PROFECIA CUMPRIDA*

* Texto escrito na quarta-feira passada, dia 17 de  julho, e  publicado no brioso Impedimento

O Galo já ganhou

Agora, fiquei na dúvida. Não sei se sempre fui sovina ou se o fato de torcer pelo Esporte Clube Vitória, equipe que tem irremediáveis desavenças com glórias contínuas, me fez assim, insuportavelmente mesquinho. Pouco importa. A verdade é que, desde priscas eras, quando o Leão não está disputando o caneco (o que é uma praxe), guio-me pela seguinte e perversa sentença: “Feijoada que não posso comer, boto o dedo pra azedar”.

Antes, porém, que algum incauto comece a pensar que o título que emoldura estes rabiscos é apenas uma sacanagem de um secador inveterado, faz-se mister esclarecer que o inverso é o verdadeiro. Acredito piamente que o Atlético Mineiro já é campeão. É fato que se eu fosse um tantinho mais canalha, me precaveria de quaisquer contratempos futuros, recorrendo logo àquela prosopopeia que Paulo Emílio Salles Gomes largou sobre Glauber Rocha. “Um profeta não tem a obrigação de acertar, tem obrigação de profetizar”.

Mas hoje não é o momento de dúvidas ou dissimulações. Repito. Creio piamente na vitória antecipada do Galo Mineiro. Aliás, é mais do que crença. É uma convicção, certeza, ou melhor, um axioma, uma verdade histórica que pode ser efetivamente comprovada com esta simples pergunta:

– Minha comadre, sem consultar o oráculo, responda de bate-pronto qual foi a equipe campeã de 1954?

Pois é. Estão vendo aí. A distinta senhora não lembra quem levantou o caneco naquele glorioso ano da graça, mas sabe perfeitamente, inclusive capricha no sotaque, os nomes dos companheiros de Ferenc Puskás que saíram da copa para entrar na história. Gyula Grosics, Zoltán Czibor, Sándor Kocsis, Nándor Hidegkuti e József Bozsik. E também recorda com carinho que a esquadra comandada por Gusztav Sebes conseguiu brocar a até então invicta Celeste, além de meter 8 x 3 na própria Alemanha Ocidental, equipe que registrou o nome nos livros da impoluta Fifa.

Pois bem.

O mesmo fenômeno ocorre em 1974. Sim, é fato que neste ano alguns podem até se lembrar da galhardia de Franz Beckenbauer ou do bigode de Breitner, mas o que realmente entrou para a história foi a briosa Holanda, comandada por Rinus Michels, que aplicou em escala mundial o sistema de Cambuizinho da Seleção de Irecê. Qual? Este, ó. “Um time deve subir e descer igual ao Elevador Lacerda e abrir e fechar como uma tesoura”.

(Pausa para reflexões táticas)

Voltando, poderia ainda trazer à baila a Seleção de Telê Santana de 1982 e, principalmente, por questões afetivas que me cabem neste latifúndio, o Esporte Clube Vitória de 1974, de André Catimba, Osni e Mário Sérgio.

Mas, chega. Hoje é o dia de tratar do Galo. E a atual equipe do Alvinegro das Alterosas começou a colocar seu nome na história logo na primeira partida contra o (ex) todo-poderoso São Paulo.

Seguinte foi este. O ponteiro do relógio marcava 12 minutos e caqueirada quandoRonaldinho Gaúcho pediu um copo de água a Rogério Ceni. Assim como naquele gol de falta nas quartas de final contra a Inglaterra, em 2002, é impossível saber se ele fez de malandragem ou involuntariamente, mas o fato é que, depois de saciar a sede, o sacrista ficou na zona do agrião, recebeu o passe na cobrança de lateral e só teve o trabalho de passar a bola para Jô marcar o primeiro e já antológico gol do time de Cuca. A partir daí a mística já estava criada. Além de ter fôlego para superar os bolivianos The Strongest na altitude, os atleticanos marcaram a fase inicial com duas goleadas contra o Arsenal da Argentina.

Já os três últimos confrontos diante do tricolor paulista serviram para dar contornos decisivos às principais características de todos os times mitológicos: desleixo (quase arrogância) na derrota por 2 x 0. Sorte e estupidez do (zagueiro) adversário no primeiro triunfo do mata-mata. E, por fim, a reverência ao sublime na goleada em Minas Gerais.

