TRAÍDOS PELA SOBERBA

julho 28, 2015

Com as devidas vênias ao menino Samuel Johnson, há ainda um outro e último refúgio mais insalubre do que o patriotismo: o fervor regionalista, insana paixão que deixa o sujeito completamente obnubilado (recebam, hereges, um obnubilado nos peitos logo no primeiro parágrafo).

E esta pertubação na consciência, este ofuscamento da visão causado por esta referida devoção, atinge o paroxismo em Pernambuco. Lá, por conta de um sentimento de afirmação exacerbada que flerta com o ridículo, reivindica-se o nascimento da porra toda. Desde o Samba à própria Pátria, chegando até mesmo ao coitado do Oceano Atlântico, que seria a união dos rios Beberibe e Capibaribe.

Não há psicanálise que resolva o problema destes nossos atordoados vizinhos.

E, como baiano também num é raça de gente, este rouco e humilde locutor já desembarcou no Aeroporto do Guararapes, no último sábado, para orientar o Vitória nesta insana segundona, procurando chiada.

E foi assim, tirando a velha e boa chinfra, que respondi ao torcedor do Sport que gritou comigo logo na chegada. “Baiano, meta 2 x 0 no Naútico”. De bate pronto, larguei. “O senhor tá querendo quebrar meu bolão: botei 6 x 0”.

Ao ouvir tal heresia, o sujeito mandou para escanteio até a rivalidade local e saiu em defesa da honra pernambucana. “Aí, não, né? Você nem bem chegou e já quer esculhambar?”.

O pior é que passei a acreditar mesmo em uma goleada. Óbvio que não pelo futebol deste escrete Rubro-Negro, mas porque a porra da mania de grandeza pernambucana é algo contagioso. E quando, com menos de 5 minutos de bola rolando, Escudero deixou Rhayner na zona do agrião para abrir o placar, a crença se transformou em certeza.

E não só minha. Toda a comitiva que partiu de Salvador para desbravar as inóspitas terras de São Lourenço da Mata, onde fica o estádio (estádio, não, uma nave espacial encravada no meio do nada) foi picada pelo desleixo.

Logo depois do 1×0, Fred subiu uns degraus para acender mais uma daquelas velas não recomendadas pela Carta Magna; Humberto, com uma pança de fazer inveja a Genival Lacerda, se entregou à boréstia, escornado na cadeira; o menino Mateus ficou matando a larica com uma coxinha horrível; Manoel Novaes e seu filho Dan ficaram só tirando selfie e a Moça do Shortinho Gerasamba começou a ler a programação dos jornais para saber onde teria chibança.

Assim, sobrou toda a tarefa para este pacato cabeludo, que, embriagado pelos eflúvios pernambucanos, viajou na mania de grandeza, ou pior, nos devaneios. E a cada lance de Mansivisky, eu gritava: “Uh, é seleção; uh, é seleção”. E, como heresia pouca é bobagem, passei a acreditar e espalhar a notícia de que o número 4 havia incorporado um espírito que era uma mistura de Baresi com Beckenbauer.

Resumindo: fomos traídos pela soberba e fudeu maria preá.

 

P.S Agora, é aprender a lição e não repetir os mesmos erros na última e decisiva partida do campeonato, lá no inconsequente final de novembro, que também será em Pernambuco, contra o Santa Cruz. Talvez nesta tarefa possamos contar com o auxílio luxuoso de Leandro Cavalcanti, baiano torcedor do Vitória que reside lá, tem as manhas do lugar e também daqui e ainda é proprietário de uma loja que vende espelho. Ou seja, todo trabalhado no conhecimento destas paranóias narcisistas.

 

NOVAS ASSOMBRAÇÕES

julho 21, 2015

A Bahia, uma banda de Sergipe e a moça do shortinho gerasamba são testemunhas de que, quando ocorre algo que foge do comum, este rouco e precavido locutor sempre espera as regulamentares 48 horas para subir a esta impoluta tribuna e largar o doce. Desta vez, porém, foi necessário aguardar mais de 72 horas para tentar compreender e explicar aqueles fenômenos extraordinários na noite de sexta-cheira no Parque Sócio Ambiental Santuário Ecológico, Manoel Barradas, o Barraquistão.

Algum apressado, não sem razão, pode dizer que foi uma partida sem grandes emoções, um tanto quanto meeira, com o Vitória jogando para o gasto e o CRB se esforçando para parecer menos ruim do que realmente é. O problema dos idiotas da objetividade é este: eles nunca conseguem enxergar o extraordinário. E o que não faltaram na ocasião, amigos de infortúnios, foram situações assombrosas, excepcionais.

Comecemos pela última, que não é inédita, mas num deixa de ser espantosa. Seguinte. Em que rastro de corno de goteira pisou aquele rapaz que atua de quarto zagueiro no Vitória? (nem vou dizer o nome do referido pra num dar azar).

PUTAQUEPARIU O PORCO ESPINHO!!!

Vá ter uma energia pesada assim lá em Itinga. Às vezes (raras, é bem verdade) o desinfeliz nem tem culpa, mas tem sina, tem carma. DEUZULIVRE. Foi só ele entrar em campo e até o fraco CRB inventou de pressionar e fazer gol. Vá matar a mãe do DEMÔNHO. Aquilo ali nem todos os pais e mães de santo de cachoeira e adjacências dão jeito.

