Solapar é preciso

                                                                                                                   Por Claudio Leal*

Minha boa gente baiana: volto a me apresentar como correspondente das derrotas Rubro-Negras em São Paulo. Estive ontem entre os 150 torcedores do Vitória e um do Poções que assistiram ao massacre da Força-Tarefa baiana sobre o Corinthians, no Pacaembu.

Permite?

Se o Vitória continuar perdendo gols cantados, se Leandro Domingues não aprender a finalizar, se Apodi agitar duas vezes o cabelo antes do drible, se a CBF escalar mais juízes pernambucanos e se os adversários tombarem com a gripe suína, seremos inelutavelmente os campeões brasileiros de 2009.

Suplico ao torcedor para que não ponha um termômetro em meus pés gelados. Não comprei os direitos federativos dos fracassos do Vitória em charnecas paulistanas. Assim como no jogo contra o Palmeiras, novamente fomos roubados pelo placar: 2 x 1. E como não há mais um ACM em campo, nunca poderemos violar o painel eletrônico do Pacaembu e desnudar o resultado mais justo da batalha campal da noite de ontem.

“O que falta ao Leão?”, interpela-me a porteira do zoológico Getúlio Vargas, inventada por este cronista com o fito de iluminar a prancheta do técnico Carpegiani.

Como especialista (aplausos, o orador é cumprimentado), recorro ao finado Sotero Monteiro, em frase entreouvida pelo querido Dalmo Pimentel, para corrigir o ataque Rubro-Negro. Há mais de cinquent’anos, o professor Sotero deu certeira instrução a um atacante do Ypiranga: “Você pega com a pata esquerda, joga pra pata direita, e solapa!”.

Agora me diga, leitor amigo: quanto ganham Vanderlei Luxemburgo, Mano Menezes e Muricy Ramalho para explicar o oposto disso?

Sotero era um modesto dono de hotel no bairro da Calçada. Donde conhecia um jogador “pelo arriar das malas“. E não rezo este terço para desmenti-lo. A ausência de solapadas e arriadas de malas competentes determinaram nossa derrota momentânea diante do Corinthians.

Mas, animai-vos, pois vejo no balde: Karl Marx anteviu a vitória final do selecionado de Canabrava, no campeonato de 2009. Hora de solapar.

Ao jogo.

Calma, motorista! Leva ainda não. Na entrada do estádio, o PM revista este narrador, apalpa um sobretudo de filme B e pergunta: “Que volume é esse aqui?”. Puxo um livro de bolso, com as novelas “O coronel Chabert” e “A mulher abandonada”, de Balzac. O policial não chega a reprovar a literatura, mas adverte: “É inflamável, não pode”. Quase lhe expliquei que se trata de um escritor conservador do século 19, nada inflamável ou incendiário, ou que Chabert é apenas um homônimo do coronel que o treinou no CPOR.

As brigas de torcidas provocaram a paranóica proibição do porte de papéis (inflamáveis) nos estádios de São Paulo. Sim, nem jornais, nem bilhetes da dama de vermelho.

Ano passado, um amigo foi detido por ter lançado jornal contra um PM, depois de ter ouvido que só um baiano levaria uma gazeta para o Morumbi. Concordo com o guarda. Era um fiscal da lei bem diferente, no entanto, daquele que me pede, na noite chuviscante: “Tudo bem, você pode entrar. Mas não tire esse livro do bolso!”. Balzac vence a censura.

Na esquina da arquibancada, os 150 torcedores do Vitória e um do Poções lutamos contra dezenas de milhares de corintianos, ainda em luto com a morte da travesti Andréa Albertini, a Evita Perón alvinegra.

Ouvir em silêncio “Todo Poderoso Timão”, “O Coringão voltou” e “Louco por ti, Corinthians”, e pedir à vendedora de cachorro-quente para seu pregão não abafar o grito dos baianos: eis tudo o que nossa galeota pôde fazer, honrando a camisa que tememos vestir, com medo da fogueira.

Momentos decisivos.

Numa cobrança de falta, o viúvo Ronaldo se embanana com a bola e escorrega num sabonete (antes era a Andréa que pegava). Aproveitando o deslize corintiano, ressurge a estrela de Apodi, com aquelas sacudidas de cabelo de garota-propaganda da L’Oréal.

E aqui farei um plágio de Ary Barroso, ao narrar um gol do botafoguense Garrincha, por ele antipatizado: “Apodi com a bola. Vai driblar. É claro. Vai driblar de novo. Vai perder a bola. Olha ali, um saçarico pra cá, outro pra lá. Apodi passa pelo adversário. Assim também não é possível. Vocês estão vendo? Apodi vai driblar de novo. Vai perder. Por que ele não centrou logo? Claro que vai perder. Gol de Apodi”.

