Em busca do Clássico perdido

– Infelizmente, chefe, não posso resolver isso agora. Não, não dá. Preciso ir com urgência para o BA, BA, BA… (visualizem a nervosa gagueira), para o BA…nco. Afinal, com estes juros escorchantes é impossível atrasar o pagamento das contas.

Antes que o Sr. Burns aquiescesse, larguei o desajeitado xeque-mate.

– Ah, sim. Talvez demore um pouco para retornar à labuta porque as filas bancárias, sempre levianas, estão mais lentas do que a zaga do Bahia, especialmente neste início de mês.

–  Ahn? Começo de mês em pleno dia 14, seu Françuel? Só se você for adepto dos reticentes calendários das ultrapassadas borracharias de ponta de rua que nunca mudam de página e ainda ostentam a formosura de Nádia Lippi.

(Aí, aquela dentucinha, senhores…)

Voltando.

Depois desta prosopopeia que o homem do contracheque largou, com seu senil sarcasmo de antanho, minha maltratada reputação aqui na firma despencou mais do que as ações das fictícias empresas de Eike Batista.

Sim, amigos de infortúnios, sei que deveria ter buscado uma desculpa mais plausível. Porém, o ponteiro do relógio já marcava 14h23 e minha catilogência, carcomida por canjebrinas e outras substâncias não recomendadas pela Carta Magna, estava no brejo há tempos. Além disso, informar que iria para enterro de parentes não colava mais – até porque, por conta deste inescrupuloso calendário do futebol baiano, eu já havia podado toda a minha árvore genealógica.

Mas, enfim. Melhor perder o resto de reputação do que a peleja final do campeonato baiano sub-20 que começaria exatamente às 15h.

PUTAQUEPARIU A PONTUALIDADE.

Pois bem. Quando cheguei no Barradão, com oito minutos de bola rolando, a torcida do Vitória já estava proferindo uma quantidade de xingamentos de deixar Dercy Gonçalves ruborizada. Apesar de o Leão ter vantagem de dois gols (venceu a primeira por 3 a 1), cada palavrão vindo da arquibancada era merecido e necessário, pois era uma peleja fundamental.

Por que fundamental?

Ora, vocês, que vivem nas metrópoles centrais de Pindorama, e estão sempre se lambuzando com títulos nacionais e/ou de Libertadores, jamais entenderão a importância de uma peleja final de uma divisão de base para nós que habitamos a periferia do Ludopédio.

Caso estivesse de calundu, sacaria do coldre o velho axioma que Louis Armstrong usou quando foi questionado sobre a serventia do jazz. “Man, if you gotta ask, you’ll never know”.

Porém explicarei uma vez mais.

Seguinte.

Ver um jogo do Sub-20, para os suburbanos corações, é uma das raras oportunidades de poder apreciar um (possível) craque vestindo o nosso manto antes de ser abduzido pelas dores e delícias do vil metal. E foi por conta desta busca insana que pudemos testemunhar Dida, Alex Alves Vampeta, Leandro Domingues, Paulo Isidoro, Marquinhos, David Luiz, Hulk (epa, este é um perna de pau bafejado pela sorte) e muitos outros defendendo nossas cores. Pode parecer uma glória pequena, mas é uma das poucas que nos restam nestes tempos tenebrosos em que, mais do que nunca, a força da grana ergue e destrói coisas belas.

Mas, derivo. E volto logo para encerrar esta prosa ruim informando que na tarde desta terça-feira havia muito mais em jogo. Os torcedores enfrentaram a inconsequente chuva, os buracos da cidade e o escárnio dos patrões em busca de algo fundamental que está ameaçado de existir: Um Ba xVi.

E a busca pelo clássico perdido não foi em vão. Os meninos, dos dois lados, honraram o derby. Partida pegada, dura, bem disputada e até com declarações de amor. Quando brocou as redes tricolores, o atacante Mauri, que conhece muito, correu para o escudo do Vitória, ajoelhou-se e beijou o chão onde está o sagrado símbolo do Clube. (E pouco me importa se o beijo é a véspera do escarro, menino Augusto dos Anjos)

Porém, o melhor ainda estava por vir. Quando o juiz marcou um pênalti não muito católico, os guris tricolores, ao contrário dos profissionais, mostraram que têm BRIOS. E armaram o maior FURDUNÇO. Meteram dedo na cara do juiz, voaram pra cima do bandeirinha, xingaram, provocaram, um foi expulso, o caralho aquático. E a casa só não fedeu de vez a homem porque os meganhas invadiram o gramado e agiram rapidamente.

Uma beleza.

Na sequência, Willie fez o segundo gol e sacramentou o tricampeonato do Leão.

No final, voltamos todos para casa (ou trabalho, no meu caso) enlameados, mas com a alma lavada e enxaguada. Afinal, tão importante quanto à conquista foi perceber que o Ba x Vi, a Mãe de Todas as Batalhas, vive, resiste e ainda pode ser encontrado numa tarde chuvosa de terça-feira.

 

* Texto escrito especialmente para o brioso IMPEDIMENTO

P.S Como bem lembrou meu amigo João Caros Sampaio, agora é torcer para que os pivetes Rubro-Negros transportem esta categoria e este espírito combativo para a Copa Libertadores Sub-20, que já está ali na esquina.

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3 Respostas to “Em busca do Clássico perdido”

  1. Testando Says:

    Testando

  2. robson Says:

    Excelente post.

    Ja saiu a divulgação dos participantes da Libertadores sub 20.

  3. Pescadô de sardinha Says:

    Seu Françuel,
    as tradicionais brigas em Sar-Vi decisivos pode estar ameaçada pelo mercantilismo dos profissionais, mas é uma tradição de juniores, juvenis, infantis e mirins. Já vi muitas, algumas piores do que entre os marmanjos. É a rivalidade de quem vive mesmo os clubes.

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