Réquiem para um Clássico*

Sempre guiado pela descrença, relutei em acreditar até a undécima hora. Porém, quando o ponteiro do relógio cravou 40 minutos da segunda etapa, finalmente caiu a ficha. E o meu mundo também. O Ba x Vi, a Mãe de Todas as Batalhas, não existia mais. A tragédia estava consumada. O clássico acabara de ser assassinado. E o crime ia muito além da dilatação do placar. Era algo extremamente mais grave – até porque uma goleada, num jogo deste naipe, apesar de rara, acontece. Inadmissível é um time ser sovado impiedosamente sem ter a HOMBRIDADE de esboçar qualquer reação, seja uma dedada no fiofó, cuspe na cara ou mesmo um mísero beliscão. Esta inércia é a prova cabal e definitiva de que tal equipe abdicou do desejo de perpetuar a rivalidade. (Eis o crime inafiançável).

Afinal, todos sabem que em uma peleja de tão importante calibre, quando a madeira está gemendo em SETE idiomas, há somente um último refúgio para a dignidade: a pancadaria generalizada. Fora dela não há salvação. Nestes momentos insanamente decisivos, só o tumulto pode restabelecer o decoro e a honradez. O resto é apenas a estúpida covardia travestida de bom-mocismo – exatamente o caminho escolhido pelo time do Bahia para matar o antigo clássico com requintes de pusilanimidade.

É fato que o declínio do império tricolor é anterior à patacoada de ontem. Tem mais de 18 anos. Para ser preciso, a derrocada, ironicamente, começou com uma glória num dia que se tornou um número fatídico para o outrora esquadrão de aço: SETE de agosto de 1994. Neste data, depois de conseguir empatar com o Leão, os torcedores do Bahia, que já possuíam cerca de 40 títulos baianos, comemoraram a suada conquista como se não houvesse amanhã. E eles não estavam totalmente equivocados. Parecia algo premonitório. O amanhã, o day after, tornou-se um pesadelo constante. De lá pra cá, não conquistaram nem cinco campeonatos estaduais. E mais. A partir de então, foi uma agonia atrás da outra. Rebaixamentos, subidas pela janela, humilhações de SETE diante do Santos, Cruzeiro e até do poderoso Ferroviário do Ceará.

No entanto, pouco me importava se meu oponente estava moribundo. Ao contrário. Vibrava e sentia-me vingado por humilhações de antanho. E ficava feliz também porque, apesar de eles estarem num processo degenerativo, ainda encaravam o clássico com a seriedade que tão importante jogo merece. Por mais contraditório que pareça, era uma forma de respeito ao meu Vitória. Era como se, mesmo fragilizados, eles sentissem necessidade de se superar porque havia um adversário a ser derrotado. Ou, na pior das hipóteses, combatido.

Ontem, porém, os tricolores abdicaram de tudo, apelaram para o golpe baixo, para a entrega total, irrestrita e absoluta. Uma clara e nefasta tentativa de levar o Leão para o seu poço sem fundo.

Por isso, entendo que os Rubro-negros não devem gastar seu ocioso tempo pensando ou fazendo gozações de quaisquer espécie. O inverso é o verdadeiro. O torcedor do Vitória que tripudiar do Bahia por conta da goleada de ontem não tem amor próprio. Afinal, zombar do tricolor é dar-lhe um status que ele não tem nem merece atualmente: rival do Leão.

 

Alguns apressados podem argumentar que há muitos rancores nos parágrafos acima. E eles não estão totalmente errados. Até porque, conforme já ensinou o menino Nelson Rodrigues, “a base sentimental da torcida é o ódio, e não o amor. Sem ódio não há torcida possível”.

É por tudo isso que hoje, dia de aniversário do Esporte Clube Vitória, é uma data  CONTRADITORIAMENTE triste (e talvez de renovação) para os torcedores do Leão. Apesar da espetacular goleada, ontem tivemos um revés. Perdemos nosso antigo oponente. E agora teremos que nos reinventar. Seguir adiante sem um rival vai ser uma sopa de tamanco dos SETEcentos DEMÔNHOS.

 

* Texto escrito especialmente para o brioso IMPEDIMENTO

 

P.S. 1 A pista de que o Bahia já havia se despido de BRIOS ocorreu na véspera do jogo (não o chamo mais de clássico em respeito aos derbys de outras localidades). No sábado, o Vitória partiu para o escárnio escancarado, algo impensável antes de um Ba x Vi de antanho. Mandou confeccionar uma CAMISA PROVOCATIVA com o placar da reabertura da Fonte Nova. E qual a resposta do ex-rival do Leão? Um apático e vergonhoso silêncio. Nem uma lágrima de repúdio. E isso me deixou ainda mais puto, com uma ponta de compaixão, que é uma das piores formas de ódio.

P.S 2 Pelo sim, pelo não, ontem cedo fui à Polícia Federal tirar o meu passaporte. Pretendo solicitar asilo político em outro país, sei lá, tipo Alagoas, pois talvez lá ainda exista rivalidade no Ludopédio.

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4 Respostas to “Réquiem para um Clássico*”

  1. Deivid Says:

    Pra mim não houve entrega nenhuma… até quando a gente estava dando de 6, eles ficaram tocando a bola lá atrás como se nada tivessem mais haver com a partida e BROCARAM SEU 3º GOL…

    Pra mim se teve alguma entrega foi da zaga do Vitória.

    Eles “quebraram protocolo” sairam na frente para saudar sua torcida, fizeram um pacto diante do manto sagrado 5×1 e mesmo quando o jogo já estava 3×0 acordaram, meio atordoados é verdade, mas partiram pra cima e conseguiram um golzinho no final do primeiro tempo…

    Pra mim eles esbarraram foi na limitação técnica aliado a uma tarde inspiradíssima de quase todo elenco rubro-negro…

    Até ESCUDERO jogou bola rapaz, pode???

    O que dizer de Dinei? Fez alguma partida perto desta desde que voltou a Vitória?

    E o sonolento Cárceres? Foi um monstro… de bom no jogo.

    Cajá foi outro acima da média neste jogo…

    E o resto pode não ter tido uma tarde inspiradíssima, mas manteve o nível que já vinha apresentando como o Máxi… aquele que tem um primo que joga aí num timeco da Europa…

    SRN

  2. Diógenes Says:

    Menção honrosa para Fahel, que desceu o porrete, foi expulso e ainda saiu chamando todo mundo de veado. Ali eu tive a sensação de estar vendo um baVI. Até então, a sensação era de estar goleando o Poções ou coisa que o valha.

  3. robson Says:

    Concordo com as palavras de Françuel.

    Os Vitorianos das antigas se lembra quie na final do Estadual de 1988, Tonho, deu uma voadeira no jogador rival qdo. o jogo estava de 3 x 0.

    Não defendo a violência, mas é normal um time perder a cabeça qdo. humilhado em um clássico.

    Com exceção de Fahel, os tricolores se comportaram como “Neco”.

    Quem entende ??

  4. Renato K. Says:

    Demorei pra comentar mas não me esqueci da profecia: “primeira-dama, periguete, o seu timinho também vai tomar de sete”. Faltou mencionar isso em algum lugar, não, seu França?

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