Por falar em coisa sem jeito, Amaral. Toda vez que vejo aquela criatura com a camisa 5 que já foi de Biguisvisky, fico com os olhos rasos d´água, de raiva, de ódio ancestral. Pois num é que o indigitado, para amenizar as minhas dores ou me contrariar, o que dá no mesmo, resolveu fazer UMA jogada certa. Uma, não, duas. Driblou o marcador e ainda conseguiu cruzar na cabeça de Elton. Um fenômeno que nem os mais recentes e sofisticados métodos científicos conseguirão explicar.

E já que entramos nesta seara, tem coisas que não precisam de explicação. É o caso de nosso atual camisa 2. Há tempos nos acostumamos com personagens caricatos atuando naquele setor. Gente da estirpe de Apodi, que provocava mais riso do que admiração. Ou, então, insanos do naipe de Nino Paraiba, aquele que ficava disputando corrida com a bola, esquecendo-se de que esta é que deve correr muito, pois não tem pulmão.

Porém, o fato é que, pela primeira vez, nos últimos três séculos, tínhamos um lateral direito (ala é a puta que o pariu) SÓBRIO. O tínhamos que acabei escrever não foi erro de conjugação verbal. Realmente, tínhamos. Na última sexta, Diogo Mateus, eis o nome do santo, talvez pegando os eflúvios dos antepassados que ocuparam aquela posição, enlouqueceu completamente logo após marcar um gol de cabeça, o terceiro do Vitória.

Assim, em vez de beijar falsamente a camisa ou coisa que o valha, ele, completamente possuído, não se continha dentro do manto. Pulava com aquela alegria e loucura juvenis que há muito não se via nos gramados de Pindorama, onde todos os gestos são meticulosa e falsamente calculados. Até quando saltou as placas de propagandas e se ajoelhou, agradecendo e reverenciado a torcida, não transpirava demagogia, mas sim HISTÓRIA. E isto pagou o ingresso.

P.S Por falar em coisas formidáveis, extraordinárias, sensacionais, vi, pela primeira vez no estádio, o começo de uma torcida organizada que, finalmente, é motivo de orgulho: A BRIGADA MARIGHELLA. 

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ASSOMBRAÇÕES

julho 10, 2015

Comedido, relutei em formular uma acusação de modo peremptório. Porém, passadas as regulamentares 48 horas, não há mais como tergiversar. Agora, é oficial: inexiste jornalismo investigativo na Bahia e numa banda de Sergipe. Afinal, caso ainda restasse algum resquício de trabalho sério neste setor da imprensa, os dois mistérios que atormentam a nação já teriam sido desvendados.

A eles.

Primeiro e mais simples. O Bar Lagoa Mar, reduto das piriguetes de antanho da orla de Salvador, reabriu? Só pode. Não tem outra explicação praquela maresia que acometeu o time do Vitória no jogo de terça-feira, logo após a goleada de sábado. A galera deve ter voltado a cumprir aquele velho ritual de descer a pirambeira rumo ao insalubre recinto para comemorar a brocada na sardinha. Nem venham dizer que eles foram pro Armazém em Vilas ou algo do gênero. Pra ficar naquela boréstia, amigos, só frequentando o Lagoa Mar.

Já a segunda e mais complexa dúvida é a seguinte. Quem é que porra o volante Amaral tá comendo na diretoria do Leão? Colocar aquele sujeito, que não consegue entender a vida sem dificuldade, para ser o responsável pela saída de bola do time só pode ser por favores sexuais ou coisa parecida. A propósito, a chibança na noite anterior deve ter ido até umas horas, pois em algumas jogadas o cara cambaleava sozinho como se tivesse trepado em pé. Pode ser que seja só ruindade mesmo, mas é difícil de acreditar.

Ah, sêo Françuel, num quero saber com quem ninguém se deita, não. Quero é a resenha do jogo”, exigiu a agora pudica Moça do Shortinho Gerasamba, com as mãos na cintura e tentando segurar aquele jeito rebolativo que lhe entrega.

Pois bem. Pela primeira vez vou ter que deixar a referida sem resposta. Num tem como fazer qualquer resenha sobre a peleja diante do Boa Esporte em Minas Gerais. A atuação do Vitória foi tão “horrorosa” (copiraite para o goleiro Fernando Miguel) que nem mesmo este erudito locutor encontra palavra para descrevê-la. Aliás, o time que jogou na terça foi de uma ruindade tão abbsurda que num merece nem xingamentos.

O que posso fazer é creditar tudo a alguma assombração, já que a cidade de Varginha é dada (lá ela) a estas peripécias sobrenaturais. Porém, não quero nem devo entrar nesta seara até porque neste sábado o Vitória enfrentará o Paraná, clube responsável por alguns de nossos pesadelos. Vade retro, DEMÔNHO. Vá matar a sua mãe; a mim, não.

O ETERNO RETORNO DA BROCANÇA

julho 7, 2015

Por conta das muitas atribulações e atribuições do cotidiano (mentira, continuo um desocupado), havia decidido silenciar sobre mais uma brocante goleada do Vitória diante do ex-rival de itinga. Afinal, o Norte e Nordeste de Amaralina são testemunhas de que, cristão ortodoxo, tenho por hábito não tripudiar dos fracos. E, se num bato em cachorro morto, não gastaria meu parco latim para espezinhar uma pobre e indefesa sardinha. Além disso, injuriado com a falta de democracia no Leão, tinha como meta neste ano da graça de 2015 usar minha voz rouca e rascante apenas em prol desta nobre causa.

Porém, mudei de opinião no exato momento em que li a seguinte mensagem, que vai em negrito. “Senhor Françuel, decorridas as 48 horas regulamentares, faz-se mister o pronunciamento até do mais rouco e afônico dos locutores acerca do escore assaz proveitoso do fim de semana próximo passado. Não há canjebrina cuja ressaca justifique tal omissão.

