Archive for julho \25\UTC 2013

PROFECIA CUMPRIDA*

julho 25, 2013

* Texto escrito na quarta-feira passada, dia 17 de  julho, e  publicado no brioso Impedimento

O Galo já ganhou

Agora, fiquei na dúvida. Não sei se sempre fui sovina ou se o fato de torcer pelo Esporte Clube Vitória, equipe que tem irremediáveis desavenças com glórias contínuas, me fez assim, insuportavelmente mesquinho. Pouco importa. A verdade é que, desde priscas eras, quando o Leão não está disputando o caneco (o que é uma praxe), guio-me pela seguinte e perversa sentença: “Feijoada que não posso comer, boto o dedo pra azedar”.

Antes, porém, que algum incauto comece a pensar que o título que emoldura estes rabiscos é apenas uma sacanagem de um secador inveterado, faz-se mister esclarecer que o inverso é o verdadeiro. Acredito piamente que o Atlético Mineiro já é campeão. É fato que se eu fosse um tantinho mais canalha, me precaveria de quaisquer contratempos futuros, recorrendo logo àquela prosopopeia que Paulo Emílio Salles Gomes largou sobre Glauber Rocha. “Um profeta não tem a obrigação de acertar, tem obrigação de profetizar”.

Mas hoje não é o momento de dúvidas ou dissimulações. Repito. Creio piamente na vitória antecipada do Galo Mineiro. Aliás, é mais do que crença. É uma convicção, certeza, ou melhor, um axioma, uma verdade histórica que pode ser efetivamente comprovada com esta simples pergunta:

– Minha comadre, sem consultar o oráculo, responda de bate-pronto qual foi a equipe campeã de 1954?

Pois é. Estão vendo aí. A distinta senhora não lembra quem levantou o caneco naquele glorioso ano da graça, mas sabe perfeitamente, inclusive capricha no sotaque, os nomes dos companheiros de Ferenc Puskás que saíram da copa para entrar na história. Gyula Grosics, Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti e József Bozsik. E também recorda com carinho que a esquadra comandada por Gusztav Sebes conseguiu brocar a até então invicta Celeste, além de meter 8 x 3 na própria Alemanha Ocidental, equipe que registrou o nome nos livros da impoluta Fifa.

Pois bem.

O mesmo fenômeno ocorre em 1974. Sim, é fato que neste ano alguns podem até se lembrar da galhardia de Franz Beckenbauer ou do bigode de Breitner, mas o que realmente entrou para a história foi a briosa Holanda, comandada por Rinus Michels, que aplicou em escala mundial o sistema de Cambuizinho da Seleção de Irecê. Qual? Este, ó. “Um time deve subir e descer igual ao Elevador Lacerda e abrir e fechar como uma tesoura”.

(Pausa para reflexões táticas)

Voltando, poderia ainda trazer à baila a Seleção de Telê Santana de 1982 e, principalmente, por questões afetivas que me cabem neste latifúndio, o Esporte Clube Vitória de 1974, de André Catimba, Osni e Mário Sérgio.

Mas, chega. Hoje é o dia de tratar do Galo. E a atual equipe do Alvinegro das Alterosas começou a colocar seu nome na história logo na primeira partida contra o (ex) todo-poderoso São Paulo.

Seguinte foi este. O ponteiro do relógio marcava 12 minutos e caqueirada quandoRonaldinho Gaúcho pediu um copo de água a Rogério Ceni. Assim como naquele gol de falta nas quartas de final contra a Inglaterra, em 2002, é impossível saber se ele fez de malandragem ou involuntariamente, mas o fato é que, depois de saciar a sede, o sacrista ficou na zona do agrião, recebeu o passe na cobrança de lateral e só teve o trabalho de passar a bola para Jô marcar o primeiro e já antológico gol do time de Cuca. A partir daí a mística já estava criada. Além de ter fôlego para superar os bolivianos The Strongest na altitude, os atleticanos marcaram a fase inicial com duas goleadas contra o Arsenal da Argentina.

