A gente veio aqui pra torcer ou pra conversar? *

Praga é o adjetivo mais suave que consigo encontrar para certos estereótipos que são criados e muitas vezes potencializadas pelos meios de comunicação. Praga, porque basta ver um câmera ou um microfone qualquer, para que as pessoas passem a macaquear seu comportamento, mandando a naturalidade para o espaço.
 
É como uma espécie de jogo. As pessoas esperam que você tenha um determinado tipo de comportamento e, como que para não desapontá-las, você cumpre com o seu papel, ainda que aquilo nada tenha a ver com a sua personalidade.
 
Poucos povos, em todo o Brasil, devem ter um elenco de estereótipos tão vasto quanto o baiano. Para o Brasil, o baiano ideal é preguiçoso, malemolente, amigo, deseja “axé!” para todos, fala “meu rei” em cada frase, tem um orixá de sua preferência e come vatapá até no café da manhã. O baiano real, sabemos bem, é muito mais rico que essa enxovalhada de estereótipos.
 
Além de “preguiçoso”, porém, o único estereótipo que me irrita de verdade é o de que o baiano é um povo “festeiro”. Talvez porque seja essa a característica que mais se aproxima da realidade, o que diminui as minhas chances de argumentação diante de um forasteiro qualquer.
 
Ou talvez, porque seja esse o traço que mais atrapalha o Vitória. Sim, essa ainda é uma coluna sobre futebol e, principalmente sobre o glorioso Decano.
 
É, podemos não dizer axé! ou “meu rei”, tampouco gostar de vatapá, mas não dá para negar que a torcida do Vitória é bastante “festeira”. Isso deveria ser ótimo, você deve estar pensando, mas insisto, ao contrário, nos atrapalha demais! E justo na hora mais importante: a hora da decisão.
 
Só para ilustrar, cito três momentos cruciais em nossa história, nos quais isso ficou bastante evidente. As finais do Brasileiro contra o Palmeiras(93) e Paraná(92) e a semi da Copa do Brasil contra o Flamengo em 2004.
 
Em todas, um roteiro muito parecido. A torcida do Vitória não foi para fazer festa, pior, foi para ver uma. Com um espírito de rir, cantar parabéns e comer bolo. Justo no momento mais importante a torcida parece se esquecer que está indo assistir uma final e comparece ao estádio com o espírito desarmado. Daí, quando a bola rola e a realidade aparece, a torcida, ao invés de entrar no jogo, permanece numa irritante letargia, como que aguardando que a qualquer momento a festinha para a qual ela foi convidada comece.
 
Em 93 isso chegou a ser patético. Cem mil pessoas na Fonte Nova(testemunha ocular, posso afirmar que havia mais do que os 77 mil anunciados) e nenhum grito de incentivo. Incrível! Quando o juíz apita o final do jogo, aí a torcida aplaude em peso e grita em côro:”Nêêêêêgo!” Aquilo foi demais para mim. Foi a única vez em toda a minha vida que chorei em um revés do Vitória(todas as demais foram em momentos de triunfos). Meu irmão Ricardo, único a me ver chorar, deve ter pensado que minhas lágrimas eram de tristeza. Nada disso. Era raiva pura! Raiva da torcida. Poxa, passaram os 90 minutos calados e ao final aplaudiram, ignorando o jogo da volta. Foi como se dizessem, “é valeu, mas em São Paulo não vai dar!” Pois foi esse espírito que passaram aos jogadores, que no Morumbi entraram em campo apenas para perder de pouco.
 
Muito bom , pela primeira vez, fazer esse desabafo. Melhor ainda poder lembrar ao torcedor que o que vamos ver no domingo que vem não será um trio elétrico. Estamos indo acompanhar uma guerra! O seu comportamento nas arquibancadas e cadeiras do Barradão pode fazer toda a diferença.
 
Ir para esta guerra é estar preparado, por exemplo, para a eventualidade do inimigo sair na frente com um ou mais gols, mas lembrar que foram os seus gritos de incentivo que levaram o Vitória a viradas heróicas em circunstâncias assim, como no 5×4 contra o Vasco em 99, no 3×2 contra o São Caetano em 2007 e mais recentemente no 2×2 contra o Jahia que nos garantiu o Tri esse ano.
 
Ir com espírito de decisão é ao invés de passar o jogo inteiro gritando “senta, senta, aí”, levantar junto com os demais para torcer.
 
Incentivar, incentivar, incentivar, os 90 minutos, na boa ou má partida. Não é festinha, é guerra! 

* Este valioso e combativo libelo é de autoria do menino Rogério Silveira.

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12 Respostas to “A gente veio aqui pra torcer ou pra conversar? *”

  1. Logan Says:

    A torcida precisa aprender a torcer quando o time está mal no jogo, fazer do Barradão um caldeirão de verdade.

  2. Juvenal Says:

    Porra Franciel, já ia dizer q esse foi o melhor texto que você escreveu até ler a ultima frase. De qualquer forma, parabéns para o autor.

