FIAT LUX

É automático. Não importa o adversário. Basta o Vitória brocar o primeiro gol numa peleja qualquer – e este angustiado locutor saca logo do coldre o inexorável Cepacol, gritando em 18 idiomas: “DESLIGA O REFLETOR, DISGRAMA”.

Este brado retumbante de galhofa e desespero (sim, no Leão, galhofa e desespero convivem de modo harmônico) é uma espécie de antídoto contra as traquinagens que por (des) ventura o Rubro-Negro venha a aprontar logo em seguida. E como apronta. Minhas maltratadas pontes de safenas (ainda) estão aqui para não me deixar mentir.

E quando o jogo é fora de casa, então, ave maria, pai nosso três mil vezes, bato na madeira, banho de folha de arruda e ajoelho imediatamente no genuflexório, implorando ao santo operador do sistema nacional de energia elétrica que providencie logo mais um apagão geral, um blecaute, um corte em todas as linhas de transmissão das usinas hidrelétricas, termelétricas e do caralho aquático. “DESLIGA TUDO, PORRA!!!”

Mas, agora, neste MOMENTO EMOCIONAL, respiro e  informo: Ontem foi diferente.

Logo cedo, contrariando minha religião, saí do obsequioso silêncio e, num ato de quase soberba, fiz questão de relembrar e registrar aqui nesta impoluta tribuna o último triunfo do Vitória pelo Brasileirão no sempre assustador (em todos os sentidos) estádio dos Aflitos. Tal glória havia ocorrido no longínquo e inolvidável ano da graça de 1993 – época em que o medo não habitava os corações Rubro-negros. Naquele tempo só existiam espaços para a loucura, psicopatia, caos e esperança.

E foram todos estes insanos sentimentos que se repetiram na noite de ontem no sempre assustador estádio dos Aflitos.

É fato que a peleja começou tensa. O menino Gabriel (Gabriel, Gabriel, olhe sua vida) inventou de sair jogando a la Luís Pereira e quase entrega a rapadura. Porém, nem mesmo no tradicional vacilo de nosso zagueiro fiquei agoniado. Não que eu queria posar de profeta (até porque não combina com minha incurável modéstia), mas o fato é que já antevia, tinha uma inconsequente certeza de que haveria repetição de 1993. 20 anos esta noite. (Aos descrentes, recomendo clicar neste LINQUE do texto anterior).

No entanto, devo confessar que o soneto saiu melhor do que a merenda (ou coisa que o valha. Nunca fui bom em metáforas). O fato é que aos 12 minutos, MAXI BIANCUCCHI (deixa tudo em caixa alta, revisor sacana) dominou a criança na coxa e, com a convicção dos predestinados, mandou a menina  cochilar no canto esquerdo do barbante.  Nem mesmo a sequência de gols perdidos abalou minha fé.

Já havia se feito a luz e o espírito de Deus se movia sobre a face das águas. Desculpem-me o apelo à imagem divina, mas é que não consigo vislumbrar outra coisa para explicar aquele golaço do menino Edson Sidney Magal no apagar dos refletores do primeiro tempo. Ao testemunhar aquela obra-prima, tal e qual um Goethe do Sertão nos seus últimos momentos, balbuciei em castiço alemão: “Licht, mehr licht”.

E, na segunda etapa, o impossível aconteceu: fez-se luz, mais luz, como queria o poeta germânico.

Menos de cinco minutos de bola rolando, e MAXI BIANCUCCHI (não ouse profanar este nome santo, revisor fidumaégua) guarda o segundo dele – não sem antes entortar a cervical do zagueiro pernambucano. Aliás, se em Recífilis não existir ortopedistas gabaritados, depois daquele nó, o referido atleta ficará inutilizado para a prática do ludopédio.

Pois muito bem.

Apesar da ampla vantagem no placar, os marcadores do Vitória continuaram fuçando no cangote dos adversários. Corriam para a bola com a mesma disposição que um servente de pedreiro vai num prato de comida depois de 18 horas de labuta. Na meiúca, a cadência bonita do samba. Já na zona do agrião, os atacantes mesmo sem a volúpia inicial continuavam infernizando a frágil defesa do Timbivisky (Vá fazer rima na casa da zorra).

Enfim. Uma partida que deve ficar guardada na memória de todos os torcedores, mas que não pode ir apenas habitar o arquivo. Deve ser sempre reprisada antes dos jogos para que todos se lembrem, ad infinitum, como é que se faz a luz.

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7 Respostas to “FIAT LUX”

  1. Marcus Gusmão Says:

    Do caraio.

  2. Deivid Says:

    Se gato já põe medo em rato, imagina um LEÃO FAMINTO seu Françuel???

    SRN

  3. Newton Barreto Says:

    Você é o cara !! kkkkkkkkkkkkkkk

  4. Marcos A. Guimarães Says:

    kk

    Rapaz. Você não estava no auge de sua inspiração quando fez esse texto. Nem de longe chega aos pés daquele feito depois de um 7 a 3 onde o sr.biancuchi com gosto de querosene na boca brocou o co-irmão representante baiano do brasileirão.

    Lembrando do filme “O Maskara” o qual lembra o sr.nino paraíba (ou seria o contrário), esses jogadores precisam encarar todos os jogos do mesmo jeito, ou seja, SEM BRINCADEIRAS. O Sr. Nino maskara paraíba ghosta de brincar muito. Aliás, ontem vi diversos ataques do Timbivisky pelo setor dele.

    Grande Abraço.
    Marcos.

  5. Etiene Falcão Says:

    Tirando o menino Fabrício e o seu desejo irrefreável de entregar o doce, foi um jogo que só os pernambucanos ficaram aflitos

  6. Marcio Melo (@marciosmelo) Says:

    Recífilis uhahaauhuahuha nunca mais a capital pernambucana será a mesma para mim depois deste texto, a luz foi feita, criada e homologada!

  7. Pedro Alburquerque Says:

    Excelente texto, Franciel.
    Você fez uma mistura perfeita sobre a contradição entre luz x escuridão para tratar de nosso Leão. Parabéns.

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