O MONSTRO DA ESPERANÇA (Por Silas Lopes)

Eis a verdade que há dias me sufoca e implora pra ser confessada: quando eu não tinha o olhar lacrimoso que hoje trago e tenho, cultivava o perigosíssimo e já quase leviano mau hábito de sonhar. Mas “o sonho da razão produz monstros”, adverte o pernóstico apreciador de arte. Ora, bem o sei eu, que vi nascerem hidras, quimeras, brinquedos assassinos, bombas atômicas, Collors, Lulas, exércitos brancaleones e o maior de todos os males, o vilão que prolonga o tormento dos homens e atende pelo nome de esperança. Sim, meninos, eu vi todas esses assombrosas anomalias malfadadas às quase glórias que todo monstro que se preze atinge no penúltimo quadrante dos filmes do gênero. Não foi uma nem duas vezes que, num arroubo delirante, vi o objeto dos impossíveis desejos beirar a materialização e, quando já se comemorava o apocalipse, o mundo insistia em ser salvo, as coisas retornavam à realidade e a vida despertava, retomando seu marasmo.

Nesses vinte e poucos anos de casa arrumada que a nação vive desde que se tornou efetivamente democrática e, portanto, realmente nacional, demos vários beijos na morte e cá estamos, vivos, acordados e cheios de um tédio que vira sempre a mesma melodia. Enquanto a vitrola repetir essa cantilena modorrenta de que isso aqui não tem jeito e que o que anda ruim ainda vai correndo piorar, é certo que as coisas só vão degringolar a largos passos. O pessimista é sempre um preguiçoso, como ensina o Mário Sérgio cujo nome de herói do meio-campo faz até a gente relevar e quase esquecer seu carregado e galopante sotaque gaúcho. De fato, o pessimista é tão preguiçoso que profetiza o caos e o incêndio só pra sentar e ver o circo ser destruído pelo fogo que cabia a ele ir apagar.

E qual a necessidade de falar de sonho e pessimismo, misturando Nietzsche, Goya, Belchior, Cazuza e Cortella numa mesma prosa ruim?! Nenhuma. Mas nem só do que é necessário se fazem as crônicas. Antes, o contrário. E estou aqui pra lhes contar que é justamente por se afinar ao necessário que a nossa nação chegou ao vil tormento em que se vê. Essa musiquinha feita de tédio e pessimismo que se houve em cada canto é a prova de que geral esqueceu o principal: no peito dos desafinados um dia já bateu um coração.

E se você não sabe do que estou falando, seja humilde e veja o burro videotape.

Como em todo fim de século, o apocalipse era coisa iminente e todos aguardavam a redenção. Mesmo sabendo que sonhar era ingênuo, os meninos passaram guache no rosto e disseram “e daí?!” E foi com o mesmo descaso que Oswaldo Montenegro dá à opinião alheia que a juventude cara pintada foi às ruas e praças pra acreditar num futuro melhor e fazê-lo acontecer. O Brasil dava a mão à palmatória e nomes antes desconhecidos tiveram de ser engolidos pelo cenário nacional dessa Terra de Papagaios em que só se repetia a mesma ladainha há quinhentos anos. Pela primeira vez, como nunca antes na história desse país, ouvia-se falar de Vitória – assim mesmo com o “V” maiúsculo – do povo periférico de uma Bahia periférica em um Brasil que é periferia de um mundo periférico em uma galáxia periférica e blábláblá bláblábla blábláblá…

Certo que 93 mostrou ao mundo o que jovens com tinta no rosto, coração na chuteira, força e vontade em todos os demais lugares do corpo e da alma são capazes. Nas pernas de Alex não havia alegria, que isso não é coisa de homem. Havia a força que as coisas têm quando têm que acontecer. A zaga do Corinthians ficou mais Odara que Caetano enquanto o menino driblava o mundo e escoiceava a bola, as desigualdades e as injustiças de que padece o futebol dessa província que os podres poderes insistem em transformar num império colonial. Depois de derrubar a invencibilidade de um Corinthians de Viola, Rivaldo e Tupãzinho, era a vez de Casagrande e Renato Gaúcho conduzirem o favoritíssimo Flamengo à impiedosa faca de Chuky, o brinquedo assassino, que era como se conhecia o improvável monstro criado pelos sonhos rubronegros baianos daquele ano.

E se o caro leitor vinha achando que a nação, a juventude cara pintada, a democracia, nacionalização e os sonhos de antanho eram menções a qualquer coisa que não à única coisa sobre a qual se deve falar nesses dias decisivos para o país, que vá curar suas ilusões em boas doses de Valdick Soriano porque ninguém aqui merece o desgosto de ter o rosto molhado por suas lágrimas. Esta crônica não é sobre tristeza ou solidão ou tampouco sobre os rumos da política do Brasil. É sobre sonhos. Sonhos como o daquele povo que lotava a velha fonte pra assistir cada apresentação de um Vitória que não se apequenava e a ninguém chamava de senhor, porque ninguém é senhor de ninguém. Bem mais do que espectadores, aquela massa fez merecer o apelido de juventude cara pintada justamente por tomar parte na luta. Como tupinambás furiosos, os sonhadores que lotavam a velha fonte, assim como o novo Barradão, iam juntos com o Brinquedo Assassino destruir o homem branco conquistador, na base da antropofagia.

