Caldo de galinha e erudição não fazem mal a ninguém, conforme ensinava Irmã Dulce nas inolvidáveis homilias dominicais. Assim, começarei a aula magna de hoje seguindo este conselho de minha santa preferida e gastarei uns três ou nove parágrafos analisando a situação socioeconômica da Bahia em meados do século passado.
Naquela época, como é de conhecimento de 97,16% dos cultos ouvintes desta emissora, esta besta e bela província enfrentava uma grave estagnação econômica – processo este denominado de “enigma baiano” pelo professor Pinto de Aguiar, aquele mesmo que dá nome à rua dos motéis.
Mas, derivo.
O fato é que, em toda a sua história, esta terra inconsequente e lerda sempre andou com o freio de mão puxado, quase parando. No entanto, neste referido período, a leseira foi ainda maior. E, como sói nestes momentos, milhares de estudiosos se debruçaram (lá eles) sobre o tema e levantaram as mais díspares hipóteses.
O menino Tales de Azevedo, por exemplo, garantia que o problema era decorrente da “influência materna na constituição das famílias irregulares de nossa sociedade”. Por sua vez, Braz do Amaral falava que o atraso era decorrência da “sangria de braços na guerra do Paraguai”. Já Rômulo Almeida, depois de fazer um comparativo entre as economias baiana X pernambucana, pregava que o entrave relacionava-se a questões geográficas e históricas.
É óbvio que não se chegou a nenhum consenso – e a Bahia continua até hoje nesta maresia de dar gosto.
“Valei-me, meus culhões de Cristo! O homem amaluqueceu de vez. Tá cheirando maconha, Sêo Françuel? Que conversa enviesada da porra é esta? O que é que isto tem a ver com o Vitória?”, interrompe-me a impaciente e religiosa ouvinte.
Pois bem. Aspiro mais dois tragos e respondo. Ou melhor, não respondo, mas tomo emprestado o rótulo e digo que neste Sarneyzão/2009 há um “enigma vitoriano” que precisa ser decifrado. Afinal, qualquer criança de seis anos, que consiga dar pelo menos 3 pontinhos numa bola, sabe que não há nenhuma equipe jogando mais bola do que o Rubro-Negro neste ano. Pode ter igual. Melhor, não.
Então, por que diabos times muito maizomenos, como Palmeiras e Atlético, lideram a competição enquanto o Leão patina no meio da tabela?
Talvez o mundo acabe e nunca tenhamos a resposta exata. Porém, não custa levantar hipóteses. E a minha é a seguinte: Mais do que a postura em campo, falta atitude fora das quatro linhas.
Eis dois exemplos que ilustram o que digo.
Depois do jogo contra o Palmeiras, sintonizei numa destas rádio da vida para ouvir a execução do hino do Vitória, as narrações dos gols, as piadas dos torcedores, enfim, estas coisas que prolongam nossa alegria após um triunfo espetacular contra o líder do campeonato.
Porém, o clima era de enterro. Só se falava que Neto Berola ia ser vendido, que a renda tava errada, que Roger não jogava nada, que havia urubus sobrevoando o estádio, enfim, um quadro apocalíptico.
No início, pensei que era apenas algo pontual, mas permaneci ligado e verifiquei que esta ladainha se prolongou ad infinitum. Após as presepadas dos radialistas escrotos, entra no ar o presidente Alexi Portela com um ânimo de velório.
Putaquepariu a falta de vibração!
É claro que qualquer possa em sã consciência, e com o mínimo de boa fé, reconhece que Alexi tem feito um trabalho digno à frente do Leão. Saneou as contas, fez uma acertada política financeira e etc e coisa e tals. Porém, é preciso mais. Além de uma boa administração, um presidente tem o dever de elevar a moral da tropa, assumir o front, reconhecer os erros e, principalmente, celebrar as grandes conquistas com fervor para contagiar a equipe. E vencer o líder da forma que vencemos foi um grande feito. Porém, Alexi falava na rádio como se o Vitória tivesse tomado uma balaiada do porco paulista.
Putaquepariu a falta de vibração!
E esta, digamos assim, apatia ocorre não somente depois dos triunfos, mas antes mesmo de a bola rolar.
Vejam o caso do jogo contra o Atlético Mineiro. Apesar de comandar um time meeiro, Celso Roth, que nunca ganhou porra de nada em nível nacional, assumiu o discurso de vencedor. Na antevéspera do jogo contra o Rubro-Negro, ele afirmou que seu time era candidato ao título. E falou isso passando convicção – e não somente a boba arrogância. Enquanto isso, Mancini dava entrevistas quase que pedindo perdão.
Putaquepariu a falta de vibração!
Assim, quando a bola rola, o time até assume uma boa postura em campo e vai pra cima do adversário. Porém, falta-lhe a firmeza dos conquistadores. Joga bem, cria oportunidades, mas na hora JOTA entrega a rapadura. Por isso, mais uma vez, mesmo jogando melhor, o Vitória perdeu. E perderá sempre que entrar em campo entoando o discurso dos derrotados. É hora, portanto, de começar a mudança simbólica. 2010 é logo ali.
Eis minha teoria sobre o “enigma vitoriano” e sua possível superação. Quem tiver outra explicação, que apresente – ou se cale para sempre.