UMBORA VANDERSON, CARAJO!

“Na hora de odiar, ou de matar, ou de morrer, ou simplesmente de pensar, os homens se aglomeram. (…) A opinião unânime está a um milímetro do erro, do equívoco, da iniqüidade. (…) Toda unanimidade é burra. Quem pensa com a unanimidade não precisa pensar”. Pois é amigos, Nelson Rodrigues não conheceu VANDERSON, por isso escreveu isto.

Muito obrigado pelos aplausos, mas lamento informá-los que as palmas pelo parágrafo negritado acima devem ser destinadas ao menino Haroldo Mattos.

Porém, para que não me acusem de preguiçoso e plagiador, mais do que já mereço, rabiscarei algumas coisas tentando explicar como ocorreu tão inesperado e unânime fenômeno que tem emocionado o futebol da Bahia e de uma banda de Sergipe. Sim, fenômeno, pois não consigo achar outra palavra para descrever o que aconteceu com a história deste jogador e do Vitória.

E a minha teoria é a de que o referido atleta tem poderes visionários, sobrenaturais, pois só isso para explicar algumas decisões que ele tomou, especialmente a de abandonar um time que estava na primeira divisão para atuar no subsolo do futebol brasileiro, a Terceirona, que o glorioso Vitória habitava naquele triste 2006, ano que, se Deus e VANDERSON quiserem, nunca mais voltará. 

Pois bem.

Qualquer criança de seis anos sabe muito bem que o Todo-Poderoso não foi exatamente generoso para com o nosso boleiro. Aliás, boleiro é uma gentileza, já que ele nunca teve intimidade com a redonda. Sua vaga no futebol foi cavada com pura persistência, o famoso “joga de teimoso”, e só continuou na profissão por causa de sua inexcedível raça que compensava suas fragilidades. E, mesmo com toda  a garra, um jogador assim está destinado a ser sempre um coadjuvante. (Aliás, até o início do segundo semestre de 2006, nosso herói era apenas um Carlos Aguiar da Silva da vida – um meio-campista comum, que já havia gramado por Castanhal-PA (97-2000), Paysandu (2001-2003 e 2005), Atlético-PR (2004) e Juventude (2005-2006). Sua maior glória até então havia sido a conquista de um brasileiro da Segundona em 2001. Porém, logo depois, já existiam sinais de que sua vida seria marcada por feitos sobrenaturais. Em 2003, jogando pelo brioso Paysandu conseguiu brocar o Boca Jr. em plena La Bonbonera).

Pois muito bem.

É exatamente aí que entra minha tese de que VANDERSON é um visionário. No bendito segundo semestre de 2006, em uma jogada completamente fora dos padrões, ele deu a grande virada na sua vida: abandonou a disputa da primeira divisão e decidiu unir seu destino ao da Nação Rubro-Negra. Uma verdadeira queda para o alto, pois ao contrário do que indicaria todas as previsões, ele, mesmo desprovido de habilidade, começou a construir uma trajetória jamais imaginada: tornar-se o ídolo máximo de um time de futebol. Mas, não estes ídolos que se desfazem como sonhos de verão, e sim aqueles que marcam para sempre a história de um clube.   

A partir de então, a relação entre VANDERSON e o Vitória foi assumindo ares épicos. A cada partida, ele ganhava a confiança e o respeito da torcida e vice-versa. No princípio, o rapaz demonstrava seu amor apenas com raça e força de vontade. Com o passar do tempo, porém, outro assombro: nosso guardião do meio campo passou a exibir também uma técnica inesperada. Talvez seja o caso único no mundo da bola em que o sujeito torna-se habilidoso depois dos sete anos de idade.

Porém, como é comum nos duradouros casos de amor (e três anos em um time, hodiernamente, é uma eternidade) não havia declarações públicas. Sim, o amor existia, mas quase que em silêncio – apesar de todos saberem que ele estava ali. E ele, o amor, apareceu em sua plenitude há menos de dois meses num jogo meeiro entre o Vitória X Atlético de Alagoinhas.