  3. snowman Says:

    Espetacular.
    Este um dos textos que eu gostaria muito de ter escrito.
    Rogério, nota 10 para você.
    Amanhã a gente não pode ir lá assistir a máquina de fazer felicidade se apresentar, a gente tem que fazer o espetáculo acontecer.
    A chance do Atlético sair na frente é bem real e agente tem que empurrar o time pra dentro do Galo!
    Abraço, meu velho!
    Franciel, parabéns para você também. Quando não está escrevendo com sua habitual qualidade está publicando o que há de melhor.

  4. canijah de moreré Says:

    Vamos nessa galera. Cada jogo uma história!!!!!

    Ah! E por falar em se aparecer foi feita uma pesquisa pela FACOM onde a Bahia só ganha destaque nacional na mídia televisada nada menos que 23 segundos. Só não sei se é por mês ou por semana. Mesmo assim é pouco. Pode Fraçuelsonnnn?!!!

  5. Haroldo Mattos Says:

    Estive convencido por muitos anos da minha vida a participar até de batizado de boneca, desde que ela fosse rubro-negra. Perdi um pouco em 2006, este tesão pelo time. Era inicio de serie C e por não conhecer Jorge Sampaio e Alex não tinha confiança.
    Primeira partida no Barradão e estava eu lá, com minha cara de puta. Envergonhado por dentro, mas cinicamente vestido com minha camisa de 1999 (Salvador 450 anos). Vitória 3 x 0 Ipitanga num mesmo 19 de Julho,há tres anos atrás foi nossa primeira vitória rumo a serie B 2007.
    Mesmo timidamente, esboçei as mesmas reações. Cantando e pulando nos bons momentos, e colado ao alambrado quando o sentimento de mal-agouro batia.
    Estive no jogo citado em 1993. Também pouco vibrei, porque todo o estádio estava frio. Também saí com o sentimento de perda total para o jogo de São Paulo.
    Hoje outros tempos. Mesmo que percamos (Lá ele!) devido aos desfalques, tenho certeza que nada estará perdido. Completos, temos time para chegar sim.
    Vamos Vitória. Vamos valorizar, vivenciar e vaticinar a vitória.
    Nos piores e nos melhores momentos estive com voce, meu time. Amanhã estarei de novo.!
    VVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVVITÓRIAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!!!
    Te Amo Vitória!
    Sempre.
    Haroldo Mattos

  6. Zé RN Says:

    Teria que fazer uns panfletos pedindo para a torcida não parar de cantar e apoiar um só instante.
    Colocar alguns membros dos IMBATÍVEIS nas cadeiras e junto com a CAMISA 12 para agiterem esses dois lugares e o barradas virar um caldeirão mesmo.

  7. Daniel... Says:

    Simples e direto! Foi logo na ferida!
    A questão é que a torcida do ECV tem medo de criar expectativas muito grandes. Isso é explicado pela história do ECV.
    É mais fácil ir pro estádio no espírito de que: “o que der, está bom”.
    O pior é que, ás vezes, incluo-me, envergonhadamente, nesse estereótipo.
    Mas estamos mudando…
    VAMU, VAMU, NEGOOOOO…VAMU, VAMU, NEGOOO…

  8. Leonardo Lima Says:

    Concordo com a divisão da torcida os Imbativeis, o apoio normalmente só sai desta parte da torcida e com a divisãoum lado poderia puxar o outro.
    BORA TRI-TÓ-RIA, CARAJO!

  9. Lucas Serra Says:

    Depois que o Palmeiras venceu ontem, ganhar agora é mais do que nunca uma obrigação.

    Bora Vitória!! Derrubar esse galinho na guerra do Barradão!!

  10. FELIPE LASSERRE Says:

    Rapaz, é incrível que mesmo com a gente falando tanto, pedindo tanto, explicando tão didaticamente, ainda teve torcedor ontem que esboçou ficar pegando no pé de Apodi. Caralho, vai vaiar o cara quando ele pega na bola? Ele não tá lá no gramado vestindo nosso manto? Já não conseguiu tantos cruzamentos e tantas faltas importantes a nosso favor? Vaiar ele na substituição só pode ser coisa de torcedor ingrato, aquele que a gente não quer mais ter. Avisa a todo mundo que o perfil da torcida do Vitória mudou, só não viu quem não quis ver.
    Abraço e saudações rubro-negras.

  11. Logan Says:

    Rapaz, é inacreditável, ontem deu menos torcedores do que contra o Santos, como disse o autor do texto, é uma torcida de festa mesmo, ainda tentaram vaiar Apodi (que realmente não jogou bem mas não o suficiente pra ser vaiado), ridículo.

  12. george Says:

    Muito bom velho!!!!!!!voce fez uma leitura desses torcedores que vao para o estadio por que nao tem o que fazer,eu queria que fossem so os 9 ou 10mil pois so iriam os torcedores verdadeiros nao esses 15 ou 20 que sao corneteiros sao ridiculos mais vamos buscar os 3pontos contra o coritinhas!!!!!!!!!!!
    PRA FRENTE LEAO!!!!!!!!!!

    VITORIA ETERNAMENTE!!!!!!!!!!

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