Chico Anysio, um nome na História

Na longínqua década de 70, um dos rituais mais marcantes da aurora da minha vida, da minha infância querida, que os anos não trazem mais, era ficar prostrado na frente da TV, ao lado de meus falecidos pais, para apreciar Chico City. Apreciar é apenas um modo elegante de dizer, pois eu num apreciava porra nenhuma. As piadas, um tanto quanto politizadas, eram totalmente incompreensíveis para este locutor que, apesar da descendência cearense, sempre teve cabeço pequeno (Alô, William Andem) para as coisas complexas.

E pior. A cada nova prosopopeia do dono do programa, sentia-me um completo imbecil, pois meus irmãos, todos mais velhos, gargalhavam sem parar, naquele riso cúmplice, de quase escárnio. E eu, mesmo sem entender porra de nada, tinha que ficar fazendo carinha de quem estava gostando demais (Alô, Molejo!) para agradar aos meus genitores. Aliás, desconfio que eles também num entendiam disgrama de nada, mas, como o programa era do conterrâneo, prestigiavam por, digamos assim, uma questão patriótica.

Pois muito bem, digo, pois muito mal, já que, na minha fúria infanto-juvenil, ia pegando um nojo ancestral de Chico Anysio, que me soava um boçal metido a inteligente.

Porém, não sei efetivamente por quais motivos, se por costume ou se porque fui ficando sabido, o fato é que a cada semana subsequente sentia menos ojeriza do programa.

E os dias foram passando, pois o tempo, apesar do apelo do poeta Alphonse de Lamartine, nunca suspende vôo, e… putaquepariu, do nada, a moça do shortinho Gerasamba acaba de chegar aqui na emissora, interrompendo as minhas reminiscências.

“Valei-me, meus culhões de cristo, que isso aqui tá mais sem comando do que a Prefeitura do Salvador. O homem amaluqueceu de vez! Acorda, criatura, isto aqui é uma página esportiva, não de obituário”, bradou a referida, que anda numa indocilidade dos seiscentos porque acha que ainda num dei o devido valor a Neto Baiano, seu novo ídolo.

Paciente, como sempre sou com minha Scarlett Johansson do Nordeste de Amaralina, peço calma a referida e digo que, já, já entro no campo esportivo. Antes, relato que, certa noite, com o crescimento do programa, apareceu um novo personagem que, pela primeira vez, fez com que meus olhos brilhassem na hora de Chico City. Era um sujeito desajeitado, barrigudo, cachaceiro, culhudeiro, com uma cabeleira meio Black Power e falando sobre um assunto que, apesar de eu já está velho, ainda me deixa com as infantis retinas rasas d´água: Futebol.

E foi assim que, em vez de tédio, eu comecei a ficar alegremente ansioso para chegar a quinta-feira (sei lá, num lembro se o programa era neste dia exato, coloquei esta data apenas para criar uma fluência narrativa – seja lá que porra isto signifique).

Mas, derivo.  Eu dizia que ficava alegremente ansioso para chegar a quinta-feira e, assim, poder dar boas gargalhadas com Coalhada, eis o nome do santo.  Aliás, muito do que não sei sobre o Ludopédio, aprendi com o referido.

Aos moços, pobres moços, que não acompanharam a trajetória do craque, eis uma palhinha. Ou melhor, duas.

http://www.youtube.com/watch?v=yMez4RXtbyw

http://www.youtube.com/watch?v=Sv4xc3U08I8&feature=related

Ah, sim. Uma correção. No início, eu disse que achava Chico Anysio insuportável. Mentira. Desde sempre, mesmo quando não entendia o humor, eu já gostava muito da música do grupo que ele formou com Arnaud Rodrigues. Naquela época, não tinha a compreensão musical que tenho hoje (não que tenha melhorado muita coisa), mas, mesmo assim, intuía que Baiano e Novos Caetanos não fazia apenas humor, mas música de excelente qualidade. E, no espólio familiar, ter ficado com os vinis do grupo foi (e é) motivo de satisfação.

E, já que entramos na seara musical, conto logo o motivo desta longa prosa ruim. Chico Anysio é um NOME NA HISTÓRIA … do Leão. Recebam. E ouçam no genuflexório, de joelhos, rebain de  fariseus.

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11 Respostas to “Chico Anysio, um nome na História”

  1. J Mocota Says:

    Legal, Franciel!!!

    Justa homenagem (Plac, Plac, Plac..)!!!

    Avante Leão!!!

  2. Anderson Abreu Says:

    Fodástico!

  3. Duilio Camardelli Says:

    Bom dia ESCRITOR DO POVO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

    PALMAS PARA MAIS UM BOM TEXTO.

    NÃO DEIXE DE FILOSAFAR COM AS PALAVRAS.
    ESTE DOM QUE DEUS LHE DEU,(PODE), FAZ COM QUE TODOS E TODAS SE DIVIRTAM EM SEU LINGUAJAR, E QUE NAS ENTRELINHAS DIZ ‘A VERDADE”.

    ABRAÇOS

  4. Paulo (@PFigueiredo1957) Says:

    Ufa !!! Até que enfim um texto melhor desse rubronegro. Ainda temos vida inteligente na torcida do vicetória da bahia. Parabéns meu caro. Enfim li sua coluna e achei muito boa essa de colocar as suas memórias em relação ao grande artífice de humor no Brasil. Parabéns !!!

  5. Neto Baiano Says:

    Figayredo, desocupa este trouxa fálica em que você está sentado desde cedo porque já tem uma fila de tricolores querendo se remexer nela.

  6. Cláudio Deiró Says:

    Meu craque, vc é sacanagem tanto nas quatro quanto nas linhas de seus textos memoráveis!!

  7. Anrafel Says:

    Entre o final dos 80 e o início dos 90, Chico Anysio andou comentando futebol na TV Globo. Entre outras opiniões, digamos, polêmicas, afirmou que Roberto Baggio era um jogadorzinho.

    Qual seria o veredicto do maior nome da televisão brasileira sobre Neto Baiano?

    • Silas Lopes Says:

      Dessas eu me lembro, meu velho, rs. O mestre do humor, falando de futebol, só fazia piada. Ele disse, uma vez, que Maradona era dum segundo escalão de jogadores argentinos, que ele era tão bom quanto outros craques do quilate de Verón, Redondo e, acreditem, Simeone, rs. Eu lembro de minha angústia com que fiquei…

      Se, para nossa alegria, o Chico ainda pitacasse sobre isso e sobre aquilo, seria, certamente, capaz de heresias tais como, talvez, comparar Neto Baiano a Souza, ou, pior, Franciel Cruz a Butragueño… Nunca saberemos!

      Que Deus tenha o moço de maranguape….

      Abraços,
      Silas Lopes.

      • Franciel Says:

        Aí, agora, você num disse nada, pai véi.
        Este humilde locutor, que hoje sopra cansadas prosopopéias, no início da década de 80 era conhecido como Rocheteau do Tororó (Morava em Nazaré na época, porém jogava bola com a galera do tororó).

        Modéstia às favas, brilhei na briosa quadra do Central, onde passou também um sujeito que, jogava até bola o sacaninha, mas tinha a mania de chorar.

  8. Anrafel Says:

    Carecem de fundamentação os boatos que dão conta de que teria sido Franciel Cruz o professor de Bebeto no quesito ‘sem-pulo’.

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