Psicólogo e capataz

No início do ano da graça de 2009, mais precisamente no dia 18 de fevereiro, ministrei aqui mesmo nesta impoluta tribuna uma aula magna sobre a função de um treineiro de pebolismo. Às aspas.

O técnico, para quem não sabe, deve servir para as seguintes coisas: ser chamado de professor por pessoas semi-alfabetizadas, falar numa linguagem completamente incompreensível e ser depositário de nossas frustrações. Em resumo: deve ser aquele sobre quem devemos fazer a catarse cotidiana, xingando o desgraçado de forma impiedosa. Não só a ele como também a toda a sua árvore genealógica”.

Pois muito bem.

Quase dois anos depois, em 24 de novembro de 2010, este humilde locutor continuava a ensinar o caminho das pedras para quem quer exercer a inglória função na casamata. Novas e longas aspas, maestro.

O técnico que se respeita é aquele que não atrapalha, não inventa e se equilibra entre as funções de psicólogo e capataz. Sua atuação deve ser a mesma do síndico do filme Edifício Master. Qual seja. Fazer um revezamento entre os métodos de Piaget e Pinochet.

Táticas, teses, teorias, estratagemas, estratégias mirabolantes e outras mumunhas servem somente para enojar e engessar o baba. Aliás, por falar em gesso, eis um relato de como a exorbitação da função (alô, aliteração) de treinador pode ser prejudicial à equipe.

Seguinte.

No final dos anos 70, mais precisamente no ano da graça de 1979, o brioso Rubro-Negro baiano, como sói ocorrer, possuía um timaço, favoritíssimo ao título baiano depois de sete anos de jejum. E, também como sói ocorrer com o Vitória, o projeto da conquista acabou não se concretizando.

Até hoje, os Rubro-Negros culpam o goleiro Gelson, uma espécie de Barbosa da província (que tomou um frango histórico num chute despretensioso de Fito Neves), pelo fracasso. Porém, o verdadeiro vilão tem outro nome: Aymoré Moreira. O título foi perdido bem antes da final quando o treinador, com o status de bi-campeão mundial pela Seleção, começou a se achar mais importante do que o time

Seguinte foi este.

A estrela daquela brilhante equipe era ninguém menos do que o falecido Wilton Cezar, aquele mesmo que se eternizou no Ludopédio de Pindorama após marcar um golaço (de mão e impedido) num Fla x Flu do final da década de 60.

Pois muito bem.

Como todo bom ponta-direita, o menino Wilton era completamente indisciplinado e ficava a semana toda sem treinar. Como ele não seguia as recomendações táticas, mas era um ídolo, o velho Aymoré, mesmo sendo detentor do título mundial de 1962, não possuía autoridade para colocar o arisco ponteiro no banco. Assim, o técnico resolveu a questão chamando o médico do Vitória e solicitando que engessasse o craque (que não tinha qualquer problema, a não ser a idade) para poder escalar seu preferido, o glorioso Carlinhos Mocotó.

Resultado: o Vitória perdeu o título em 1979, Aymoré, o emprego, e Wilton tornou-se um dos mais destacados heróis da conquista do ano seguinte, 1980, o mais importante título jamais igualado por nenhuma outra equipe do mundo: Campeão de terra e mar na primeira visita do Papa ao Brasil“.

Por estas e outras, muitas outras, que o único técnico a quem devoto algum respeito é o sábio, o gênio, o mestre Cambuizinho, que orientou a imbatível Sociedade Esportiva de Irecê (SEI), em priscas eras, através do revolucionário método da tesoura e do elevador. “O time deve abrir e fechar igual a tesoura e subir e descer igual ao elevador Lacerda”.

Pronto. Eis a receita para o sucesso.

Quanto à análise dos nomes para comandar o Vitória, fica para a próxima edição, pois já é fim de tarde de sexta-cheira 13 e tenho outros afazeres não recomendados pela Carta Magna.

De nada.

 

P.S O menino Janjão de  Aratuípe faz a seguinte e  necessária correção que meto aqui neste P.S : “só um adendo ao título de 1980: o mais correto é “campeão de terra e mar no ano da primeira visita de UM papa ao Brasil”. o artigo indefinido aqui faz toda a diferença, pela amplitude e pujança que traz;) “

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6 Respostas to “Psicólogo e capataz”

  1. Mateus Borba Says:

    Essa do mestre Cambuizinho é genial.

