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DIANTE DO RACISMO NÃO CABE TERGIVERSAÇÃO

outubro 23, 2017

Sob o véu do clubismo, que obnubila a visão, alguns torcedores do Vitória têm sacado do coldre os mais diversos argumentos para tentar defender o acusado de crime de racismo ontem na Fonte Nova.

Primeiro, levantaram a lebre da simples troca de xingamentos. “É do jogo”, disseram, esquecendo-se de que já passou da hora de pararmos com esta história de que no estádio os códigos são outros, que tudo pode. Não, não pode. Futebol não é salvo-conduto para atos contra a dignidade humana.

Depois, óbvio, começaram a questionar a vítima, como se alguém, depois de vencer um clássico desta importância, fosse sair do jogo chorando, literalmente, só pelo prazer do teatro.

Por fim, teve também quem apelasse para o seguinte argumento. “Ele não ia cometer um ato racista, pois o pai é rasta e, ele mesmo, é negro”.

Este tipo de defesa chega quase a ser engraçada se não fosse trágica, pois olvida o processo de branqueamento que ocorre no futebol, e não só nele, óbvio, quando se começa a ter alguma ascensão social.

A propósito, lembro de um episódio narrado por Mário Filho no clássico “O Negro no Futebol Brasileiro”.

O irmão mais velho de Nelson Rodrigues nos conta que dois jogadores do Fluminense, Orlando Pingo de Ouro e Robson, estavam num carro quando um casal apareceu, do nada, na frente do veículo. Na freada, Orlando bateu a cabeça no para-brisa e, ato contínuo, começou a desferir ferozes impropérios racistas.

Para tentar acalmar o amigo, que queria trucidar o casal, que era negro, Robson largou a seguinte.

“Faz isso não, Orlando. Eu já fui preto e sei o que é isso”.

Então, é isso. Se o jogador do Vitória não cometeu o ato racista, basta que ele diga clara e TEXTUALMENTE. “Não xinguei ninguém de macaco. Pronto”.

O que não pode é ficar tergiversando. Diante do racismo não pode existir tergiversação.

E, mais, galera Rubro-Negra. O ato de lutar e denunciar barbaridades que tenham sido cometidas por jogador de nosso time não nos faz menos torcedor. O inverso é verdadeiro.

Por tudo isso, entendo que a pior derrota nem foi perder o clássico (é do jogo), mas sim diante destas tergiversações, constatar, tristemente, que a chaga do racismo está incrustada de modo indelével no futebol. E não só nele, óbvio.

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