Um homem não deve matar um deus

Por André Dantas

Normalmente as pessoas não sabem ao certo o dia em que começaram a torcer por seu time de futebol. Não é o meu caso. Lembro-me ainda, era o dia 27/11/1985. Dia de Ricky.

Eu tinha 10 anos e morava em Itabuna. Nessa tradicional cidade do interior da Bahia, à época, numa conta rasteira, 60% dos torcedores eram flamenguistas, 35% se dividiam entre outras equipes (principalmente o Vasco) e 5% Bahia. Torcedor do Vitória eu só conhecia meu pai que, por sinal, nunca foi fanático, até porque o Vitória daquela época não era qualificado para despertar fanatismo em ninguém. Nos últimos 12 campeonatos até então tinha vencido apenas um e ainda era um time quase amador treinando em campo de terra.

Eu ainda criança estava alheio a esta realidade e pouco me importava com ela. Lá em casa só pegava Rádio Globo direto do Rio (“José Carlos Araújo – Sou eu!”), eu tinha uma camisa do Flamengo e meu irmão outra do Vasco e caminhávamos inexoravelmente para a vala comum.

Só que o dia 27/11/1985 chegou e com ele o convite de meu pai para irmos ao “Itabunão” (Estádio Luís Viana Filho) assistir a Itabuna e Vitória pelo campeonato baiano. Apesar de ainda não ter paixão clubística, adorava futebol (tinha mais de 30 times de futebol de botão…) e nunca tinha ido a um estádio.

Foi maravilhoso. A atmosfera de um estádio é algo único e para aquela criança o Itabunão era imenso. O time do Vitória não era grande coisa, mas era o melhor dos últimos anos. Tinha Bigu como referência no meio, contava com o veterano Jésum, que ainda jogava bem, e apareceu por lá com sua maior estrela – o nigeriano Ricky.

Meu pai estava empolgado com o estrangeiro que chegara no ano anterior, estreando em um ba xVI marcando um gol. Sua presença proporcionava ao Vitória a possibilidade de encarar de forma menos desigual seu rival mais poderoso.

O Vitória vinha bem no campeonato e foi nesse clima que decorreu o jogo, mas nada disso seria suficiente para que eu tirasse os pensamentos do time de Zico. Era muita desigualdade.

Todavia, Ricky jogou demais nesse dia. Ele era muito forte, muito rápido e um matador nato. Talvez por isso hoje eu seja admirador fervoroso de jogadores como Drogba do Chelsea. Assim era Ricky.

Sabe-se lá a quantas ia o jogo, quando ocorreu um cruzamento na área e Ricky parado próximo à marca do pênalti subiu e testou a criança pro fundo. Meu pai vibrou como uma criança. Eu nunca tinha visto meu pai vibrar e eu também vibrei. Mas vibrei, não pelo Vitória, mas por Ricky.

O jogo terminaria 1×1, mas isso foi o que menos importou. A partir desse dia comecei a acompanhar Ricky e o Vitória. Logo no jogo seguinte o Vitória voltaria a enfrentar o Itabuna, desta vez em Salvador, e Ricky deixaria a sua marca na vitória por 2×1. Para quem achava Nunes (não o ataul do Santo André, e sim o antigo do Flamengo…) um grande centroavante, Ricky começou a ganhar status de ídolo.

No final o Vitória sagrou-se campeão, Ricky foi o artilheiro e eu já estava conquistado. O Vitória passou a ser o único time no meu coração e Ricky meu maior ídolo, mais que Zico e mais que qualquer outro que viria depois.

Em sua rápida história no Vitória Ricky marcou 63 gols e são esses gols que me emocionam até hoje. Só Índio naquele bavi épico do 6×5 conseguiu me levar tão perto do êxtase.

Em 1986 o nigeriano foi embora e com ele o sonho. O Vitória voltou a sua mediocridade costumeira. Apenas 03 anos depois, em 1989, começou a mudar de vez a sua sina. Mas essa é outra história.

Ricky voltou ao Vitória em 1994. Voltou o ídolo, pois aquele jogador não existia mais… Já no ocaso da sua brilhante carreira retornou ao rubro-negro já bem acima do seu peso, sem a velocidade e a força que o caracterizavam. Era uma caricatura e quando vi eu chorei. Foram poucos jogos que não deram para apagar da minha alma a lembrança do maior centroavante que já envergou o manto rubro-negro, mas, de toda forma, acho que ele não deveria ter voltado. Seu nome estava e está num panteão, acima dos meros jogadores de futebol que passaram e ainda passam pelo Vitória e sua volta, ainda que por apenas 09 jogos, o fez humano que nasce, cresce e, infelizmente, encerra a carreira.