No segundo tempo, serei franco, caiu a lente direita do meu óculos. Logo, portava um monóculo (licença, poeta Jayme Ovalle?).

Esta crônica futebolística se limitará, a partir de agora, ao quadrante esquerdo do campo, onde o Esquadrão Baiano executou uma blitzkrieg de 45 minutos. Por favor, retirem os pernambucanos da sala. Pude comprovar, à direita, a animosidade do juiz Nielson Nogueira Dias contra o Vitória. O cartão amarelo para Magal avizinhava uma atuação com o intuito de fornecer justificativas para nossa derrota. “Põem os pernambucanos para apitar de propósito. Eles se tremem com os times de São Paulo”, explica-me um cavalheiro, descrente nos altos desígnios do ser humano.

Minha boa gente baiana, os gols perdidos pelo Vitória devem ir para uma espécie de cemitério de elefantes, provavelmente situado num ponto de desova na Estrada Velha do Aeroporto. Nada há mais que se diga sobre a brilhante partida dos rubro-negros. Perdemos com a superioridade de sempre.

E pude retornar, com serenidade, a Balzac. As folhas se aceleram e a viscondessa de Beauséant ainda não concedeu a desejada ao barão Gaston de Nueil. Madame mais difícil. Por que o policial não apreendeu o diabo deste livro?

*Claudio Leal é torcedor do Vitória por imperativo de humildade. Leônico por parte de avô, é correspondente de guerra do Victoria Quae Sera Tamen.

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26 Respostas to “Solapar é preciso”

  1. sombra Says:

    Infelismente caro Logan, nós não queimamos as nossas linguas com relação a Roger.
    Essa carniça está acabando com a campanha do Vitória.
    Eu quero ver o que o nosso amigo snowman vai falar.
    Tá na hora de PCC fazer alguma coisa.
    Chega de nadar pra morrer na praia.
    Vamos com tudo leão, vamos brocar o Coritiba.
    Pega Leão!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

  2. Rodrigo Says:

    Caros,

    Força, torcida rubro-negra, falta pouco. Vamos conseguir transformar este “quase” em um desatar de nós de gargantas na 38ª rodada deste brasileirão. De cabeça erguida, rumo ao título!!

    BORA TRITÓÓÓÓRIA!!!!

    http://saudacoesrubronegras.blogspot.com/

  3. canijah de moreré Says:

    Espero que o nossos Gloriosos jogadores encontrem o mesmo caminho que a balzaquiana Júlia seguiu: o caminho do gol.

  4. valmerson Says:

    Franciel não podemos mais ficar lamentando os pontos perdidos, agora é cabeça erguida e bola pra frente, fiz uma breve avaliação sobre as proximas partidas do ECV confere ai e dá sua opnião.

    http://valmerson.wordpress.com/2009/07/24/vitoria-mostra-o-teu-valor/

  5. Véio de Glória Says:

    Franciel, velho, se pra cada derrota do Vitória uma narrativa claudiana dessas, que se foda o Leão.
    Quanto a Apodi, ele me lembra um amigo de pelada, que driblava meio time e quando chegava pertinho da trave, já sem goleiro, pisava o pé sobre a bola e mandava um solo de guitarra imaginário, até ser alcançado pelo adversário. Só faltava ser linchado.
    Mas tem nada não. Qualquer dia ele entra em campo de bobs.

  6. Geraldo Says:

    Pior do que Roger é termos que guentar o ex jogador de futebol Tuta reserva do grande clube do futebol paulista São Caetano coisas do Jorginho (encantado).

  7. canijah de moreré Says:

    Logan, siga o conselho do filósofo ireceense: alugue um ap e more com Roger.

    • Logan Says:

      Canijah, não quero tomar seu espaço, não seja tão ciumento, o roger é seu, se lambuze filho X)
      Sabe você lá o que faz com ele. Contanto que não fique no Vitória tá ótimo.

      Eu não queria dizer isso mas, era de se esperar que o time perdesse 1 tonelada de gols de cara, não adianta jogar bem e perder, prefiro jogar mal e vencer de meio a zero.

      • sombra Says:

        Concordo plenamente com vc, caro Logan.
        Prefiro jogar feio e ganhar.
        É um absurdo ter torcedor defendendo esta carniça.
        Vamos tocer pra que alguma coisa seja feita.

  8. Quiva Says:

    Muita calma nessa hora. Roger conhece do futebol, o time está jogando muito bem, falta apenas solapar. E quem vai receber a galinha pulando? O Coritiba, óbvio.
    O retorno ao G4 é questão de tempo, já garantiu o líder Carpegiane.