Mui respeitosamente…”

 

Nem bem terminei a leitura da missiva e, ato contínuo, me belisquei, pensando que Ruy Barbosa ou, vá lá, Josaphat Marinho haviam ressuscitado, tal a quantidade de empolação em tão poucas linhas. Porém, qual não foi minha surpresa ao ver que o bilhete era assinado por ela, a musa, a pentelha, a mitológica, a Moça do Shortinho Gerasamba. Será que a pobre coitada pegou zika e começou a delirar ou, provavelmente, diante da recessão, deve estar se preparando para algum concurso nestes cursinhos que têm como especialidade ensinar enrolação? Pouco importa. O fato é que, com tamanho cabedal vocabular, não duvidem se no próximo verão a referida lançar uma nova tendência na briosa música baiana: O PAGODE REBUSCADO.

Ô, desglória. Derivei muito, né, mas compreendam. Toda vez que ela aparece, é sempre assim, não sou eu quem me navega. E cá estou, contra minha promessa e as marés, pra dizer umas prosopopeias sobre a peleja.

Antes de tudo, preciso confessar que, quando a bola ainda não havia rolado no gramado do Santuário, eu estava receoso. Não, óbvio, por conta do ordinário adversário, mas sim porque o apito ia ser assoprado por Arilson da Anunciação, o maior empenador de baba da história do ludopédio de Pindorama. Por isso, quando a galera da esquina da balbúrdia chegou com o papel, coloquei apenas 6 x 0 no bolão.

Com menos de 5 minutos de labuta, tudo já se encaminhava. O menino Escudero, recuperado físico e psicologicamente da contusão, voltou a ser o maestro, o saxofonista, o carregador de piano, enfim, a alma do time, se é que time tem alma. Com um brilhante e preciso passe (assistência é a puta que lhe pariu), deixou Guilherme Mattis, nosso melhor zagueiro ruim, de cara, digo, de testa para a zona do agrião. Barbante.

Porém, o menino Marcelo, que fazia os olhos deste cansado locutor ficarem rasos d’água, pois meu camisa 5 tava lembrando o brioso Biguivisky de 1985, sofre uma contusão inconsequentemente infame. Parece que a sina do rapaz é ser a nova versão de Neto Coruja. Saca muito do ofício, mas só anda bichado. (Bato na madeira oitocentas e cinquenta e três mil vezes, por extenso, que é que pra zica num pegar). Em seu lugar, entra Amaral roda presa, aquele jogador que num entende a vida sem dificuldade, que vive de fazer esforço e agradar incautos da torcida. E o jogo ficou com a cara de Amaral, se é possível algo ficar com aquela cara tenebrosa. Murrinha dos 600 DEMÔNHOS.

Então, no intervalo, talvez inspirado na Moça do Shortinho Gerasamba antes da conversão ao juridiquês, as meninas que ficam dançando na esquina da balbúrdia foram para o centro do gramado e formaram um mosaico para lembrar à torcida e, principalmente, aos jogadores que o adversário era o itinga, aquele mesmo do 5×1 e 7x 3 na nova velha fonte.

Os jogadores anotaram a lição e tome-lhe brocança. E que brocança. Além do penalti batido com categoria por Escudero, mais dois golaços pra ficar registrado per seculae seculorum na retina das mais de 380 mil pessoas que lotaram o Barraquistão.

Uma epopéia que me deixou sem palavras e transformou a Moça do Shortinho Gerasamba numa oradora de botar Cícero no chinelo.

Por falar em chinalagem, na saída do estádio vi umas injúrias tricolores gritando ‘VOLTA, TIRIRIQUINHA, VOLTA”. Não opinirei sobre isso, pois num tenho nada  a ver com peixe pequeno. E, ademais, hoje tem jogo contra o Boa e quero preservar minha garganta. Sim, minha comadre, o locutor vai voltar a bater ponto aqui, com gosto de querosene e ácido muriático.

Democratizar o futebol: o que se passa no Vitória

junho 15, 2015

Pelas atuais regras do carcomido Estatuto do Vitória, hoje é o dia D para a renovação do Sou Mais Vitória, garantindo assim participação nas próximas eleições. Porém, entendo que a luta por democracia no Vitória vai muito além disso. O texto abaixo publicado originalmente no Passa Palavra nos aponta algumas pistas sobre os caminhos a seguir.

 

Democratizar o futebol: o que se passa no EC Vitória

Como gritar gol era cada vez mais raro, clamar por democracia se tornava mais frequente. Por Daniel Caribé


IMG_20150329_155655384_HDRÉ difícil determinar quando a exigência de democratização do Esporte Clube Vitória surgiu. Provavelmente há muitas décadas que loucos fora do lugar e do tempo levantam estas ideias, sem contudo ter nenhuma ressonância dentro ou fora das arquibancadas. Não é difícil entender os motivos da invisibilidade desta demanda. O futebol é, dentro dos espaços de reprodução do capitalismo moderno, um dos mais conservadores, corruptos e imersos em irracionalidades. Uma confusão entre empresa e associação, e entre torcedor e consumidor, faz da atividade umas das mais contraditórias. Como, portanto, transpor demandas e práticas da luta dos trabalhadores ou por cidadania para um clube de futebol?

Dos donos dos times, das federações, dos jogadores, das torcidas organizadas, das empresas de comunicações e outras mais, enfim, do meio de muitos interesses, o torcedor ainda se sente proprietário de algo que nem de perto é dele. Enquanto de um lado há toda uma cadeia produtiva, toda uma estrutura voltada para gerar mais e mais dinheiro, do outro há uma paixão que não ousaria explicar aqui, mas que em quase nada consegue influenciar nos rumos do time que chama de seu.

