Lugar de jogador (também) é no xilindró

No Brasil, jogador de futebol em atividade pode cometer os mais diversos delitos que nada acontece. Estão acima da lei. Os boleiros daqui já confessaram relações perigosas com traficantes, cometeram homicídios no trânsito, brigaram em boates e em ambientes menos nobres, sonegaram impostos, praticaram o crime de racismo – e nada. No máximo, alguns impropérios ininteligíveis nas malditas mesas-redondas esportivas e tudo volta ao normal.

É óbvio que minha incurável superficialidade não me permitirá desenvolver uma análise abalizada sobre as causas de tão estranho e complacente fenômeno. Se ao menos possuísse uma vocação maior para o embromechion, chion, chion, poderia até inventar uma teoria sociológica de budega a la arnaldo jabor (desculpe-me pelo palavrão) e escrever devaneios do tipo: “Os guerreiros que participam das epopéias nos gramados, os dramáticos deuses da chuteira, estão acima das retrógradas legislações, pois são imortais e não podem ser julgados pelas leis comuns”. No entanto, como ainda possuo um tantinho assim de simancol, resta-me somente sacar do coldre o indefectível cepacol e bradar:

PUTAQUEPARIU TÃO NEFASTA IMUNIDADE!!!

E esta nefasta imunidade do grito acima começa a ser construída com as brincadeiras. Se o deliquente é de nossa equipe, já está perdoado por vestir o manto sagrado. Quando é do time adversário, fazemos chacota e coisas do gênero, mas não cobramos punição – até porque precisamos preservar a mística de que jogador de valor é aquele que foge aos padrões da (mal) dita normalidade.

Sei que, ao ir de encontro aos que dão vivas aos outsiders, corro o risco de ser apedrejado nesta e em outras tribunas libertárias, mas estou aqui também para desafiar o coro dos descontentes. Não advogo que o futebol se torne um colégio de freiras. Nécaras. Contudo, impossível concordar que aquela máxima de João Saldanha (“não serve para meu gerno, mas jogo em meu time”) seja levada a um paroxismo tal que acabe se transformando numa apologia dos mais diversos crimes e atos covardes praticados por boleiros.

Por isso, repito a frase que vai no título: Lugar de jogador de futebol (também) é no xilindró.

Porém, antes que algum bunda de cararu venha me acusar de ser um indignado de ocasião, de estar agindo em causa própria, informo logo: Minha ojeriza a esta lamentável (e incompreensível) impunidade é muito anterior à chibança patrocinada ontem no Barradão pelos jogadores do Goiás. Prova disso é que tanto o título quanto o primeiro parágrafo destas prosopopéias foram retirados de um texto publicado no mês de junho do ano da graça de 2008. Aos incréus, eis o linque AQUI, Ó.

Desculpe-me se agora não rio à toa, mas neste momento não há motivos para festa.

P.S. 1 Em relaçãoa ao técnico do Goiás, silenciarei. Aquela injúria humana nem vaia merece.

P.S. 2 Amañhã farei a resenha do jogo.

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28 Respostas to “Lugar de jogador (também) é no xilindró”

  1. Anrafel Says:

    Eu também acho. Que time, então, teria a penintenciária! Hoje, um goleiraço; há algum tempo atrás, um atacante como poucos. E se a mão da lei fosse mais pesada e menos seletiva com quem tem algum dinheiro, a quadrilha, digo, a equipe estaria praticamente completa.

    Mas, não.

    Nossos (de lá eles!) dirigentes esportivos têm uma granítica convicção, que é aquela que diz que se as lambanças que eles fazem com as finanças dos clubes fossem feitas numa empresa privada ou num órgão estatal, a polícia ou o MP cairia em cima pesado. Portanto, “vamos trabalhar com sacrifício pelo bem do esporte brasileiro”.

    Com os boleiros, com alguns reparos, cabe a analogia. Daí, no mundo do futebol termos aquela profusão de arrogância e boçalidade. E não estou livrando a cara da imprensa.

    (O Vitória tem que ter muito cuidado. Com essa justiça desportiva – moderem os risos, senhores – que temos é bem capaz de alguém querer votar pela interdição temporária do Barradão).

  2. Dalmo Carrera Says:

    Perfeito Franciel Cruz, sem medo de ser taxado de puxa-saco ou baba ovo afirmo que suas considerações sobre os “semideuses” de calção e meiões e outros temas do futebol, sempre estão corretas do primeiro ao quinto, com extração pela Loteria Federal, aquela que podemos confiar.

    Novamente, Parabéns.