Já os três últimos confrontos diante do tricolor paulista serviram para dar contornos decisivos às principais características de todos os times mitológicos: desleixo (quase arrogância) na derrota por 2 x 0. Sorte e estupidez do (zagueiro) adversário no primeiro triunfo do mata-mata. E, por fim, a reverência ao sublime na goleada em Minas Gerais.

Das labutas contra o Tijuana e o Newell´s Old Boys, nada mais pode ser dito para que as palavras não saiam humilhadas diante dos feitos inolvidáveis.

Pois muito bem.

Tudo isso, toda esta insana trajetória, serviu apenas para que agora possamos afirmar sem medo de qualquer equívoco que o Galo já é o Campeão. E esta conquista ocorrerá independentemente do resultado final contra o Olimpia.

Afinal, este Atlético de 2013/Libertadores é daqueles times que se tornam vencedores, campeões, ganhe título ou não. É uma equipe que faz uma constante e cotidiana ode ao futebol, com o que ele tem de mais perverso e belo.

E fodam-se todos os que acham que o caneco, a taça, é maior do que o próprio futebol.

Não adianta. Esta peleja o Galo já ganhou

P.S Na verdade, hoje eu ia torcer para o Olimpia – até porque um time que joga num Estádio com o nome do Defensores del Chaco merece ganhar tudo. Porém, como num aguento mais ouvir o chororô dos atleticanos, mudei de ideia.

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É HORA DE AUMENTAR O VOLUME: “BARRADÃO, BARRADÃO, BARRADÃO!!!”

julho 22, 2013

Por Jucimar Santos*

 

“Barradão, Barradão, Barradão”. Esse era o coro entoado pela multidão que se espremia para passar pela entrada destinada aos sócios-torcedores do Esporte Clube Vitória, no Ba x Vi desse domingo, realizado na Arena Itaipava, a chamada Arena 51. Antes de chegar à catraca destinada ao programa Sou Mais Vitória, esses mesmos torcedores já haviam passado sufoco no portão de acesso localizado na Ladeira da Fonte das Pedras. Homens e mulheres, incluindo crianças e idosos, tiveram que pular uma grade que limitava o acesso ao portão. Risco alto de alguém se machucar seriamente.

 

Com tanta hostilidade logo na entrada, o sentimento nessa hora era um só: como mandante do jogo, o torcedor não se sentia em casa. Certamente vão argumentar que só passou por isso quem deixou para entrar no estádio depois das 15h (uma hora antes do apito do juiz). Mas, um dos argumentos usados para se mudar o mando de jogo foi o conforto que o novo equipamento proporciona. Momento algum foi citado que a partir das 15h o “côro” ia comer na entrada.

 

Lá dentro, o torcedor rubro-negro voltou a ter o mesmo sentimento de não estar em sua casa para jogar o clássico. A divisão praticamente igualitária das torcidas dava a sensação de campo neutro. O animador da Arena 51 não cansava de convocar a torcida adversária a manifestar sua paixão tricolorida. Na saída, o engarrafamento no entorno do estádio deixou muita gente esperando para ir embora. Perfeitamente normal em um evento desse porte. Mas, o conforto da ida para casa era outro argumento utilizado para a realização dos jogos do Vitória na Arena 51.

 

Dentro de campo, o 0x0 pôs fim à mística das goleadas. Também, outro argumento para a ida à Arena 51. Sobre os argumentos das vantagens financeiras na transferência do mando de campo rubro-negro não vou poder comparar, porque a atual diretoria não é muito afeita à transparência. Ninguém sabe os termos dessa negociação. Mas, duvido muito que tenha gerado mais lucro, levando em conta que o ECV tem no Estádio Manoel Barradas, além da bilheteria, receita com publicidade e da parceria comercial. Além disso,  tem  a questão simbólica da identificação da torcida com seu próprio estádio e a importância histórica do Barradão para o nosso Clube.