Mas o que acontece quando, no meio dessa paixão do torcedor, ele toma consciência de que nada daquilo de fato lhe pertence? E, mais do que isso, o que acontece quando ele passa a acreditar que é necessário ser verdadeiramente dono?

Sem romantismos, para uma torcida de futebol de um clube de massas (algumas pesquisam contabilizam mais de dois milhões de torcedores do EC Vitória), qualquer tentativa de impor uma única identidade é irresponsável. O EC Vitória, apesar da sua origem aristocrática (foi fundado no ano de 1899), se popularizou nas últimas décadas e nem de perto hoje é de uma torcida elitista. Ainda sim, empresários (grandes e pequenos), gestores das mais diversas origens, resquícios das oligarquias baianas, tudo isso tem que conviver nas arquibancadas do Barradão (estádio localizado no bairro de Canabrava, onde antes havia um aterro sanitário) com os setores mais populares da cidade de Salvador. Inclusive, a gentrificação imposta aos estádios brasileiros por causa da Copa do Mundo de 2014 (ver o texto “O direito ao estádio”) nem de perto atingiu o estádio de Canabrava, que continua, para as dores e alegrias dos seus torcedores, como um estádio antigo, de concreto e de livre circulação, sem cadeiras numeradas e demais formas de censuras recorrentes nas arenas.

Esse caráter popular das arquibancadas do Barradão se contradiz em muito com a diretoria do clube. O EC Vitória sempre serviu de estágio para que velhacos das oligarquias baianas brincassem um pouco. Algumas famílias devem beirar os 100 anos no controle do time. Por um lapso de tempo, na “Era Paulo Carneiro” (hoje diretor de futebol do Atlético do Paraná), o time ousou ser “moderno”, se inseriu na dinâmica mais avançada do capitalismo que se permitia a um time de futebol. Virou um “time empresa”. Uma protorrevolução burguesa aconteceu em Canabrava, mas com as cores rubro-negras. A torcida cresceu e o time também, mas o autoritarismo continuou a ser a marca registrada e, após alguns fracassos, o time chegou à Terceira Divisão do futebol nacional e os filhos das velhas oligarquias tomaram o brinquedo de volta.

IMG_20150301_161027791Foi aí que os loucos começaram a ser escutados. Não era mais possível entregar o time a nenhuma forma autocrata de gestão. Se o comandante da “revolução burguesa” rubro-negra tinha fracassado, não seriam os oligarcas de sempre que nos colocariam em outro patamar. E sem ilusões aqui também: o torcedor de futebol está pouco ligando se o seu presidente é um fascista ou um democrata, se é um empresário ou alguém dos meios populares. O que importa é ver a bola entrar no gol adversário e as taças na galeria. Não foi, portanto, a crença em uma forma de organizar a vida que prevaleceu, mas a necessidade de apostar no único caminho que ainda não foi posto em prática. O que se estranha é que em tão pouco tempo ela tenha virado consenso. Como gritar gol era cada vez mais raro, clamar por democracia se tornava mais frequente.

É claro que hoje todo mundo vai querer ser o pai da criança. Gente que há um mês atrás sequer cogitava falar em democratização de um clube de futebol levanta a faixa de “diretas já”. Mas a verdade é que o primeiro movimento surgido das arquibancadas do Barradão que pautou de forma clara a democratização do clube foi o Movimento Somos Mais Vitória – MSMV, no ano de 2010. Outro time do país já havia avançado em direção à democratização do clube (o Internacional de Porto Alegre) e graças a esta mudança se tornou um dos clubes mais vencedor no Brasil e na América Latina. A democracia já não era uma ideia fora do tempo e do lugar, mas uma possibilidade melhor do que o estado atual das coisas. Em 2011 o Vitória não conseguiu sair da Segunda Divisão, retornando aos trancos e barrancos em 2012 à Primeira, mas fez uma campanha inacreditável em 2013, terminando em quinto colocado. O resultado foi que o autoritarismo ganhou um novo fôlego.

Além disso, nesse ínterim, houve eleições no EC Vitória, na base da aclamação do indicado pelo presidente anterior (Alexi Portela), mas tentaram montar uma chapa de oposição que nunca saiu do papel. A chapa tentou engolir o MSMV, estraçalhando com o mesmo, e pautava de forma muito pouco clara a democratização do clube. Seu foco era a “profissionalização” e tinha por possibilidade o regresso de Paulo Carneiro. O resultado foi que o MSMV praticamente se acabou e a chapa não conseguiu concorrer às eleições. Um dos seus líderes foi acusado de estar envolvido em esquemas de corrupção na Prefeitura de Salvador, dando o tiro de misericórdia na articulação da oposição. Alexi Portela, com os portões do Barradão cerrados, encaminhou com tranquilidade e de forma fraudulenta o seu substituto, Carlos Falcão.