Aquele Vitória era um sonho. Sonho inconsequente e megalomaníaco como o que fez o time ir atrás do tetracampeão Bebeto, a quem se juntaram Túlio, Chiquinho e outros craques que os comentaristas da época, assim como os de hoje, diriam que não estavam ao alcance do time. Não há comentaristas nos sonhos, graças a Deus! O sonho é livre desses idiotas da objetividade, que nunca saberiam explicar a vinda de um jovem contratado do Real Madrid, que marcaria pra sempre o futebol de Pindorama e forçaria os tais papagaios a aprenderem não apenas a difícil pronúncia de seu nome, como também a evidente percepção de que a Bahia que é do Vitória e não o oposto.

Só em sonho o Vitória procuraria o Porto para buscar a contratação de um de seus atacantes titulares, que o presidente do Flamengo, meses antes, teria ido pessoalmente a Portugal tentar repatriar, sem sucesso. Pois aquela geração sonhava e produzia monstros como foi o Vitória de Artur, rei de uma távola redondíssima em que Cláudio, Fernando, Tuta, Fábio Costa, Rodrigo e Leandrinho ensurdeciam o mundo com a ópera de Toninho Cezero, conquistando um merecido, irreverente e imprevisível terceiro lugar no brasileirão de 1999. Devaneio mais irreal e improvável que este, talvez, seja apenas disputar a final da Copa do Brasil de 2010, com um elenco compatível com o meio da tabela de uma série B, mas com uma vontade monstruosa, daquelas que só os sonhos produzem.

O problema do Vitória, nessa quase finda década que, pra a gente, nem começou, não é o técnico, o elenco ou mesmo a diretoria. Tanto assim que pouca gente trocou tanto essas variáveis, em tão pouco tempo, sem mudar a constante de sofrimento e ultraje que têm sido esses já tão longos dias maus. O problema é que essa geração não quer sonhar. O time se acostumou a viver um dia após o outro e manter um técnico enquanto ele conseguir ganhar em casa, empatar fora com quem for mediano e perder de pouco pra quem estiver bem. Puseram cabresto nas expectativas do time e há tempos são os jovens que adoecem. Muitos temores nascem do cansaço e da solidão e estes têm sido o tom do descompasso e desperdício com os quais a diretoria, seja ela qual for, vem gerindo seus (nossos) recursos. Governados pela opinião de quem esconde seus reais intentos, engolindo a ousadia e evitando o perigo, todo mundo vai pra a arena com medo de perder e monta um time básico, que respeite as leis da física, da economia e viabilidade.

Sem querer dar uma de vizinha metida a médica que tem sempre uma receita pra qualquer que seja o mal, ainda que a medicina ocidental tenha fracassado em curá-lo, mas com mais receio ainda de ser cobrado pela omissão quando chegar o Tribunal de Cristo com a missão de cobrar de quem tinha o que dizer e não falei, assevero que o Vitória precisa voltar a crer no seu destino. Pobre só come o que presta quando ele mesmo planta ou cria. É o caso. Quem vier de fora, tem que vir trabalhar para – e não em lugar de – quem é nosso. Pra ser grande como nasceu pra ser e ganhar o que nunca teve, só com a valentia de quem não tem o que perder. A conversa é besta, mas a conta é simples: Põe na base a esperança dos resultados improváveis e nas contratações a pressão do cotidiano. Contratar jogador mediano pra compor elenco é a morte da esperança.

É preciso voltar a fazer o óbvio, enquanto ele ulula: com o pouco que se tem pra contratar, urge trazer os poucos com potencial pro brilho. Deixa as áreas opacas pra quem é da casa e precisa aprender com o banco, as oportunidades de fim de jogo e a experiência de quem chega. Trazer um monte de meia-boca só serve pra deixar a base com fome e pra sonhar, segundo minha vó, é preciso dormir de barriga cheia.

 

Foi com um sonho que Martim Luther King fez toda aquela presepada e resolveu na base da conversa um problema histórico quem nem meio mundo de bala tinha conseguido consertar. Oportunidade aos garotos da base e o reforço de poucas e boas contratações sempre foi a receita de nossos melhores resultados. E nem se diga que isso era no passado e que as coisas mudaram porque agora é diferente e tem negócio de coisa de história de não sei mais o quê. Sonhos não envelhecem. ao contrário dos pessimistas e idiotas que, a cada hora que passa, ficam dez semanas mais chatos, burros e próximos da morte.

 

Em um tempo no qual a verba de televisão do Vitória é cinco ou seis vezes menor do que a de outros times que disputam o mesmo campeonato; em que o nosso orçamento global se compara aos gastos com divisão de base de alguns de nossos rivais, ou a gente volta a crer no impossível e ir atrás dele com a gana que só o sonho é capaz de gerar ou nos habituamos à tirania da mediocridade, com a qual não combinam brasileiros corações. Já passou bastante da hora do Brasil e do Vitória, que são duas faces da mesma moeda, aprenderem que se as coisas são inatingíveis, isso não é motivo para não querê-las. Que será dos caminhantes, sem a mágica presença das estrelas?!

Não haverá um super-homem que faça mudanças imediatas por aqui, mas, sim, eu acredito na rapaziada que não tá na saudade e constrói a manhã desejada. O problema é que eu não faço ideia do que o Vitória tem desejado. Ninguém faz ideia de quais são os rumos ou fins do planejamento atual ou da evidente falta dele. Aliás, faz é tempo que o Barradão só é ocupado por tédio e enxugamento de gelo, sem propósitos ou mistificações. E é justamente das ocupações que vêm os sonhos, como ensina o Pregador (Elesiastes 5:3), que também ensina a achar a voz do tolo sempre onde se encontra a multidão de palavras. Que o Vitória troque o tédio pelos sonhos dessa juventude de que ele tanto precisa, deixando de ser o paraíso dos comentaristas, empresários e verborragistas de toda ordem. Se esta geração não quis sonhar, que sonhe a que há de vir!

 

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