FUTEBOL DE PRIMEIRA: NÃO É PROIBIDO SONHAR

Antes de começar a mais aguardada, abalizada, vilipendiada e aliterada resenha do Norte e Nordeste de Amaralina, devo, por compromisso com minha consciência, fazer uma confissão. Este cansado, rouco e realista locutor não possuía mais a esperança de testemunhar um bom futebol nas pelejas da segundona. Já estava conformado em ser apenas campeão, mesmo que praticando o ludopédio em um nível, no máximo, meeiro.

Humildemente, pensava que na vida, assim como no futebol (o que dá no mesmo), nem tudo pode ser perfeito, nem tudo pode ser bacana. Como diria o filósofo Benito de Paula: ou bem assoviava na praça ou chupava (lá ele) cana. Porém, na inolvidável noite de sexta-feira, no fechamento do primeiro turno, o Vitória me deu mais do que eu esperava: mostrou que não é proibido sonhar.

E a demonstração cabal de que a utopia era uma possibilidade ocorreu antes mesmo da bola rolar. Em vez de apostar na esforçada burocracia de Amaral, aquele jogador que não entende a vida sem dificuldade e transforma um simples passe num parto, Mancini teve a coragem de arriscar suas fichas na quimera da juventude. Sem poder contar com o instável Rogério e na falta do ausente Pedro Ken (um amigo costuma dizer que este sujeito parece estar eternamente pegando ritmo de jogo), o técnico decidiu formar a zona do agrião com os meninos David e Flávio.

E apostar, no caso, não é apenas uma figura de linguagem. Aos hereges que não acreditam em simbologia e acham que tudo foi apenas e tão somente fruto do acaso, lembro que o homem da casamata entregou o manto com o número 10 para David.

No entanto, o primeiro a brilhar foi o tão injustamente criticado Flávio. Seguinte. O juiz nem tinha apitado direito o início da partida e ele já estava fazendo um lançamento diabolicamente milimétrico para o imprescindível Rhayner. Pênalti. E saco. Escudero guardou com a classe que lhe é habitual. Pouco tempo depois, sem esperar nem eu ingerir direito a canjebrina na comemoração, o menino David fez um cruzamento milimetricamente diabólico na cabeça de Elton. Barbante.

O jogo já estava praticamente decidido, mas os guris não aquietavam o facho. Correria e categoria no volume 600. Ao perceber que ali, na direita do ataque do Vitória, finalmente, se praticava futebol, Escudero, que num é menino, deslocou-se para lá. E ficou regendo o setor com maestria. Foram 45 minutos de magia. Era tudo de PRIMEIRA. O Leão conseguia unir a vitalidade e o talento dos meninos da base com a genial experiência do raçudo argentino. Colírio para os cansados olhos rasos d’água deste emocionado locutor.

Dizem os inescrupulosos e insanos idiotas da objetividade que existiu um segundo tempo. Não acredito – até porque depois dos 45 minutos iniciais, não vi mais nada, pois, como bem disse o poeta Manoel Bandeira, os céus se misturaram com a terra e o espírito de Deus voltou a se mover sobre a face das águas.

Tudo isto é verdade e dou fé. E líder, como todos sabem, tem fé pública.

 

P.S Esta homilia vai em homenagem aos Rubro-Negros Ana Cláudia, Luciano Santos (este último autor do livro sobre o BARRAQUISTÃO), que no sábado estavam em Cachoeira tomando banho de ARRUDA, e também para Mateus, Rodrigo e Juca que sonham & lutam por dias menos trágicos na maltratada questão ambiental na Bahia. 

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