  9. olivia Says:

    Belo texto, compadre. Bateu uma saudade do nosso queridíssimo Armandão , o Oliveira. Vá em frente, você tem futuro no comentário esportivo também.
    Olivia

  10. Quiva Says:

    Nos últimos três jogos, dois fora de casa e um em seus domínios, o Vitória empatou dois e perdeu um. De nove pontos, dois apenas foram conquistados e o reflexo disso se deu na tabela do campeonato. O Leão ocupava vaga entre os quatro primeiros Brasileirão e, após a 13ª rodada, o Rubro-negro foi para na 6ª colocação, com 21 pontos, sete a menos que o líder, Atlético-MG, e dois a menos que o quarto colocado, o Corinthians. A caída na tabela pode ser considerada normal em um campeonato longo, como o Brasileiro, mas para o técnico Carpegiani essa situação é momentânea. “Estou satisfeito pela produção da minha equipe e com toda segurança afirmo que vamos voltar ao G4”, afirmou o treinador logo após a derrota contra o Corinthians. Segundo Carpegiani, o time está bem entrosado e jogando bem dentro e fora de casa. “Minha equipe provou que dentro e fora de casa joga da mesma forma. Ficaria tremendamente preocupado se jogasse de uma forma em casa e outra fora”, revelou. Para o voltar ao G-4 ainda nessa 14ª rodada, o Leão vai ter que vencer seu jogo em casa contra o Coritiba e torcer pela derrota do Barueri, que pega o São Paulo em casa, além de torcer para o Palmeiras vencer o Corinthians no clássico paulista. Após o Coritiba, o Vitória voltar a viajar, dessa vez para pegar o Avaí. Ganhando os dois confrontos, a volta aos quatro primeiros é previsível.

  11. Logan Says:

    Tomara que amanhã Roger broque 5 e eu cale minha boca.

  12. moisés sales Says:

    quando menino, lá pelas bandas da eusébio de queiroz e da belo oriente – na gloriosa linha oito (ou liberdade como queiram), tinha baba de rua, futebol de botão e de moeda. das três modalidade, sêo roger só serve para a última. nada de querer fazer o que não sabe, do tipo bater colocado ou ficar penteando a redonda. para os que cresceram batendo bola em quadra de playground e jogando futebol nos nintendos da vida, futebol de moeda era jogado em pedaço de “táuba” (corrige não, revisor!) com um bocado de prego espalhado fazendo as vezes de jogador, onde cada um dos contendores tinha direito a dois ou três petelecos em moeda de poucos centavos. portanto, para que o ataque do nosso dínamo de canabrava volte a brocar, a receita é simples: como não consegue calibrar o pé em direção ao gol, basta acertar a bola em direção ao nosso centroavante. se ele não fizer nada como acima aludi a bola resvala e entra. bingo! ou então se pica logo pras oropa porque parece que a tal da janela virou sua cabeça de vez.

  13. canijah de moreré Says:

    Logan, faço uma aposta com vc. Roger ficará entre os quatro principais artilheiros do brasileirão. Vale a Renovação do Sou Mais Vitória (prata).

  14. canijah de moreré Says:

    Vai ser menage a troi!

  15. Mateus Borba Says:

    Vou deixar a discussão sobre quem ama mais Roger aí em cima pra falar do texto, que ficou nada menos que GENIAL.

  16. valmerson Says:

    novo texto seu Francis!

    http://valmerson.wordpress.com/2009/07/25/vitoria-x-coritiba-vencer-para-retornar-ao-g4/

  17. g. smiley Says:

    qto amor por tão pouco
    todo torcedor é uma iddish mama.

  18. g. smiley Says:

    como aguardando moderação?
    lugar mais de imoderados…

  19. Fábio Monteiro Says:

    ótimo texto deste seu amigo Franciel.

    O que significa a palavra que leva o nome e endereço deste maravilhoso blog?

  20. g. in transleichon Says:

    vitora ainda que tardio…
    talvez buscando a paz-ciência dos mineiros

  21. Logan Says:

    Acho que é ainda que tardia rs
    depois de 110 anos realmente tardia.

  22. FELIPE LASSERRE Says:

    Seo Françuel, PELAMORDEDEUS, faça um apelo a torcida rubro-negra para que no domingo batamos pelo menos a marca dos 25.000 torcedores. Rapaz, é muitíssimo importante que todo mundo vá, mas tem gente que parece que não percebe. Vamos apoiar nosso time em todos os instantes e acabar a rodada com mais esses – preciosíssimos – 3 pontos.
    Acho que seu apelo fará a diferença.
    Um abraço,
    Lasserre.

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