Debaixo dos caracóis, as chapinhas

Hoje, não, que está uma esculhambação dos seiscentos, mas na época em que eu comecei a apreciar e praticar o Ludopédio em 18 idiomas certas frescuras não eram toleradas. E quando falo em frescuras não me refiro somente a estas inúteis firulas que Robinho e companhia ilimitada desfilam pelos gramados. Nécaras. Entendam frescura aqui como sinônimo de mudernagê.

É fato que certas inovações são inexoráveis, pois ditadas pelo marquetingue, que não ergue, mas destrói as coisas belas (chupa, Caetano!). E ilustro esta problemática com o exemplo de Ronaldinho Dentucho, coitado, que foi obrigado a ficar uma Copa inteira ajeitando um pano na cabeça com a marca do patrocinador e esqueceu de jogar bola. E até hoje não reaprendeu. Mas não é disso que trato aqui. O que me causa ojeriza é o cidadão se enfeitar por gosto, vestir uma camisa listrada e sair por aí mais fantasiado do que jumento na Lavagem do Bonfim: é tatuagem, brinco, blush, batom, sombra, o inferno.

Valei-me, meus culhões de São Lipovetsky! Definitivamente, o futebol se androginou, tal e qual o camarada da canção de Luiz Ayrão, aquele que a moça deu bola a ele e ele nem ligou.

Lembro que em minha infância querida, nas priscas eras do carrancismo que os tempos não trazem mais, o menino João Saldanha não permitia nem mesmo que atacante de seu time jogasse com cabelo Black Power. “Esta disgrama amortece a bola e impede o cabeceio”, aconselhava – não exatamente com estas palavras.

Mas ninguém lhe deu ouvidos. Brasileiro só escuta conselho ruim. Ô raça.

Como consequência, restou esta chibança aí. Os cabelos tornaram-se, digamos assim, os apetrechos mais reveladores da personalidade de um time. Para se saber o nível de máscara de uma equipe, basta contar quantos atletas metidos a craque já mexeram na cabeleira, fazendo trancinha, mega hair, um penteado invocado…

“Mas, Sêo Françuel, que viadagem é esta? Isto aqui, por acaso, é um salão de beleza? Eu quero ver é bola na rede”, interrompe o impaciente e antiquado ouvinte.

Eu também, meu caro amigo, eu também. Jogamos no mesmo time. O problema é que este dança de rato capilar tem afetado a prática do velho e bom pebolismo (eu falei pebolismo, hereges). Quando estes moços, pobres moços, começam a bulir nos pixains, é um deus nos acuda, pois craques transformam-se em verdadeiros pernas-de-pau e o inverso nunca é verdadeiro.

Vágner Love, Ronaldo Albertini Nazário, Roque Júnior, Carlos Alberto e outras injúrias maizomenos cotadas são provas de que esta xibungagem não dá certo. É por isso que no Ceará num tem disso, não. Já nesta besta e bela província da Bahia, metida a modernosa, tudo que não presta se acolhe (lá ele). E ainda fazem cópia com atraso.

Não é que a disgrama dos jogadores daqui começaram agora a aderir a esta odiosa moda, infelicitando o Rubro-Negro e, consequentemente, o Brasil, já que o destino do Leão está unido ao de Pindorama e vice-versa.

Para que vocês tenham uma idéia do quão estas coisas estão umbilicalmente, digo, capilarmente ligadas, até o último domingo o brioso Leão era o único do Sarneyzão/2009 com 100% de aproveitamento em Casa, intimidando até os mais ferozes adversários.

Pois muito bem.

Uma das principais peças da equipe e da campanha era exatamente o maluquinho do Apodi, que, cabelo ao vento, gente jovem reunida, desembestava pela lateral-direita (ala é a puta que o pariu) mais rápido e feliz do que um relâmpago no trigo (dá-lhe Cortázar).

Uma beleza!

Pois não é que o desgraçado inventou de fazer uma CHAPINHA no cabelo. E o resultado foi que, além de perder dois gols de cara, o desinfeliz não deu nem um pique sequer no insosso empate contra o Atlético Mineiro no último domingo – talvez com receio de desarrumar o penteado.

Putaquepariu Jassa, o cabeleireiro das celebridades.

Por isso, Carpegiani, antes que a praga se alastre, é preciso dar um basta. E o primeiro passo é colocar na vitrola da Toca do Leão a trilha sonora comandada por Osvaldo Nunes e Celso Castro, que, no ano da graça de 1967, largaram o clássico instantâneo do cancioneiro popular: “Deixe meu cabelo em paz”.

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12 Respostas to “Debaixo dos caracóis, as chapinhas”

  1. Luiza Meira Says:

    Oh Franci, esse jassa ainda existe???
    Se em cabelo de mulher eu já acho chapinha, alisamento, relaxamento etc, uma agressão sem tamanho (dificilmente não ficam com aspecto “crina de cavalo”), imagine nas cabeças masculinas…que lástima!!
    Não sei quem é esse um aí, de cabelo “chapado”, mas já adianto que deve estar horroroso!O fim da picada vai ser quando inventar fazer a sobrancelha…deusulivre!!!
    (Os adeptos dessas práticas meio (meio??)afeminadas, se dizem “metrossexuais”,(glup!!) mas meu conservador pai, diria que é viadagem mesmo!!)