 

Em pesquisa feita recentemente no site oficial do ECV, a torcida se manifestou claramente pela preferência ao Barradão. Diante desse quadro exposto, fica a dúvida que martela a cabeça dos sócios-torcedores (aqueles que comprovadamente freqüentam estádio): por que a diretoria do ECV quer abandonar o Barradão e passar a mandar os nossos jogos na arena? Especula-se que o contrato da arena, que prevê a “indenização” por parte do governo do Estado em caso de prejuízo, seja um dos fatores. Porém, muitos destacam o fato de que  o presidente do Conselho Deliberativo do Clube, deputado federal José Rocha (PR),  é da base aliada. Estaria ele dando uma forcinha para que os jogos mudem de lugar?

 

Especulações à parte, é muita cegueira em relação à importância de se manter os jogos do Barradão. Se bem que visão nunca foi uma qualidade da atual diretoria. Só que agora o caso é de surdez. Então, vamos aumentar o coro: “Barradão, Barradão, Barradão”.

 

* É Rubro-negro e jornalista

França Teixeira encarnou os ficcionais paradoxos baianos*

julho 21, 2013

No início da década de 1960, a poetisa Lina Gadelha disse para um deslumbrado Sartre, recém-desembarcado na Cidade da Bahia, que o dendê simbolizava a alma de Salvador. É pouco provável que o ateu existencialista, sempre reticente para com as coisas invisíveis, tenha caído na culhuda oleaginosa da moça – até porque esta província lambuzada de exclusão nunca teve alma. Aliás, urbe alguma possui qualquer tipo de espírito – a não ser o de porco.

Mas derivo.

O fato é que, neste mesmo início da década 1960, estreava na rádio de Soterópolis um sujeito que conseguiu dialogar com a alma da capital baiana, independentemente de ela existir ou não. Antônio França Teixeira, eis o nome do cristo-exu, soube, como nenhum outro, captar a alma citadina, esta entidade etérea e intangível.

E o fez de modo absolutamente radical. Em apenas um bordão, ele abraçou todos os dialetos soteropolitanos, conseguindo criar uma saudação ao mesmo tempo anárquica e reverente. Ouçam: “É ferro na boneca, minha cara e nobre família baiana”.

(E a cara e nem tão nobre família baiana, testemunharia, algum tempo depois, “o ferro na boneca” ser escolhido como título do primeiro disco de estúdio de uma certa banda chamadaOs Novos Baianos).

Assim sempre foi França Teixeira: uma contradição ambulante. Conseguiu parecer anti-carlista ao mesmo tempo em que lançava um dos epítetos que mais agradariam a ACM: “O Pelé branco das construções”. E acabou arrumando uma sinecura no Tribunal de Contas do Estado exatamente pelas mãos de Waldir Pires, maior adversário político do Cabeça Branca.

PUTAQUEPARIU A MALEMOLÊNCIA!!!

Aliás, talvez tenha sido exatamente por conta destes insanos paradoxos que França Teixeira e a Bahia conseguiram se entrelaçar de forma inexorável. Afinal, o sobrenome desta terra é oximoro. É uma utopia de lugar, tristemente alegre, onde estúpidos são confundidos com gênios, retrógrados com revolucionários e viva o vice-versa.

E ninguém, como nosso anti-herói, foi tão pródigo em circular entre os extremos desta besta (e ainda bela) província. Inclusive,  o refrão de sua campanha a prefeito na década de 80 pregava esta, digamos assim, totalizante elasticidade: “De Itapuã a Ribeira o voto é de França Teixeira”.

Porém, foi na área do Ludopédio que ele conseguiu ser mais baiano, com toda a beleza, perversidade e ousadia possíveis. Durante sua conservadora e vanguardista atuação,  inovou, correu riscos e fez bobagens em doses cavalares.

Eis abaixo quatro exemplos, nos quais ele trafega da mais ampla e irrestrita irresponsabilidade até a galhofa pura e genuína.