Nesta referida partida, que valia pela semifinais do Baianão, VANDERSON retornava à equipe depois de alguns jogos no estaleiro. E tudo transcorria normalmente. O Leão garantindo vaga à final e dominando o jogo – até que o juiz paralisa o espetáculo, como se obedecesse a alguma ordem divina ou já soubesse que o guerreiro precisava ser saudado. E assim foi. A torcida começou a gritar e a cantar o nome do ídolo por mais de cinco minutos, sem interrupção. Uma das maiores demonstrações de admiração para um atleta que já vi nestes meus quatro séculos de vida. Ao ver e ouvir a homenagem, VANDERSON fez apenas o que lhe cabia naquele momento: beijou o MANTO SAGRADO e ficou com os olhos rasos d’água, num choro incontido, sincero e profundo.

Depois disso, o romance assumiu ares ainda mais épicos, coisa de botar William Shakespeare no chinelo. VANDERSON, que já havia declarado que não deixaria o Vitória mesmo se recebesse uma proposta financeira melhor (algo completamente inconcebível neste mundo em que os atletas se vendem, literal e cotidianamente, por trinta dinheiros) passou a receber um valor que nenhum salário compra: elogios até mesmo quando erra passes. Um assombro.

Aliás, por falar em assombrações e quebra de paradigmas, VANDERSON conseguiu mais duas façanhas. A primeira é que mesmo afirmando que gosta de entornar umas canjebrinas nunca foi acusado de preguiçoso ou barqueiro. A segunda, e mais surpreendente, é que acabou provocando uma verdadeira façanha: fez com que o Marquetingue do Rubro-Negro, que tem sido pródigo em lambanças, tomasse uma atitude digna de aplausos: confeccionar uma camisa 5 com a marca do ídolo. Ou melhor, com as marcas: metade da face de pitbull e metade de VANDERSON. Ou seria vice-versa? Não sei. O que sei e ouço agora são os gritos da população do Norte e Nordeste de Amaralina, que novamente saiu em passeata com o seguinte brado:

UMBORA VANDERSON, CARAJO!

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16 Respostas to “UMBORA VANDERSON, CARAJO!”

  1. John Says:

    Ótimo texto, seu Françuelho (receba outro apelido pelos mamilos). Tomara que VANDERSON acabe tendo acesso a esses textos dedicados a ele, pra ele ver o quanto é querido pela torcida.
    É muito difícil hoje em dia um jogador ganhar status de ídolo num clube, e quando isso acontece, o mesmo é logo vendido a um time europeu, e aí, nunca mais.
    Temos sorte de no Vitória termos VANDERSON e Viáfara, jogadores que possuem uma identificação clara com o time. Além do louco Apodi.

  2. Lionel Says:

    Já estava com meu protesto engatilhado quando li “desprovido de habilidade”, mas você tem toda razão: Vanderon só resolveu mostrar que tem alguma intimidade com a redonda de uns tempos para cá.

    Grande texto, grande homenagem, grande jogador. Só o meu bolso que vai ter que ser grande também, porque eu já pretendia comprar a camisa dos 110 anos, e essa camisa 5 agora pôs uma dúvida em minha cabeça.

  3. Daniel Says:

    É incrível como o futebol é impossível de entender. O pior que ainda existem alguns chatos que tentam fazer dele uma ciência exata, com estatística e esquemas táticos quiméricos (foi mal).
    Engraçado seria um diálogo de um E.T. recém chegado à Terra com um torcedor fanático:
    E.T.: – Por que pessoas se reúnem para ver outras poucas atrás de uma bola.
    TORCEDOR: – É um esporte muito popular, e as pessoas acham divertido verem outras fazendo jogadas espetaculares e gols, principal jogada desse esporte.
    E.T.: Hum! E quem é aquele camisa 5 ali no campo?
    TORCEDOR: É Vanderson, ídolo da torcida rubro-negra!
    E.T.: Legal… Então ele deve fazer muitas jogadas espetaculares!
    TORCEDOR: Não, não faz não!
    E.T.: Ah! Então deve fazer muitos gols?
    TORCEDOR: Também não!
    E.T.: Não entendi nada. Vocês são uns loucos por idolatrar esse jogador então!
    TORCEDOR: Louco? Louco é você. Vá torcer pelo Itinga então!

  4. Lucas Serra Says:

    Belo texto Seu Franciel, mas porque você não coloca pelo menos uma foto na postagem?

    SRN

  5. Benjamin Says:

    Pois é Sêo Françuel, O Gladiador da Toca a cada jogo honra a camisa que um dia vestiu Bigu e mesmo com tantos anos separando os períodos em que cada um deles atuou e em que passaram diversos e inúmeros atletas jogando na mesma posição, nenhum deles encarnou o espíito guerreiro de Bigu como o holândes do Pará Van der son.

