Réquiem para o futebol baiano

Neste março do ano da graça de 2010, tendo como testemunha o inconsequente sol do verão baiano que teima em nunca acabar, assistimos, estupefatos, ao enterro de nossa última quimera: o futebol. Nunca na história desta nação chamada Bahia (royalties para Lula) o ludopédio viveu tempos tão temerários.

Para os que acham que a melancolia acima está hiperbolizada, recorro aos fatos. E recorrerei com a autoridade de quem, há séculos, acompanha a linha evolutiva do pebolismo de Soterópolis, prestigiando até mesmo as pelejas do torneio de acesso (2ª divisão) entre Estrela de Março x Redenção de Brotas, na velha e trágica Fonte Nova.

Por isso, tal e qual um Émile Zola, eu repito a acusação: O pebolismo desta província e, consequentemente, a própria Bahia estão em ruínas. E, assim, concedem razão àquele surrado clichê, travestido de filosofia de botequim, de que o futebol é a metáfora (e o reflexo) da sociedade e vice-versa. Nos dois maiores símbolos do esporte (Bahia e Vitória) imperam a desonra, burrice, falta de planejamento, de projetos, de ousadia, de criatividade e de outros substantivos e adjetivos impublicáveis. Restaram apenas fantasmas e escombros. E, sob estes, roubaram-nos até mesmo a alegria.

Por falar em furto, o ex Esquadrão de Aço algumas vezes campeão, mas que não ganha nada há quase uma década, acaba de começar a perder sua sede de praia numa operação farsesca. E o patrimônio só não foi entregue (ainda) numa destas tenebrosas transações com o poder público porque, pasmem, descobriram agora que duas penhoras impedem o negócio. É isto mesmo que vocês ouviram. O clube tentou concretizar a venda sem ao menos saber que o próprio imóvel estava irregular.

Viva o velho Mangabeira que vaticinou sobre os precedentes baianos.

E já que se entrou na seara dos precedentes absurdos, eis outro perpetrado pelo presidente tricolor, Marcelo Guimarães Filho. Depois de não pagar dois meses do ano passado mais o 13º, ele largou a seguinte, numa brilhante inovação nas leis trabalhistas. Às aspas: “Alguns atletas que ficaram, inclusive, fizeram a seguinte negociação: como novembro e dezembro ainda iriam vencer quando sentamos para conversar, o atleta deu quitação disso e fez-se um novo contrato a partir de janeiro. Então o Bahia não deve”. A propóstito, o atual comandante do Bahia é filho de Marcelo Guimarães, também ex-presidente do clube, na época da “parceiragem” com o Banco Opportunity, de Daniel Dantas. Aliás, o pai do atual presidente foi preso pela Polícia Federal, em novembro de 2007, na Operação Jaleco Branco.

Mas, derivo.

Voltemos ao futebol.

No centenário Esporte Clube Vitória também imperam as inovações. Um exemplo? Recebam. A diretoria fez um Plano para, com o perdão da má palavra, fidelizar os torcedores. Assim, criaram o Sou Mais Vitória (SMV), no qual os sócios pagam os ingressos até com um ano de antecedência. Pois bem. Quase dez mil aderiram ao projeto. O problema é que as catracas destinadas a estes nunca funcionam e o cidadão-torcedor, muitas vezes, se quiser ver os (péssimos) jogos da equipe têm que comprar ingressos na mão de cambistas inescrupulosos (desculpe-me a redundância). Caso contrário, é só permanecer no inclemente sol até o fim dos tempos ou dos jogos, o que dá no mesmo. Mais um detalhe. O estádio do Rubro-Negro já foi fechado duas vezes recentemente para a troca das tais catracas e elas voltam do mesmo jeito. Não é à toa que a torcida já apelidou o programa de Sofro Mais Vitória. É como diria Paulo Mendes Campos: antigamente as coisas eram piores, mas foram piorando, piorando…

E a idiotia não tem freio. Tal e qual um Midas pelo avesso, o presidente do Rubro-Negro fez outra inovação: decidiu assinar a carteira de trabalho do treinador. E transformou um técnico promissor num burocrata retranqueiro temente ao seguro-desemprego.

VÁ MATAR O DEMÔNHO!

Mas, nem tudo está perdido. Com a plena consciência de que a situação em que se encontram o futebol e a Bahia está insuportável, o governador decidiu construir uma ponte ligando Salvador a Ilha de Itaparica. Assim, além do aeroporto, os desiludidos poderão ter outra rota de fuga.

P.S.1: É mentira de quem diz que todo este rancor é só porque o Brioso Leão segura a lanterna do quadrangular do grupo B do Varelão/2010.

P.S. 2 Texto publicado originalmente no TERRA MAGAZINE e republicado agora com as devidas alterações.

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11 Respostas to “Réquiem para o futebol baiano”

  1. Anrafel Says:

    Diante de tão acachapante verdade, o que fazer? Ao torcedor, cabe aquele papel preconizado pelo Plínio Marcos: gritar da geral sem influir no resultado.

    Pobre torcedor. É um consumidor de terceira categoria, não tem Procon onde reclamar. O seu estatuto só serviu para diminuir a largura das bundas baianas.

    Se o sujeito, consciente de parte das mazelas do seu time (a quem é dado conhecer todas?), resolve não compactuar deixando de ir ao estádio, lembra, de repente, que já comprou o SMV e não pode pedir a grana de volta.

    Caso seja torcedor do Bahia e resolva não deixar seu dinheiro para cambistas ou para um itinerário de desvio a partir da bilheteria, aí vem um daqueles profissão esperança e lhe diz que aqueles salafrários vão passar e o (ex) Esquadrão ficará.

    Só que os dois estão sabendo, mas nenhum diz, que os sacripantas cada vez mais ficam (ricos) e o Bahia nao faz outra coisa senão passar (mal).

    Aí, parece que a única coisa a fazer vem da Argentina. Não, não é tocar um tango, não. É ver Messi jogar. Simples (simples?).

  2. felipe Nogueira Says:

    Seu França,
    A bagunça é tão grande que até jogador vai fumado pras partidas, niguém me engana, aquele retato fuma e da transgênica. Até nisso a bahia tem precedente.
    SRN

  3. Logan Says:

    Foda-se, meu Vitória brocou ontem, com gol de Bidane, agora bateu aquela amnésia clássica e pra mim o ano começou quarta-feira!

  4. borba Says:

    ETCHA PORRA EXPERIMENTALGGIANI DE VOLTA!

  5. Neto Says:

    Ma ma mas… seu Françuel… fiquei com uma dúvida: culhão (com u) é substantivo ou adjetivo?

  6. Cury Says:

    Franciel, desconfio que o fato de Ricardo se dar bem como interino é que daquela forma ele já pegava o time praticamente armado. Começar do zero e montar um esquema tático é outra categoria…

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