1- No auge da ditadura militar, se é que ditadura tem auge, o indigitado teve o desplante de propagar o terror, inventando que a Fonte Nova, que seria reinaugurada, não suportaria a multidão.

No dia da reabertura do estádio, um refletor ou outro objeto não identificado pipocou e a velha Fonte foi o palco de uma das maiores tragédias do futebol brasileiro. (Esta triste história tem poucos relatos porque vivíamos sob a pesada farda de Médici, que, inclusive, estava no estádio.  Até hoje não se sabe a quantidade exata de vítimas. O jornal A Tarde  relatou na ocasião que “nem todos os casos atendidos pelo HPS foram registrados, em vista da balbúrdia reinante. Na porta do ambulatório do Hospital, soldados da Polícia Militar vedavam a passagem de jornalistas”).

2-  O ex-preparador físico da seleção brasileira, Paulo Amaral, tentava implantar no Bahia um novo sistema, privilegiando a força física. Como não concordava, França, então, colocou no ar relinchos de cavalos afirmando que era o treinamento do esquadrão de aço. Antes do final do programa, o musculoso e careca treinador entrava por uma porta na emissora e o apresentador fugia por outra.

3- Romântico inveterado, França Teixeira defendia uma tese anti-europeia, meio que impedimentística. Ele entendia que, mesmo o maior craque, se tivesse atuando no exterior, não deveria jogar na seleção brasileira. Aliás, nem ser convocado.  “Jogou fora, tá fora”, dizia, acrescentando que isso iria melhorar o nível do futebol brasileiro e contribuir para  a diminuição das negociatas.

4-  Apesar de  se auto-proclamar torcedor do Ypiranga (time que só lhe dava alegria, pois “não treinava, não jogava e  não perdia”), a verdade é que França Teixeira sempre torceu pelo time da RMS, inclusive interferindo na administração do clube. Tal fato, porém, não impedia de armar sacanagens, como no dia em que inventou uma fictícia contratação de Pelé, contando com a participação do próprio Edson Arantes e do então presidente do Bahia Alfredo Saad na consecução da farsa. (Recentemente, em entrevista, França Teixeira afirmou que quem o ajudou nesta presepada foi o presidente Osório Vilas-Boas, mas se equivocou, pois nesta época Osório não comandava mais a agremiação).

Pouco importa. O fato é que o cidadão nunca sossegou, ao contrário dos hodiernos radialistas escrotos baianos (desculpem a redundância), que se acomodaram e se acostumaram a armar falsas polêmicas apenas para incrementarem o holerite. É óbvio que França também agiu pensando no contracheque, mas não somente. Era uma genuíno adepto do fuzuê dos 600 DEMÔNHOS.

Porém, baiano e paradoxal ao extremo, o homem que revolucionou os meios de comunicação da província, especialmente o rádio e a TV, acabou passando os últimos 20 anos numa repartição pública, como um simples burocrata. Simples, vírgula, pois mesmo na Corte de Contas, ele achava um jeito de polemizar, seja lendo os relatórios governamentais como se estivesse narrando uma partida de futebol ou usando uma démodé gravata borboleta, que ele classificava como vanguardista.

Enfim, o fato é que com a morte de França na última quinta-feira, dia 18, morre também uma parte da paradoxal  alma da cidade, mesmo que ela nunca tenha existido.

A Bahia perde um pouco de sua ficção.

 

P.S França Teixeira foi também pioneiro na nova linguagem da TV. Muito antes da Rede Globo, ele fez um programa chamado França Teixeira – Profissão Repórter.  Porém, em entrevista ao jornalista Nelson Rocha na Tribuna da Bahia, ele conta que “A Globo patenteou o Profissão Repórter, e eu ganho o que Inês ganhou na roça”.

Na TV, França também criou a seguinte expressão que intimidava os entrevistados “Câmera nos olhos dele”. Um dia, ele mandou a câmera fixar nos olhos de Luís Melodia – e estava uma brasa, mora?

 

* Texto escrito especialmente para o brioso IMPEDIMENTO