    A justa homenagem rendida pelo departamento de marketing deve inspirar outros atletas a buscarem o mesmo mérito e com isso só quem ganha é o Leão. Já vejo em breve uma camiseta com um desenho de Viáfara com o corpo constituido de tijolos em referência ao paredão que ele é, ou de Apodi com o os pés do papa léguas.

    Isso prova que para ornar-se um ídolo não basta apenas ser craque, pois o futebol ainda é um jogo de emoções. Para um atleta chegar a esse patamar tem de ter identificação com o clube e empatia com a torcida.
    E isso, conforme falamos outro dia, o pitbull conquistou jogando por música, a música de Caetano: “mete o cotuvelo e vai abrindo o caminho…”

  6. Valmerson Says:

    Franciel, você sem duvida é um blogueiro fora do normal e conseguiu até marejar os olhos deste mero leitor, o texto sobre o Vanderson é perfeito e de uma magnitude sem igual.
    parabéns!

    http://valmerson.wordpress.com/

  7. Fábio Monteiro Says:

    Muito bem Franciel. Tudo para Vanderson ainda é pouco, pois ele é um grande jogador, um ídolo puro sangue e joga com seriedade e honra em nosso time.

  8. Haroldo Mattos Says:

    Obrigado Franciel,pelos créditos. Voce realmente é d+. Gostaria de ter escrito tudo o que vc escreveu, porém achei que ficaria prolixo, escrever tanto, num espaço para comentários rápidos.
    Voce conseguiu pegar um tema bem tratado e dissecado por Fábio Monteiro, que escreve uma barbaridade, por Larissa Dantas, que também o fez competentemente por duas vezes, e… Pimba! Fez uma homenagem espetacular sem ser redundante. Parabéns cara!
    Ah! Não sei também se poderia me creditar, pois não vi nehuma referencia, mas dei esta ideia da camisa de Vanderson, via comentário no blog do site ecvitoria a cerca de um mes atras.
    De qualquer forma, aguardo o lançamento dela para comprá-la e usá-la com orgulho, assim como já uso a nº 1 grená de Viáfara como se fosse minha segunda pele.
    Te Amo Vitória!
    Sempre.
    Haroldo Mattos

  9. Robson Dragic Says:

    Depois de ler seu texo fiquei sem palavras uma obra de arte!!! parabens VANDERSON e mais 10 Nesse atual time do VITORIA!!!!!!

  10. Sérgio dias silva Says:

    Mesmo sem ser tecnoanta eu vi uma fot sua blog do Vitória. rsrsrsrsr. Agora pra Vanderson ganhar mais destaque ele tem que chutar mais no gol pois me esqueci qual foi o ultimo chute (ou gol ) dele. ô seu Franciel porque você não joga o Cartola FC também?

    Vitória Sempre

  11. Geraldo Says:

    Não sei onde estava ou o que me impediu de ir a este jogo contra o Atlético de Alagoinhas e poder presenciar e ajudar nesta homenagem ao nosso grande ídolo, até hoje não me perdôo por esta heresia, porém fiz um juramento que depois desta ausência não me permitirei faltar mais ao santuário Rubro Negro nem que volte andando até os Barris muito bonito e respeitoso o seu texto Franciel mesmo vc sendo um louco mas quando toma o seu gardenau na hora certa é de uma lucidez sem conta gostaria que vc também fizesse um texto pro Viafara que também tem demostrado amor e respeito ao nosso grandioso Vitória.

  12. Lacerda Says:

    Vanderson na era do Barradão vc juntamente com Petkovik foram sem dúvidas os grandes idolos do nosso Leão , jogam com garra , força e amor ao nosso querido clube .
    Parábens Franciel pelo texto e Vanderson parábens pela forma como encara sua profissão e respeito ao Vitória.

  13. Humberto Says:

    Rapaz, não sou muito de ver o blog do finado não, mas hoje estava sem fazer PN e resolvi da uma olhadinha… me acabei de rir com as musas do finado… na moral dêem uma olhadinha lá.
    Uma coisa tenho que admitir… eles não ganham PN mas se divertem ….kkkkkkkkkkkkkkk
    http://colunas.globoesporte.com/josericardo/2009/06/16/musa-do-blog-a-quarta/#comments

    SRN

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