Das labutas contra o Tijuana e o Newell´s Old Boys, nada mais pode ser dito para que as palavras não saiam humilhadas diante dos feitos inolvidáveis.

Pois muito bem.

Tudo isso, toda esta insana trajetória, serviu apenas para que agora possamos afirmar sem medo de qualquer equívoco que o Galo já é o Campeão. E esta conquista ocorrerá independentemente do resultado final contra o Olimpia.

Afinal, este Atlético de 2013/Libertadores é daqueles times que se tornam vencedores, campeões, ganhe título ou não. É uma equipe que faz uma constante e cotidiana ode ao futebol, com o que ele tem de mais perverso e belo.

E fodam-se todos os que acham que o caneco, a taça, é maior do que o próprio futebol.

Não adianta. Esta peleja o Galo já ganhou

P.S Na verdade, hoje eu ia torcer para o Olimpia – até porque um time que joga num Estádio com o nome do Defensores del Chaco merece ganhar tudo. Porém, como num aguento mais ouvir o chororô dos atleticanos, mudei de ideia.

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9 Respostas to “PROFECIA CUMPRIDA*”

  1. Tiago Says:

    Eu ‘seu’ françuel, te vi la nas proximidades da fonte nova (arena 51) no ultimo javi. By the way ótimo texto. Como (quase) sempre!

  2. Haroldo Mattos Says:

    Este Lider que não aparece… Kkkkkkkkkkk! Não gosto do Atlético. Queria que o Olímpia ganhasse! Já que não ganhou… 😉

  3. moises sales Says:

    puta que pariu a profecia com semanas de antecedência… se eu fosse atleticano (fui dormir depois do primeiro tempo bisonho deles) emoldurava esse texto.

  4. anonimo Says:

    TODO TORCEDOR DO VICETORIA E INVEIJOSO, PORQUE NUNCA PARTICIPARA DE UM LIBERTADORES SOU BAHEA E TORCI FERVOROSAMENTE PARA O GALO SER CAMPEAO SO MESMO TIMES ILUSTRES QUE CONSEGUEM ENTRAR NA LIBERTADORES CHORA CAMBADA SEM GRAÇA E SEM HISTORIA AVANTE GALO VINGADO E TRAGA O MUNDIAL EM MARROCVOS CONTRA O BAYER DEE MUNIQUE.

  5. Moreré Says:

    Frincielson, mais uma pérola para os leitores dessa choça. Quem ganha é o futebol, mesmo! Quem não se renderia as pelejas atleticanas nas três últimas partidas na Libertadores? Maravilhosa conquista de um time com um histórico de sofrimento e injustiças no panteon do futebol.

  6. Juquinha Says:

    Será que foi Tonho Matéria quem batizou o estádio do Olimpia? Ele que defendia o tchaco, em cima e embaixo

  7. Haroldo Mattos Says:

    Todo torcedor do Jahia é viado.

  8. robson leão Says:

    Não posso afirmar que torci para o Galo.

    Torço pelo Vitória (não gasto minhas forças nem para torcer pela seleção).

    Em todo caso, gostei da conquista atleticana.

    Sempre que um clube fora do eixo rio são paulo tem uma conquista, é reduzida a influência daqueles clubes no respectivo estado.

    Enquanto apenas 2% dos gaúchos torcem para times de fora do estado, 60% dos baianos torcem para outros clubes.

    Por que torcer contra o Galo ??? Para beneficiar os clubes do eixo ???

  9. Haroldo Mattos Says:

    Não Robson. A torcida do Atlético é historicamente contra o Vitória, voce não sabia disto? Já passei maus bocados por duas vezes lá em BH. Caso fosse o Cruzeiro, que sempre nos recebe de forma educada, teria torcido por ele. Mas o Atlético tem mais que se fuder. Também não torço, assim como voce, a favor de nenhum clube além do Vitória (Ypiranga apenas por razões profissionais), Mas tem alguns que torço contra. Flamerda, Curinthians e Patético/Mg, são os únicos perco meu tempo. Para secar….

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