Foi nesse período também que o maior rival do time, em uma situação muito pior que a nossa, resolveu se tornar democrático na nossa frente. Não vamos entrar nos melindres do que aconteceu por lá, mas resumidamente podemos afirmar que o time se tornou refém do Governo do Estado por não ter estádio próprio e, com a implosão do estádio da Fonte Nova e construção de uma Arena no lugar, o novo equipamento precisava de um time que desse sentido aos gastos feitos para a Copa do Mundo. O EC Vitória, tendo o seu próprio estádio, e apesar de a diretoria ter insinuado a migração, tinha condições de evitar a imposição do Governo do Estado e a própria torcida recusou a mudança de endereço. Nesse momento aconteceu uma intervenção judicial no time de lá, que implementou a associação dos torcedores de forma massificada e convocou as tão sonhadas eleições. O fato é que, mesmo desta forma tosca, o time deu um salto qualitativo, voltando a ser bicampeão baiano após duas décadas. Agora havia também a experiência exitosa do rival e a desejo de democracia ia se tornando em algo concreto. O Movimento Somos Mais Vitória chegou a lançar duas notas se posicionando a respeito do que acontecia (ver aqui e aqui).

IMG-20150512-WA0013Em 2014 o time foi rebaixado mais uma vez e novas articulações ganharam força nas arquibancadas do Barradão exigindo democratização do clube. Com a experiência do MSMV, um grupo de torcedores resolveu fundar um novo movimento, chamado Vitória Livre. O Vitória Livre sabia que não poderia vacilar entre ser um movimento ou um grupo de oposição com a intenção de concorrer às próximas eleições. Tinha que focar em pautas concretas e plausíveis para manter a precária unidade e não se deixar capturar por interesses outros. O objetivo era reformar o estatuto do time, convocar eleições diretas e permitir que a torcida escolhesse os dirigentes do clube, abrindo a possibilidade para que o torcedor pudesse também se candidatar. A tática utilizada foi a de recolher assinaturas dos sócios torcedores nos portões do estádio em dias de jogo do time e, ao juntar uma quantidade considerada de assinaturas, exigir a convocação de uma assembleia geral.

Essa forma permitiu que o Vitória Livre ganhasse o respeito e o apoio da torcida, pois foi necessário conversar com vários torcedores ao longo de alguns meses. Foram recolhidas quase mil assinaturas dos sócios torcedores, num quadro de sócios cada dia mais reduzido por conta dos fracassos do time em campo e da má vontade da atual diretoria em estimular a associação. Isso porque, como prevê o atual estatuto nunca posto em prática, com 18 meses de associação o torcedor teria direito a votar nas eleições do conselho (e o conselho escolhe o presidente) e a diretoria fazia de tudo para que o torcedor não participasse da vida do clube para além dos gritos nas arquibancadas. Outros movimentos surgiram nas arquibancadas do Barradão e, a cada tropeço do time em campo, mais torcedores apoiavam a ideia de democratização do time. Entretanto, alguns movimentos passaram a apoiar um processo idêntico ao do rival, solicitando a intervenção judicial.

Em um desses fracassos em campo, o último presidente (Carlos Falcão), com pouco mais de um ano no cargo, solicitou afastamento e uma corrida pelo poder no clube se instaurou, mas também abriu espaço para que finalmente a reforma estatutária saísse do papel. A ideia de democratização do time, que já havia se alastrado pelas arquibancadas, ganhou também parte dos grupos que disputavam o poder há anos. Entretanto, é impossível dizer quem de fato apoia a democratização do clube ou quem aderiu ao movimento entendendo que quem fosse contrário nesta altura do campeonato estaria eliminado do comando. Além do mais, o que essas pessoas entendem por democratização de um time de futebol?

Da pressão das arquibancadas, saiu a convocação para uma Assembleia Geral “consultiva”, ocorrida no dia 06 de junho de 2015. A Assembleia não tinha o propósito de decidir nada, apenas o de dar uma satisfação à torcida. De qualquer forma, os representantes dos diversos movimentos foram chamados para compor a mesa e a palavra foi franqueada para os torcedores que se fizeram presentes. O consenso em torno da democratização do clube foi formado, com nenhuma voz se opondo publicamente. Só falta entender para que lado essa democratização irá.

Apenas quem destoou dos demais presentes foi a maior torcida organizada do clube, Os Imbatíveis, que se posicionava sempre ao lado da diretoria do clube e contra a democratização, com medo que “aventureiros” tomassem o time de assalto. Em troca do apoio, o presidente da torcida se tornou conselheiro do EC Vitória. Os representantes da torcida organizada presentes na Assembleia não se colocaram, mas ameaçaram fisicamente os outros torcedores que vaiaram quando o nome do seu presidente foi anunciado, deixando o ambiente tenso.

650x375_1326489Antes dessa assembleia ocorreu a articulação de vários movimentos e uma das figuras que se destacou foi Augusto Vasconcelos. Assim como setores ligados ao PT influenciaram bastante no processo de intervenção no time rival, no Vitória parece que é o PCdoB que se interessa pelos caminhos tomados. Augusto Vasconcelos é um advogado filiado ao PCdoB e atualmente presidente do Sindicato dos Bancários, um dos sindicatos mais importantes do Estado. Entre esses movimentos que Augusto conseguiu se articular se encontra tanto o que sobrou do MSMV quanto o Vitória Livre. A unidade desses movimentos passou a se chamar Movimento Por Um Vitória Melhor, tendo Augusto o seu próprio movimento, chamado de Frente 1899. O momento é delicado porque ao mesmo tempo que a unidade entre os diferentes movimentos dá mais força à demanda, por outro, tira de alguns deles a radicalidade, podendo centralizar nos “líderes” as negociações que envolvem o interesse de milhares. E, é claro que não é somente o PCdoB que tem interesse nos rumos do EC Vitória, muito menos só os partidos políticos.

