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Um não à intolerância

maio 6, 2009

                                                                                                                     Victor Uchôa*

Sou Vitória. Incontestavelmente Vitória. De berço. Vitória dos que já largaram o fechamento de um jornal no meio para ir ver o Rubro-Negro jogar (e ao contrário do que muitos poderiam pensar, me orgulho disso). Sim, sou Vitória. E defenderei até onde for possível a existência do Esporte Clube Bahia.

Aos que pensam em contrário, sugiro uma olhada nas mal-traçadas de Eduardo Galeano, que em Futebol ao Sol e à Sombra, lançou ao vento as seguintes palavras: “Como todos os meninos uruguaios, eu também quis ser jogador. Jogava muito bem, mas só de noite, enquanto dormia: de dia era o pior perna-de-pau dos campos de meu país. Como torcedor, também deixava muito a desejar. Alberto Schiaffino jogava no Peñarol, o time inimigo. Como bom torcedor do Nacional, eu fazia o possível para odiá-lo. Mas Schiaffino, magistral, armava o jogo do seu time como se estivesse do alto da torre mais alta do estádio, vendo o campo inteiro. Eu não tinha saída a não ser admirá-lo. Os anos passaram e com o tempo acabei assumindo minha identidade: não passo de um mendigo do bom futebol”.

O que pretendo mostrar com a citação de Galeano é que todos nós, torcedores que se dedicam às suas bandeiras, que esquecem os compromissos para ver o time em campo, que sentem o peito apertado na tormenta de uma derrota, não passamos, em último grau, de mendigos do bom futebol. Agora questiono: para nós, o “bom futebol” do Vitória não é o “melhor futebol” do Vitória quando é jogado contra o Bahia? Os títulos não são mais saborosos quando são conquistados em cima do Bahia? São sim.

Aos 23 anos, não sou mais experiente dos torcedores, mas, nos estádios desde o cinco, sou de um tempo em que tricolores e rubro-negros subiam a Ladeira das Pedras rumo à Fonte Nova lado a lado, formando um mosaico só possível quando todos sabem que um triunfo naquele domingo será mais saboroso do que em qualquer outro. E não interessava o resultado do jogo, Vitória e Bahia iam para a Lapa juntos. Hoje, levantam a possibilidade de clássicos só com a torcida do mandante e, o cúmulo, tem gente que quer o fim do Bahia. Há o argumento de que podem surgir novas forças. Já deveriam ter surgido. Por que não aconteceu? Porque o Bahia está fraco, logo, o Vitória não está tão forte quanto poderia (ou deveria) estar. Quem vai apostar numa praça esportiva como essa? O Flu de Feira não sabe nem se terá condições ($) de disputar a Série D.

O Bahia tem sua história: glórias, títulos, a conquista nacional, a superioridade numérica em torneios estaduais. Falam da influência política de outrora. E daí? Tudo aquilo está com eles. Temos que mirar isto para alcançar glórias semelhantes, para engrandecer a nossa história, já cheia de belos capítulos, como o pioneirismo profissional e a brava resistência política, além de uma contemporaneidade amplamente vencedora.

Felizmente, já tive a oportunidade de acompanhar in loco grandes embates do futebol mundial. Manchester X Arsenal em Old Trafford, Inter X Milan em San Siro (ou Giuseppe Meazza), Benfica X Porto na Luz. Com alguma pretensão, posso garantir: nenhum deles quer o fim do rival. Eles se completam na vitória, na derrota e, creiam, na gozação saudável do dia seguinte, coisas que não conseguem conceber os arruaceiros que se dizem “torcedores organizados”.

Momento sublime: junho de 2008, Viena (Áustria), final da Eurocopa, Alemanha contra a Espanha. Duas nações diferentes, duas escolas futebolísticas diferentes, de um lado a tradição incontestável, do outro o talento jamais comprovado, o título mais importante do continente em disputa e nas ruas…todos juntos. Bebendo juntos, cantando juntos, torcendo juntos. Ninguém me contou. Eu vi. Como vi um alemão aplaudir o gol de Fernando Torres que deu a taça aos espanhóis.

Não peço aqui que ninguém aplauda belas jogadas ou talentosos atletas do Bahia – até porque esta equipe não possui no momento. Só penso que o amor de Galeano pelo Nacional, aquele lá do início, cresce quando o seu clube de coração consegue superar o Peñarol, mesmo com o craque da época estando no fronte oposto. Surge, num momento único, a tradução literal do futebol: o jogo coletivo, o Football Association presente no nome daquela entidade que todo dia tenta acabar com a graça da maior invenção do homem. “Eles” podem ter o astro, “nós” temos o time.

Quando cada jogador rubro-negro entra em campo, somos nós que pisamos nos gramados, num corte temporal para o sonho de infância. E por mais que eu sonhasse, o adversário em quem eu marcava o gol nunca foi outro. Era sempre o Bahia. Na saída do goleiro, eu cutucava para as redes da meta do Dique e corria para esquerda, berrando loucamente, mandando calar a parte tricolor da arquibancada.

Pela eterna preservação de meu sonho, eu quero um Bahia forte, para derrubá-lo assim mesmo, até quando eu estiver nas cordas, combalido, como no último domingo, e ressurgir vencedor tal qual Antonio Balduino contra Ergin, o alemão “campeão da Europa Central”.

* Apesar de jornalista, meu amigo Victor é gente boa e tem o atenuante de ser Rubro-Negro.

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