuteiras de Scarlett.

“Por falar em chuteiras, Sêo Françuel, isto aqui é ou não é um site sobre futebol? Então, que horas o senhor vai tratar do jogo entre Vitória x Barueri?”, pergunta-me um desalmado torcedor do Bahia, sem esconder o riso de escárnio. Ao que, secamente, respondo. Nunca, nécaras, jamais. E invoco a sábia sentença do santo Bento XVI: “Estes torcedores do Bahia são todos viados. Onde já se viu querer interromper um discurso sobre Scarlett para tratar de um jogo chinfrim de futebol? – se é que aquele triste espetáculo que aconteceu ontem em São Paulo pode ser chamado de jogo de futebol”.

Palavras da Salvação.

Freio de arrumação

agosto 3, 2009

Há 30 anos, exatamente no dia 11 de agosto de 1979, o antropólogo Thales de Azevedo garantia nas páginas de A Tarde que a expressão Freio de Arrumação tinha a seguinte origem : “Surgiu há anos na Bahia para designar as paradas bruscas que os choferes de ônibus provocam para forçar os passageiros a se comprimirem na frente do veículo de modo se poder encher mais o carro”.

Pois bem.

É óbvio que não tenho autoridade moral nem intelectual para contestar o referido baluarte da cultura baiana, porém, por formação sertânica, prefiro outra teoria que corre no meu querido Sertão para explicar a tal locução. Seguinte é este. Reza a lenda no glorioso semi-árido de que tal expressão é decorrência da freada brusca que os paus-de-arara faziam para organizar as coisas. Assim, com a parada abrupta, gente ficava no lugar de gente; as sacolas e as gaiolas iam para os compartimentos a elas destinados e os outros animais também procuravam suas turmas. Resumindo: o Freio de Arrumação colocava cada qual no seu cada um.

Pois muito bem.

Neste atual momento do campeonato brasileiro, o Vitória precisa de um Freio de Arrumação ao estilo dos paus-de-arara. É preciso botar cada um em seu cada qual. Não há mais tempo para novos experimentos. Caso contrário, a zorra corre o risco de descarrilhar. É claro que não se deve abdicar da ousadia. Esta, no entanto, não pode nem deve ser confundida com invencionices.

É vero que algumas polianas poderão argumentar que os (desnecessários) experimentos estão voltando porque o time não tem elenco. Tudo bem. Vá lá. Apesar de não concordar com tal tese, faço esta concessão, mas faço também a seguinte pergunta: “Como é possível que Carpegiani, um cara que conhece de futebol, não tenha visto que Jackson estava enterrando meu baba?”

Putaquepariu a mulher do padre!

Das duas, três. Ou ele tá com problema sério de visão – e aí alguém precisa lhe indicar com urgência um oftalmologista; ou ele não escuta a voz das arquibancadas, que, em uníssono, clamava pela saída do referido ainda antes da fatal entregada – e aí ele necessita de um otorrinolaringologista e um aparelho auditivo telex; ou então, o negócio dele é apenas contrariar – e aí, neste caso, a especialidade médica é outra. E o remédio também.

Por falar em loucuras, parece que todos os LSD’s ingeridos na década de 60 começaram a fazer efeito em minha maltratada mente na tarde/noite deste último domingo. Sim, só pode ter sido isso. Afinal, depois de me raciocinar todo, não consigo encontrar outra explicação para o flashback que rolou no jogo contra o São Paulo. Bad trip da porra. Até mesmo a pergunta que eu já havia feito no último dia 21 de maio voltou à pauta de minhas inquietações. Ouçam novamente o que afirmei naquela fatídica ocasião e vejam se não se encaixa (lá nele) perfeitamente ao momento atual. Às aspas. “Ainda não sei de qual mal padece nosso técnico – se ele sofre da nefasta auto-sabotagem (deixa o hífen, revisor sacana) ou da síndrome de gênio”.

Por estas e outras que a população do Norte e Nordeste de Amaralina suspendeu os tradicionais brados de incentivo e percorreu as ruas daquela pacata região ontem à noite gritando as seguintes palavras de ordem:

“Motô, breque logo, dê um Freio de Arrumação em suas idéias, antes que esta porra capote”.

Palavras da Salvação.