Os pontos que parecem unificar a todos esses movimento são: 1) convocação da Assembleia Geral deliberativa para aprovar o novo estatuto e realização das eleições ainda em 2015; 2) eleições não só para escolher o presidente, mas também todo o conselho, ampliando a democratização aos demais espaços do clube; 3) conselho proporcional e mais enxuto (algo em torno de 100 conselheiros, quando atualmente o número passa dos 400); 4) remodelação e expansão do plano de associação; e 5) profissionalização da diretoria, com remuneração para os dirigentes.

É bem confuso se posicionar diante de tudo isso. Por um lado, não deixa de ser animador ver uma torcida de futebol exigindo participar da gestão do próprio time. Gerir os próprios ócios pode servir de aprendizado para a gestão das demais dimensões da vida, inclusive a principal, que é a gestão da economia. Por outro lado, não se pode cair na ilusão de achar que a democracia é um fim em si mesma. Da mesma forma que a democracia só serve aos trabalhadores se for para tirá-los da miséria e da opressão, em um time de futebol o que se quer, principalmente, são vitórias e títulos e, em troca disso, muitos podem abrir mão desses valores progressistas na próxima esquina. Nunca se sabe que tipo de represália um time de futebol verdadeiramente democrático pode receber nesses meios e, sendo um time médio do futebol brasileiro, não resistiria por muito tempo atuando de forma contrária às práticas dominantes. Portanto, quanto tempo a torcida sustentaria um time democrático que não consegue vencer em campo?

Ainda, foi surpreendente ver os dilemas dos movimentos sociais acontecerem dentro de um estádio de futebol. A burocratização da luta, a captura das pautas por gestores, o movimento ambíguo de apatia e de euforia, as diferentes táticas dos movimentos e partidos (a chapa que pretendia concorrer às eleições), a milícia fascista oprimindo os demais (a torcida organizada) e por aí segue. Isso tudo sem deixar de considerar que a torcida é formada por pessoas das mais diferentes classes sociais.

Diante do que se passa, as expectativas que ficam são: 1) que a maior torcida organizada do clube mude suas práticas, pare de ameaçar os torcedores (nas arquibancadas e nas redes sociais) e se posicione de fato ao lado dos demais na luta pela democratização. Querendo ou não, é a voz da torcida quando a bola está rolando no gramado; 2) que a unidade entre os diferentes movimentos não retire de alguns a radicalidade na luta pela democratização do clube, que a prática de conversar e envolver cada torcedor continue, sem jogar peso nas articulações de gabinete; 3) que não se crie nenhuma ilusão nas pessoas, mas sim na reforma das instituições. Alguns podem conseguir expressar os interesses das arquibancadas e se tornarem, portanto, uma vanguarda legítima. Mas para virar uma nova elite não demora muito, ainda mais se se trata de filiados a partidos que nunca foram simpáticos aos processos democráticos. A luta, portanto, não pode girar para a eleição de A ou B, mas para a consolidação de uma nova estrutura democrática no EC Vitória; e, por último, 4) que se avance o mais rápido e de forma mais radical possível neste momento, pois nunca se sabe quando teremos uma conjuntura tão favorável quanto a atual.

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É PRECISO ESTAR ATENTO E FORTE

abril 29, 2015

É incrível o poder das coisas quando elas têm que acontecer.

Há pouco mais de cinco anos, falar em eleições diretas no Vitória era quase sinônimo de palavrão. Os que lutavam por democracia no Leão eram vistos como ingênuos ou, pior, tachados de oportunistas, seja por dirigentes que não queriam largar o osso ou por seus escrotos porta-vozes na mídia baiana.

Pois muito bem. Depois de diversas e constantes batalhas, inicialmente nas arquibancadas e depois furando o cerco na imprensa, finalmente o tema conquistou, em definitivo, o coração e as mentes da esmagadora maioria da torcida. E até os antigos dirigentes foram obrigados a se pronunciar sobre o tema.

Porém, faltava o passo adiante. levar o debate para o conselho para que o sonho começasse a se transformar em realidade. E foi exatamente o que acabou de acontecer no último dia 27 de abril, apesar da resistência insana dos que não sabem conviver com os necessários e inadiáveis avanços.

O fato, amigos Rubro-Negros, é que o assunto está na pauta e nós temos que estarmos completamente mobilizados para não permitir retrocessos. Exatamente por isso, o Movimento Vitória Livre, um dos que protagonizam a luta pela democratização do Clube, lançou a seguinte convocação.

Após a realização da reunião do Conselho Deliberativo do EC Vitória, ontem, 27/04, e da notícia de possível convocação da tão esperada Assembleia Geral de associados para Junho, o Movimento Vitória Livre convoca uma reunião neste sábado, 02/05 a partir das 10:30 em frente a loja do SMV no Capemi para esclarecer algumas dúvidas acerca da realização da Assembleia e também para cobrarmos na própria loja a declaração das pessoas que estão aptas a votar. Compareçam e participem! O destino do Vitória depende de cada um de nós“.

Então, é isso. No sábado todos lá.

Saudações Rubro-negras e democráticas.

A DEMOCRACIA É IRREDUTÍVEL*

abril 27, 2015

Desculpem-me se já começo o artigo apelando às repetições, mas não há como deixar de registrar que a melhor frase sobre esta província lambuzada de dendê e de exclusão foi proferida pelo menino Otávio Mangabeira, sempre ele. Às aspas. “A Bahia está tão atrasada que, quando o mundo se acabar, os baianos só vão saber cinco anos depois”.

Pois muto bem, digo, pois muito mal. Mutatis mutandis, tão impiedosa sentença mangaberiana se aplica ao futebol, especialmente ao confuso momento, mais um, pelo qual passa o brioso Esporte Clube Vitória. Afinal, enquanto a esmagadora maioria dos clubes, inclusive nosso rival, já avançou no processo democrático, mesmo com todas as imperfeições e interferências governamentais, no Rubro-Negro ainda estamos na época das capitanias hereditárias.