De vez em quando no Barradão passo por Ricky nas cadeiras. Já pensei várias vezes em falar com ele, tietar, dizer que sou seu fã, mas nunca o fiz. Minha esposa sempre pergunta por quê não falo, por quê não o cumprimento ao menos. Não falo porque, para mim, Ricky é um deus do futebol e os mortais não falam com os deuses, sem sua permissão ou iniciativa.

Esta é a minha história com o Vitória e com o meu maior ídolo e tenho certeza que para outras pessoas existem outros ídolos (André Catimba, Bebeto, Petkovic, Dida, Alex Alves) e se eles não são a razão de ser do torcedor, pelo menos são o ponto de partida de muitos.

Ídolos vem e vão e hoje no Vitória ainda se encontra um dos monstros sagrados de sua história. Um homem (ou um deus) que fez despertar em uma geração o orgulho de ser Vitória. Muito mais do que Ricky esse homem-deus fez do bavi (antes vergonha e deboche) alegria, orgulho e vitória, muitas vitórias rubro-negras. Esse homem tem mais gols, mais títulos, mais vitórias sobre o Bahia, mais gols sobre o Bahia, mais tudo que Ricky, ou seja, para muitos deve ser o maior ídolo que tem e já teve no clube e isso deve ser preservado e valorizado.

Mas assim como Ricky, esse homem-deus, é antes de tudo homem e nasce, cresce e, infelizmente, encerra a carreira. Já está mais do que na hora do homem deixar o deus se instalar definitivamente no Olimpo. Infelizmente, por não saber a hora de parar, corre-se o risco de se ver perpetrado o maior dos sacrilégios do futebol – o homem matar o deus.

P.S.1 Quando passar a ressaca, isto é, lá pelo mês de setembro, escreverei a resenha do jogo contra o Náutico.

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11 Respostas to “Um homem não deve matar um deus”

  1. Logan Says:

    Falem o que quiserem, Ramon broca, e calou a boca de muito jornalista e torcedor corneteiro ontem. O time não pode jogar com bida e Ramon e pra mim Bida vai pro banco naturalmente.
    Ramon se encaixa muito bem no time pra copa do brasil, pro brasileiro é outra história.

  2. Lucas Serra Says:

    Nunca tive uma boa memória, mas me recordo de Petkovic, Alan Delon, Bebeto e até de Tuta.

    Hoje reconheço que Viáfara é um grande ídolo para milhares de torcedores, mas vai chegar um dia que ele não defenderá tanto quanto hoje. Espero que ele ainda dê muitas alegrias para nós.

    SRN

  3. Marcio Melo Says:

    Minha história começou um pouco depois, foi em 92 na série B!

  4. danilo resedá Says:

    eu tenho 13 anos e para mim o maor idolo é ramon

  5. arbo Says:

    bonito o texto, bá.
    parabéns.

  6. Daniel Says:

    Porra, me identifiquei… Também sou itabunense, também sou filho de um dos raros rubro-negros-não-flamenguistas da cidade e a mim também um Itabuna x Vitória salvou não de ser Flamengo, mas sim – muito pior – de ser Fluminense.

    Lembro de muito pouco além do fato de que o Vitória perdeu por 1 x 0 e meu irmão, hoje Vitória doente, disse que ia virar a casaca e torcer pro Itabuna. Acho que por isso passei a trocer ainda mais pelo empate, que não veio, e continuo torcendo por aquele gol até hoje.

  7. Sandra Coimbra Says:

    Realmente, Ramon já devia ter saído do time. Alex. Manda fazer três estátuas pra colocar no Barradão: Uma do seu pai, outra sua e outra de Ramon. Depois da inauguração, dá um abraço no cara e manda ele embora que meu baba ele está enjoando.

  8. borba Says:

    Texto no ponto.

  9. Neto Says:

    Velho, setembro já está chegando e até agora você não escreveu a resenha sobre o jogo do Náutico, sobre a vergonha de domingo e sobre todas as coisas que você promete que vai falar e não fala.

  10. Leonardo Lima Says:

    Seu França estar fazendo escola, este jeito cômico de escrever, faz com que não só o norte e o nordeste de amaralina pararem minutos diarios seja no transito, no trabalho e através dos professores na sala de aula para dar a devida atenção ao melhor blog do Brasil, quiçá, o do mundo.
    Parabéns a todos que ajudam esse blog a dar certo, mesmo não comentando muito, passo aqui todo o dia.

    Saudações.

  11. Logan Says:

    França, foi notícia na resenha ontem que o vice presidente do Vitória pode sair como vice na chapa de kleber leite, espero que isso não se confirme.

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