  3. Logan Says:

    E a polícia no barradão letárgica como sempre, foi assim no bavi, lembram?
    Nesse jogo ficaram protegendo o trio de arbitragem enquanto o pau comia no campo, no jogo do São Paulo, mais absurdo ainda, quebraram o alambrado que separava as torcidas e orientaram os torcedores do time visitante a comprar o ingresso mais barato, causando um prejuízo de 3 mil reais e nossa diretoria não teve peito de mandar a conta pra eles.
    Já tá mais do que na hora do Vitória ter segurança particular no estádio, e se já tem, aumentar.

  4. Maurício Guimarães Says:

    Tive um professor na Universidade aqui em Recife que pregava além de livros que todos trouxessem também seus revolveres como acessório. Ele é um velhinho, aparece na mídia como um sonhador, um ex-vereador que sonha com um país de cidadãos alfabetizados.

    Vejo que este professor apaixonado por Israel e louco para ver bandidos debaixo do chão continua cada vez firme em suas convicções. Tornou até a aparecer na tevês distribuindo livros e entusiasmando a sociedade recifense.

    Hoje, ao abrir o computador e ler as notícias pensei no velhinho com seu ar perfunctório e ao mesmo tempo charlatão, o sorriso do goleiro Bruno e o seu ar de superioridade, a animosidade dos boleiros e a minha solidão que não indica uma saída. Apenas assisto os novos bárbaros e a sua tecnologia, enquanto alguns humanistas choram.

  5. Deivid Says:

    Sinceramente eu só te digo uma coisa: Eu não te digo é nada!

  6. Cury Says:

    Com minha humilde filmadora captei o técnico do Goiás dando um soco em um repórter, que não foi o Roque Santos. Sem querer me gambar, não vi essa imagem em nenhuma TV.
    Amanha tentarei postar o vídeo.

    • Logan Says:

      Teve um que chegou na tevê e disse que não apanhou enquanto as imagens mostram ele tomando um soco do rafael moura antes dele partir pra bater no roque santos, ali foi vergonha ou medo de assumir que apanhou? Mistério.

  7. felipe Nogueira Says:

    Seu frança,
    O grémen da impunidade está justamente no que v. senhoria falou. Aos meus, todo o perdão; aos outros os rigores da lei. E quem baliza isso somos nós, pois quando a coisa não é com a gente queremos a execração moral, prisão e se possível banimento ou morte. Agora se for nossos filhos, irmãos, parentes e até cunhado que se faça valer a primariedade, bons antecedentes, bons advogados, penas de cesta básica e a lei foi cumprida com louvor.
    SRN

  8. carlos da caixa Says:

    Esse menino, não entendo, sinceramente, a passividade da pm baiana. Não digo que entre quebrando, arrebentando. Sugiro medidas preventivas e tempestivas. Imaginemos, senhores,mesmo com os holofotes e câmaras mostrando imagens, querem negar os fatos. Que versão seria mostrada ser não existissem registros? Sei não! Preocupa, né?

  9. Juvenal Says:

    Amañhã é portunhol? 🙂

  10. Anrafel Says:

    Sabedor do currículo e do temperamento de Emerson Leão, o repórter claramente estava querendo provocar e armar uma celeuma – com que objetivo, bom, não arrisco. Claro que corria algum risco, mas talvez não imaginasse que a PM ficaria na dela e que He-Man invocasse os poderes de Greyskull.

    O risco mostrou-se maior. Agora, como uma neo-celebridade desdentada vai tentar prolongar esses quinze minutos em proveito próprio e/ou do lugar onde trabalha.

    Agora, sendo proibido a entrada de repórteres no campo de jogo, inclusive tomando a iniciativa nas agressões, e a PM mostrando-se omissa, aumentam as probabilidades de uma punição ao Barradão.

    Seria esse o objetivo do cabra?

  11. Cury Says:

    Senhores, vítexto e vídeo do jogo contra o Goiás em:
    Texto: http://www.vitorianobarradao.blogspot.com/

    Vídeo:

  12. felipe Nogueira Says:

    Seu moço,
    Sei que é de tradição os textos serem feitos pós jogo, mas dessa vez é especial, faça uma prosa pra motivar a galera que tá lá na bêra do porto.
    SRN

  13. Deivid Says:

    Cadê você seu Françuel?

    Na concentração?

  14. Cury Says:

    Concentração é a palavra do dia.

  15. Fabrício Says:

    Lembrete para o próximo texto: http://www.youtube.com/watch?v=hzIbAxPF1J8

    Barradão está para o Vitória assim como o alface tá para Popeye. 2×0 foi milagre e pode ser revertido aqui. Isso que importa.