    Uso sempre essa máxima.

  2. Andre Dantas Says:

    Seu Francis, treinador, pra mim, é tudo entregador de camisa. Sem exceção.
    O que me incomoda mais não são as merdas que todos eles fazem, mas sim um time de futebol gastar uma fortuna com um profissional tão sem pré-requisitos.
    Não vejo diferença nenhuma entre Arturzinho, Mano Menezes, Dunga, Ferreirinha, Joel Sardinha, Mancini, Arnaldo Lira ou Guardiola. Qualquer um desses com o timeco amador do Itabuna iria ser candidato ao rebaixamento no Varelão e qualquer um deles com aquele time do Barcelona ganharia 90% dos títulos disputados no sistema solar.
    No caso do Vitória que, comparado aos grandes do Brasil, conta as moedas pra fazer a feira do mês, eu ficaria a maior parte do tempo com Ricardo Silva. É entregador de camisa igualzinho a Guardiola, Arsène Wenguer ou Sapatão, mas é da casa, tem uma certa sorte, gente boa e, principalmente, barato.
    Quando, assim como todos os outros, mais cedo ou mais tarde, ficasse tomando um cacete atrás do o outro (lá ele) eu contrataria outro entregador de camisa baratinho pra “motivar” as injúrias que eu contratei. Quando tivesse acabado o “tesão do mijo” desse também, eu voltava com Ricardo Silva e assim seguiria por todo o sempre.
    Com isso eu teria mais dinheiro para contratar jogador de verdade que, no final das contas, é quem vai decidir se serei campeão ou rebaixado.
    O Vitória precisa muito mais de um Leandro Domingues por 200 mil que um Luxemburgo por 1 milhão.
    Abraços.
    P.S. Carpegiani não entra na minha lista de “entregadores de camisa”. Ele é coisa bem pior – “descobridor de versatilidades do boleiro”, o que muitos chamam de “inventor”.

  3. Anrafel Says:

    André,

    Não é apenas concordar ou disconcordar. É muito mais complicado, portanto evitemos arrazoados e perorações porque hoje é sábado.

    Mas (e sempre tem um mas), vão dois dedinhos (de prosa):

    No atual ambiente do futebol brasileiro, técnicos baratos servem ou não seria melhor pagar aquelas fortunas que jamais aparecem em qualquer documento oficial?

    E eu acho também que Leandro Domingues ainda pode ajudar o Vitória, a despeito de alguns torcedores e cronistas que procuram aparecer às custas daquele que é o melhor meia-atacante que a Bahia produziu nos últimos ( … ) anos (coloquem a´a quantidade).

  4. Janjão de Aratuípe Says:

    só um adendo ao título de 1980: o mais correto é “campeão de terra e mar no ano da primeira visita de UM papa ao Brasil”. o artigo indefinido aqui faz toda a diferença, pela amplitude e pujança que traz. 😉

  5. Marcio Melo Says:

    hahahahahaha

    Camburizinho, o gênio do futebol esquecido em irecê e a turma aqui querendo trazer professores pardais e afins para comandar o Leão.

  6. J Mocota Says:

    Até uns 05 anos atras, Mocota era viciado em Football Manager.

    Para quem não sabe, jogo para computador onde o jogador assume a direção de um clube de futebol e além de ser o presidente do time tem que ser o treinador da equipe.

    Antes de conhecer o jogo, Mocota pensava que treinador não tinha colaboração quase que nenhuma no rendimento da equipe.

    Após o jogos mudou de ideia.

    Mocota chegou a conclusão que é o treinador que avalia o elenco, depois escolhe a melhor tática e a melhor estrategia que vai fazer com que os 11 titulares rendam bem em campo.

    Mocota concorda com André Dantas quando defende que hoje para o Vitória seria melhor um Leandro Domingues a 200 mil que um Vanderlei Luxemburgo a 01 milhão, por acreditar que o Vitória já possui um profissional que consegue em quase 90% das vezes entregar as camisas a quem resolve.

    Avante Leão!!!

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