Aliás, aqui, a história não se repete como farsa, pois o ponto de partida já é farsesco. E apenas continua assim ad infinitum. As diretorias que se sucedem agem como se o Clube fosse apenas um brinquedo que o bondoso pai entrega ao filho. Às vezes, eles até têm algumas desavenças entre si, em uma espécie de briga de meninos birrentos, porém nunca aceitam transformações verdadeiras. Os dirigentes, com tanto e tamanho descaso, parecem olvidar que estão no comando (?) de uma instituição que atinge a mente e, principalmente, o coração de milhões de adeptos.

E tal procedimento nefasto acaba levando ao que o Movimento Vitória Livre, um dos que lutam pela libertação do Vitória, tão bem diagnosticou em um recente manifesto. Novas aspas, maestro.

“O Esporte Clube Vitória padece de um paradoxo fundamental: quer se estabelecer como um time de massas, ampliando o número de associados, ao mesmo tempo em que deseja manter uma carcomida estrutura baseada na familiocracia e no mandonismo.

Se, ao longo da centenária história, já tivemos glórias nas quatro linhas, no quesito respeito ao torcedor, principal razão da existência de um Clube, a diretoria do Vitória permanece numa eterna e vergonhosa zona de rebaixamento.

É óbvio que, em algum momento, esta esdrúxula equação se tornaria incompatível, provocando um completo divórcio entre os anseios da torcida e os tenebrosos projetos de perpetuação de poder de uns poucos”.

Mas, nem tudo é choro e ranger de dentes. O momento da torcida do Leão efetivamente chegou. Já existem várias grupos batalhando nas mais variadas frentes e o batalhão dos que acreditam em um novo tempo no Clube só faz crescer. Não adianta eles acenarem apenas com anéis para manterem os dedos apontando sempre para o retrocesso. Não. Os torcedores do Vitória saberão repudiar toda e qualquer manobra, até porque a imensa maioria dos leoninos quer e vai exigir não só eleições diretas, mas também eleições proporcionais para o conselho e, principalmente, a possibilidade do sócio-torcedor participar ativamente do processo eleitoral. Chega de ser apenas um mero votante que ratifica os mesmos conselheiros de sempre. A mudança deve e tem que ser real, profunda. Não aceitaremos menos do que isso. E os que tentarem enganar a massa Rubro-Negra ouvirão o mesmo brado da combativa Dolores Ibárruri: No Pasarán!

Entendemos que a democracia é um valor irredutível.

 

* Texto publicado originalmente na edição de domingo, dia 26, no Caderno de Esportes do Jornal A Tarde

O VITÓRIA VAI SE LIBERTAR

abril 15, 2015

Saio de meu obsequioso silêncio para solicitar que vocês dediquem um tanto assim de seus tempos ociosos para ouvir as palavras da salvação proferidas pelo intimorato Felipe Ventin. Cliquem no linque abaixo com urgência e divulguem, hereges. De nada.

http://goo.gl/YD7OtE

 

 

 

PUTAQUEPARIU O DESENCANTO!!!

fevereiro 2, 2015

O menino Nelson Rodrigues, sempre ele, costumava ensinar que as coisas ditas uma só vez permanecem inéditas. Portanto, dizia, faz-se mister repeti-las e repeti-las ad infinitum para que as mesmas não descambem para o anonimato.

Pois muito bem.

É exatamente por ainda acreditar neste axioma inicial que não me canso de gastar meu parco latim aqui defendendo a tese de que a divisão de base é uma das raras veredas que podem levar a um caminho da salvação para clubes periféricos, como é o caso do Leão. Fora disso, as possibilidades de êxitos para nosotros, os desvalidos, tornam-se ainda mais estreitas.

O problema, amigos de infortúnios, é quando esta mesma base, que deveria ser alicerce para nossos sonhos, ainda que fugazes, começa a dar sinais de que pode flertar com a infâmia e o desmantelo.

Ah, sêo françuel, deixe de xibiatagem. O senhor deveria era estar reclamando dos marmanjos, que não cansam de nos envergonhar“, protestou logo a moça do shortinho Gerasamba.

Nas CNTPs, e também fora delas, sempre costumo dar razão à referida de indumentárias mais escassa do que o saldo de minha maltratada conta bancária, porém, desta vez, retrucarei. Seguinte é este, minha comadre: num é de meu feitio gastar velas com defuntos ruins. Quando decidi ver a peleja ontem contra as sardinhas de Feira de Santana já sabia o que me aguardava. Nenhuma surpresa. Aliás, deste campeonato baiano nunca espero nada que fuja à rotineira e ordinária previsibilidade. Uns trocados de emoções, que ocorrem de quando em vez, já são contabilizados, antecipadamente, e sem nota fiscal, na conta do lucro indevido.

É fato que alguém reticente poderia ainda argumentar, não sem razão, que os meninos do Vitória têm sido um de nossos poucos orgulhos. Afinal, eles têm brilhado nos certames nacionais de modo constante. E, aqui na província, não fazem feio. Ontem mesmo brocaram as sardinhas de feira por 7 x 0.

É verdade, todo mundo tem razão, todos estão muito certos, tudo mundo é honesto, mas meu paletó sumiu.

Seguinte foi este.