  16. Cury Says:

    O Santos perdeu a chance de brocar. Sinto muito. Vai ser brocado.

  17. Cury Says:

    Alface, não, Fabrício. Assim o Barradão não terá efeito. O que Popeye ingere é espinafre. Barradão = espinafre.

  18. Logan Says:

    Putaquepariu covardia futebol e regatas em seu frança? Torcida deu show e o time deu vexame.

  19. Fabrício Says:

    Outra coisa, desta vez sobre a postura tática promovida por Ricardo Silva. Aqui, ao menos o debate pode ser mais produtivo.

    Um paralelo: Hernanes disse que o São Paulo foi jogar contra o Inter com uma postura humilde: a de não tomar gols; e ficou na retranca. 1×0. Ontem, Ricardo Silva disse que o time entrou pra “jogar de igual pra igual contra o Santos”. Será que ele não percebe que não dá pra jogar igual ao Santos? Será que não seria melhor jogar com 3 zagueiros, fechadinho, tentar jogar no contra ataque (com jogaodores mais rápidos) e dificultar as investidas laterais do Santos (era um Deus nos acuda!)? Poderia ter sido uns 8×0 por conta dessa postura supostamente corajosa, mas seguramente imprudente e inócua. Graças a Deus não aconteceu o pior, já que 2×0 é reversível. Mais uma vez Ricardo Silva teve sorte (ou correr de um lado para o outro, se embananar todo com bolas cruzadas e ter bolas chutadas pelo adversário para fora a rodo é treino?). Esse nasceu com o bumbum virado para a Lua.

  20. Cury Says:

    Fabrício, vale lembrar que o Vitória já foi desfalcado sem um dos seus principais jogadores (Nino) e que o seu reserva saiu de campo logo no início do jogo. Neto Coruja foi pra lateral e um buraco ficou aberto no meio.

    • Deivid Says:

      Vcs estão esquecendo de Uelington que foi fundamental para nossa boa campanha…

      Uma lástima ter se machucado.. fez muita falta ontem…

  21. Fabrício Says:

    A ida de Neto para a lateral foi, na minha humilde opinião, a melhor coisa que aconteceu no jogo. Rafael não iria dar conta do recado na marcação dura. Coincidentemente (mesmo), após a saída dele o Vitória melhorou um pouco. Nino faz muita falta mesmo. Impressionante.

  22. Victor Says:

    Torcer, acho que é obrigação. Mas analisando friamente, é quase impossível o Vitória ganhar esse título. Esse time que está aí não foi feito pra ser campeão da Copa do Brasil. Chegou na final no susto. Como acreditar que um time, que não deu ao menos um chute a gol durante o jogo, possa reverter esse quadro? Ganhar o jogo até que é possível, mas não tomar gol do Santos é muito difícil. Obrigaria o time a fazer 4. E Santos não é Goiás, Náutico, Atlético-GO. Criou-se uma espectativa do título porque o Vitória chegou à final, mas só seremos campeões quando a diretoria tiver espírito de time grande, ou seja, montar um time (desde o início) pra ser campeão. E não esperar que um time chegue no susto na final e tenha obrigação de ganhar. Acorda torcida!

    • Fabrício Says:

      Realmente o problema é não tomar gol. Mas quem sabe se Viáfara não tá num dia especial? Só espero que coloque Elkeson na meia, carregando a bola de frente pro gol, e um segundo atacante de verdade pra jogar cmo Júnior. E tem mais: a defesa do Santos não é lá essas coisas e o goleiro deles é meeiro (já assisti vários jogos e afirmo isso sobre o Rafael, que tem 20 anos)

      Quanto à montagem do time, não entendi o porquê de não cumprirem o que prometeram durante o campeonato baiano. Diziam que este era deficitário e que não justificava investimentos altos e que eles seriam feitos após. Mas o que vimos foi o glorioso não disputar nenhum jogador, não contratar ninguém (só empréstimos), e perder Neto Berola.

  23. Anrafel Says:

    O que pode segurar um pouco o Santos na Vila é a percepção de que o adversário tem um bom contra-ataque. Dorival Jr. não viu isso no Vitória e mandou o time ir pra frente, tranformando Lee e o SobreNatural de Almeida nos melhores jogdores do rubro-negro.

    No Barradão, impõe-se uma questão: como fazer 3 gols no Santos sem tomar nenhum? Ricardo Silva passará certamente a pior semana da sua vida de profissional do futebol tentando definir como jogará o time. Se partir pro ataque e sofrer 1 a 0, um abraço – corre o risco de tomar mais gols no Barradão do que na Vila.

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