UMA MARCA HISTÓRICA

Ontem, após publicar as prosopopéias sobre o último Ba x Vi, me dei conta de que estava chegando à marca de 5oo rabiscos nesta intimorata emissora. Apesar de nunca me importar com efemérides, pensei que este momento  deveria e merecia ser comemorado de forma séria, na ampla e boa acepção da palavra.

Porém, assim, de modo rápido, não veio nada em minha mente no descalabro do futebol atual que merecesse destaque. Aí, me lembrei que escrevi hoje um texto especial para o Jornal Sul 21 sobre um raro caso de dignidade e firme delicadeza no hostil cotidiano.

Então, apesar de não ser sobre futebol, resolvi abrir uma exceção e compartilhar o texto aqui, pois a atitude deste cidadão serve de exemplo para que possamos aplicar em todas as áreas de nossas vidas. Já imaginaram se os dirigentes de nossos clubes agissem com tamanha dignidade? Com vocês,

AILTON DA SILVA SANTOS: O MOTORISTA DO 1636

 

rggrggreg | Foto:

Por Franciel Cruz

Especial para o Sul21

Os brasileiros, acostumados a tantas e tamanhas tragédias, se espantam sempre diante de atos serenos e firmemente dignos. Na última segunda-feira, dia 17, por exemplo, enquanto o país, atônito e impotente, testemunhava a brutalidade cometida pelo Estado, por intermédio da PM, contra Cláudia da Silva Ferreira, um motorista, quase que de modo anônimo, dava-nos uma surpreendente lição de que ainda há espaço para a tenra, mas firme delicadeza no desmantelo do cotidiano das grandes cidades.

Ailton da Silva Santos, o motorista do ônibus 1636, que muitos pensavam que era apenas uma ficção, ao contrário dos que acham que se pode arrastar cidadãos pelas ruas impunemente, fez o caminho inverso. Ao ver uma senhora adentrar o buzu com um filho no colo, falou a seguinte frase que merece ser repetida. “Só sigo viagem se derem lugar a esta senhora”.

Esta sentença, a princípio, pode parecer algo banal, mas ganha outra relevância quando se sabe que ela foi proferida no horário do rush, com os nervos à flor da pele e no caótico trânsito de Salvador, terceira maior capital do país. (Segundo dados do IBGE, em 1º de julho de 2012 a capital baiana possuía 2.710.968 milhões de habitantes)

É fato que todo o Brasil tem uma relação de tensão com o transporte coletivo, mas aqui na Bahia o quadro, historicamente, tem proporções alarmantes, de literal revolta. No início da década de 1930, a população, inconformada com o aumento da tarifa, promoveu o Quebra-Bondes, queimando cerca de 80 veículos, o que representava 2/3 da frota. Além disso, cercou a casa do prefeito e do secretário de segurança pública, num confronto que terminou com a morte de quatro pessoas. A empresa responsável pelas linhas, a Cia. Circular de Carris da Bahia, acionou o governo e retirou todos os veículos da cidade, deixando a população apenas com o caótico e incipiente serviço de ônibus.

No início da década de 1980, a insatisfação se volta exatamente contra os buzus. Mais de 600 foram destruídos e três pessoas morreram. Por conta dos péssimos serviços, Salvador foi pioneira também nos protestos recentes que tomaram conta do país, tendo sido palco em 2003 da já antológica e combativa Revolta do Buzu.

Para que se tenha uma ideia da gravidade do problema do transporte coletivo de Salvador, a capital baiana é a que possui a menor frota entre as maiores cidades do país, cerca de 2.500 ônibus para uma população de quase 3 milhões. (Não é possível fornecer dados corretos porque, depois de várias ligações e mais de 40 minutos de espera, ninguém na Transalvador soube especificar a quantidade de ônibus circulando na cidade).

Foto: kdkds

O fato, porém, é que a relação de veículos por habitantes é de apenas 0,9 em Salvador, quando em cidades com população menor e com metrô, como Brasília, atinge 1,5.

Foi também por conta de todo este histórico e deste caldo de cultura que a atitude de Ailton Santos, simbolizada naquela frase “só sigo viagem se derem lugar a esta senhora”, ficou martelando minha cabeça durante os últimos dias. E decidi saber quem era este personagem que teve a audácia de contrariar a lógica perversa do confuso e violento trânsito de Salvador.

Porém, conversar com Ailton da Silva Santos é extremamente complicado, não por conta de sua quase pueril simplicidade, mas principalmente porque sua vida é, literalmente, corrida. Não são raras as vezes em que ele tem que trabalhar dobrado, o que significa uma carga horária de 14 horas, para complementar o salário base de R$ 1.600,71, que usa para sustentar seu filho de quatro anos e mais duas filhas, uma de 9 e outra de 19.

Por isso, somente no último sábado, dia 22, foi possível ouvi-lo durante breves 15 minutos, entre o almoço e sua próxima corrida, no fim de linha de Matas dos Oitis, conjunto afastado distante mais de 20 Km do centro da cidade. Ele não falou nenhuma informação bombástica, nada que ilustre as manchetes de jornais sedentos de sangue, tragédias e ações espetaculares. Porém, contou algo extremamente relevante para quem se importa com coisas fora de moda, como delicadeza e preocupação com o próximo. Às breves aspas.

“Tenho 38 anos e comecei a dirigir faz mais de 15, por influência de meu irmão. Em todo este período, sempre repito aquela frase, pois sei que transporto vida. Não podemos sair arrastando as pessoas”.

Esta nova declaração de Ailton, me fez lembrar de Amilton dos Santos, tratorista que, no início da década passada, mais precisamente no ano de 2003, se recusou a cumprir uma ordem judicial de derrubar casas de pessoas de baixa renda. Por ironia do destino, em 2011 Amilton trabalhava exatamente na terraplanagem para as construções do programa Minha casa, Minha Vida.

Estes dois personagem, apesar das diferenças de seus atos, mas com sobrenome em comum, mostram que o Brasil, tão acostumado a bajular as árvores genealógicas forjadas nas capitanias hereditárias, deve acreditar mais e aplaudir os seus dignos “Santos” do cotidiano.

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3 Respostas to “UMA MARCA HISTÓRICA”

  1. Jose P. de Araújo Says:

    Fazia tempo que você não escrevia uma coisa boa. Parabéns!!

  2. Mirtess Says:

    Pô, José, vc detonou seu Francuel. Rrss.

  3. Mirtess Says:

    Vicetória que será tamemm. Lepo lepooo.

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