De acordo com relatos fidedignos do menino Mateus Almeida, os guris Rubro-Negros, logo após o jogo, estavam  festejando ali no portão do antigo campo do Perônio. Até aí, tudo bem. Afinal, depois de uma vitória elástica nada mais natural que eles comemorem.

A desgraça, ainda segundo o apóstolo Mateus, foi o que eles “comemoravam”. Aspas para a minha impoluta fonte. “França, invés de vibrarem com o importante triunfo, tinha um sacana se gabando porque conseguiu enganar o juiz, dizendo que deu um tapa e ainda simulou uma falta”.

PUTAQUEPARIU A INVERSÃO DE VALORES!!!

É óbvio que um time de futebol não vai nem deve ser formado por freiras carmelitas. Ao contrário. A malícia pode e deve fazer parte da peleja. Porém, não é recomendável levá-la assim ao nível do paroxismo, da doença. Como é que você vence uma partida por 7 x 0 e a única coisa que você quer comemorar e relembrar é o fingimento, uma sacanagem, um tapa? Porra, num dava ao menos para falar sobre um gol, uma boa jogada, um drible desconcertante, nada?

Pois é. Diante do triste relato de Mateus sobre a presepada dos meninos da base, a vergonhosa atuação do time principal na estreia do campeonato baiano foi, pasmem, um papelão menor. Tudo foi para o baleio (que não é de Iemanjá)  como uma verdadeira ode ao desencanto.

FELIZ ANO VELHO

janeiro 23, 2015

Guiado por meu incorrigível otimismo, planejava retornar a esta impoluta tribuna de modo glorioso, proferindo boas e novas prosopopéias para a nação. Até a moça do shortinho Gerasamba ficou toda assanhada já pensando nos desfrutes. Porém, a diretoria do Vitória teima em não deixar que a felicidade desabe sobre este esperançoso locutor.

E, assim, uma vez mais, sou obrigado a ocupar o microfone para velhacas sessões de choro, ranger de dentes e falsas erudições. Então, de prima, saco logo do coldre uma quase citação do menino Friedrich Nietzsche – e constato: há anos que já nascem póstumos. E este traquino 2015, que nem bem começou, parece que vai percorrer esta sina triste. Mesmo ainda estando no prelúdio, já podemos sentir o seu sufocante cheiro de mofo, pelo menos na parte ligada ao latifúndio improdutivo do Ludopédio Rubro-Negro.

PUTAQUEPARIU O DESENCANTO!!!

Os mais apressados podem até achar, não sem razão, que tanto e tamanho desalento é por causa da perda do primeiro torneio do ano, após o vexame, na noite de ontem, também conhecida como quinta-feira, diante do fraco time do Náutico. Porém, em verdade vos digo: não é apenas um tropeço na insossa Copa Maranhão, um destes reles caça-níqueis de início de temporada, que iria abalar a fé deste peregrino que tem o couro curtido em seculares dissabores.

Sim, é fato que uma derrota é sempre uma derrota, especialmente uma assim, já sob o signo do simbolismo da estreia, uma partida que deveria marcar um recomeço após um 2014 de incontáveis desmantelos. Porém, como diria os comunistas de antanho, o fulcro da questão é outro, muito mais grave.

O que efetivamente me atormenta e creio que também perturba os mais de numseiquantomillhões de torcedores é a falta de perspectiva, é a total inexistência de quaisquer sinalizações de mudanças. Esta é a verdadeira e mais cruel derrota neste começo de 2015. Continuamos sob o (des) governo de uma diretoria sem nenhum compromisso com a democracia, transparência e, consequentemente, sem respeito ao torcedor. Triste.

E o pior (sim, amigos de infortúnios, anda tem coisa pior) é que uma parte da (mal) dita oposição consegue ser ainda mais perversa (se é que isto é possível) do que os atuais gestores. Sob o comando de ex-presidentes e ex-diretores, esta galera tem a petulância de propor retrocesso ao já engessado Regimento Interno. Para que não diga que este meu pessimismo é consequência deste gosto de bota de sargento no canto da boca, provocado por esta ancestral ressaca de canjebrina ruim, mando logo umas aspas sobre a proposta dos referidos oposicionistas em relação à democratização. Ouçam a infâmia em negrito.

Curto prazo – Torcida elege representantes, que elege conselho deliberativo, que por sua vez elege conselho diretor;

A médio prazo – Torcida elege conselhos deliberativo e diretor”.

Traduzindo. Os caras que já comandaram o Clube e agora aparecem como salvadores da pátria, propondo-se a melhorar as coisas, querem, pasmem, colocar ainda mais obstáculos na participação do torcedor. E pior. Desconhecem que hoje o sócio já pode votar diretamente para o conselho.

PUTAQUEPARIU A DESINFORMAÇÃO!!!

Pois muito bem, digo, pois muito mal. Caso me restasse um tantinho assim de juízo e amor (im) próprio, continuaria no meu obsequioso e longo silêncio que já dura exatos quatro meses. Mas sou teimoso. Por isso, estou aqui, mais uma vez, para conclamar os sócios-torcedores que não joguem a toalha. Mais do que nunca, é o momento do torcedor  tomar o destino do Clube em suas mãos. Por isso, e para não iniciar este ano sombrio sem uma centelha de esperança, solicito  uma vez mais que todos, que todos colem na corda do vitoria_livre@googlegroups.com (basta mandar um e-mail para este endereço  para participar do grupo de debates), movimento que tem lutado firmemente em prol da convocação de uma Assembleia Geral Extraordinária com o simples e fundamental objetivo de democratizar nosso Clube e, assim, impedir que tenhamos mais um feliz ano velho.

Vamos nessa, rebain de incréus.


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