  2. Rodrigo Says:

    Franciel,
    Eu poderia deixar para escrever esta mensagem somente amanhã, mas como também não sou profeta do que já aconteceu, digo já: eis que vem pela frente uma abalisada verdade sobre o jogo corinthians x TRITÓRIA, que está sendo considerado a virtual final do Brasileirão (royalties a quem de direito: esta densa declaração não é minha, está no Globoesporte.com).

    Hoje é o dia da afirmação. O dia em que o TRITÓRIA esclarecerá ao país
    a sua condição de franco favorito ao título. Guardem estas palavras:
    um SONORO triunfo sobre o corinthians acontecerá esta noite.

    Por isto, nesta conspiratória noite de quinta-feira, contra tudo e contra todos, anuncio: SOU TRITÓRIA E DOU UM GOL.

    BORA TRITÓÓÓÓRIAAAAAAAA!!!!

  3. canijah de morere Says:

    Sei que sou suspeito pra falar desse assunto devido ao meu futuro vizinho, aquele sujeito leve e de cadura angelical. Mas não me furto em dizer-lhe que o seu conservadorismo não é só para com o uso do celular, este passa pelo metrossexualismo da juventude.
    Preconceitos a parte, o mesmo garoto q vc vociferou com retumbância na última missiva era um EMO de 14 anos que estava no dregrau anterior ao que estávamos sentado, lá no Santuário. E o que vc não tá vendo é que Esses Moços, Pobres Moços se espelham na juventude pagodeia e no Rap, como a de Jairzinho se espelhou em James Brow, Roberto Carlos (que introduziu a chapinha no Brasil) e Toni Tornado, assim como a minha se espelhou em Jim Morrison, Novos Baianos, Doces Bárbaros, Piter Gabriel, David Bowie, Wolverine e Prince (falo dos mutantes). Aí vc me responde: sim seu Canijah, o meu espelho vem da velha guarda! Então, meu caro Francis vos digo: as aparências enganam. Basta ver o caso de Agnaldo Timóteo. “Na galeria” é gente que não aparenta, mas é. Tem gente q aparenta e não é. Qual o problema sheakespiriano q não se resolva com um bom divã?
    Portanto, nobre relator, peço que tenha cuidado pra não envelhecer esta nobre alma antes do tempo.
    Os futuros torcedores rubronegros agradecem!

  4. Quiva Says:

    Meu velho, esse texto está impagável. Mas me diga aí sobre a revolta de Moreré?? Será que ele já agendou uma chapinha?

  5. Victor Nyo Says:

    É isso… Apodi agora deve tá escutando emocore ou alguma coisa parecida.

  6. Lionel Says:

    Oremos então para que Leandro Domingues não resolva fazer implante capilar.

  7. Dalmo Carrera Says:

    Exatamente Franciel Cruz, neste tema concordo perfeitamente, você lá no alto de Canabrava, eu cá, na baixada de Itinga. Li não sei onde ou quanto, que em véspera de jogos transmitidos pela Rede Globo aos domingos, a concentração dos clubes envolvidos na partida eram invadida por cabeleleiros, esteticista, manicures, pedicure e os cambal, tudo isto para um misto de produção fashion do tipo afro para encantar a platéia supostamente encantada, é o famoso markentig pessoal, é o futebol em segundo plano.

    Agora meu velho, o caso de Apodi é bem mais grave, tão grave que a única diferença da metamorfose entre o lateral do Vitória e o Michael Jackson que me apercebo é, que um já morreu e outro ainda vive correndo por aí!

  8. Anrafel Says:

    Num particular item da sua explanação, há uma justificativa: Apodi espelha-se quiçá em seu conterrâneo Marinho Chagas. Alguém viu um recente Esporte Espetacular sobre o lateral-esquerdo (precisa dizer?)? Meu filho matou na hora: a cara de Apodi, só que depois dos cinquenta. Existiria um protótipo do homo potiguaris?

    E João Saldanha não era mesmo moleza. Interpelado sobre ter dito que haveria alguns viados no time de basquete do Fluminense, ele redarguiu: “eu jamais cometeria a injustiça de afirmar que tem alguns viados quando se sabe que ali todo mundo o é”.

  9. Logan Says:

    E

  10. Logan Says:

    Essa do saldanha foi de lascar!
    E quanto ao jogo do ontem, quero ver as viúvas do Roger agora, não só ele, mas o time inteiro cansou de perder gols.

    Sem falar que o 4-4-2 que na verdade é 3-5-2 não está funcionando, melhor seria usar um 4-4-2 que é 4-4-2 mesmo, com apodi na direita e tudo.

  11. canijah de moreré Says:

    Tá na hora de trabalhar, rapá!!!!
    Cadê o texto da ressaca: “jogou bem, mas perdeu fora de casa”. Ou sobre o que estava encutido em Roger.

  12. Anrafel Says:

    Não vi nada de futebol na TV hoje, mas pelo escutado ontem no rádio Felipe fechou o gol, o que inclui intervenções em alguns dos gols perdidos. É claro que isso não justifica, como é claro também que 50% da torcida vão continuar desconfiando de Roger (o que não surpreende, já que até hoje metade da torcida continua desconfiando de Leandro Domingues). Mas o resultado foi normal, daqueles previstos nos cálculos – diferença de um gol com gol marcado.

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